Qual filme vai para o paredão? Melhor, não entra no circuitão?

Ao ler na rede sobre a lista com os maiores fracassos de bilheteria de Hollywood nos últimos cinco anos, publicada pela revista Forbes, percebi que alguns títulos que figuravam nesta relação maldita em que ninguém quer estar, foram lançados, no Brasil, diretamente em DVD.

Encabeçava a relação o filme “A Grande Ilusão” (“All the king´s men”), uma refilmagem do clássico homônimo produzido sob a batuta de Robert Rossen. Driblando as expectativas de público e crítica, o dito cujo foi parar direto nas prateleiras das locadoras. O mais curioso é que a nova roupagem, dirigida por Steven Zaillian, traz nos créditos um elenco estrelar, com nomes como Sean Penn, Jude Law, Anthony Hopkins e a eterna Kate “Rose” Winslet (eu, particularmente, prefiro a versão mulher-de-classe-média-inconformada-e-devassa-enrustida de “Foi apenas um sonho” – adoro quando um diretor esmiúça a rotina medíocre da classe média revelando sua hipocrisia). Com este recheio, a torta de Zaillian deveria ser exposta é na vitrine da confeitaria Kurt, ou seja, na tela grande.

O que inquieta minha alma pecadora é o fato de muitos filmes estarem no outro extremo do espectro, bem cotados pela crítica e aguardados ansiosamente pela galera, também estão aportando direto na versão em DVD. Exemplos bem recentes são “Tá rindo do quê?”, com Adam Sandler, dirigido por Judd Apatow (o novo Midas da comédia autoral americana), “O elo perdido”, com Will Ferrell, e o mais recente longa-metragem estrelado por Michael Douglas, o suspense jurídico “Acima de qualquer suspeita”, dirigido por Peter Hyams. Todos privados de um espaço no circuito exibidor nacional. Sem falar no laureado “Guerra ao terror”, da diretora Kathryn Bigelow. Como podem ocorrer tantos erros de julgamento como esses?

Como bom jornalista (o adjetivo é duvidoso), comecei a me questionar: o que faz com que uma produção padrão Hollywood seja lançada diretamente em DVD, pulando o circuitão? Qual é o crivo? Quem é o responsável? O que é levado em consideração? O potencial estimado de arrecadação? Agenda cheia do mercado exibidor? Falta do lobby necessário? Será que alguém deixou de dar pra alguém? O encarregado não tomou o seu remédio como deveria? Proposta estética que poderia ter apelos distintos em culturas diferentes? E a voz do povo? Ela não tem vez? Existe alguma teoria da conspiração por trás disso (eu adoro uma teoria conspiratória, por mais absurda que pareça)? Não poderia haver plebiscitos em casos de grande repercussão na seara cinéfila, como os citados acima? Onde vivem os monstros?

Já adianto que tenho mais perguntas do que respostas. Afinal, isto aqui é um blog, e não uma reportagem de jornal. Assim que tiver uma resposta satisfatória, comunicarei a todos. Tentei entrevistar um amigo meu realizador de filmes independentes. Bom… Na verdade, ele faz montagens com vídeos do circuito interno do prédio dele. Primeiro eu mirei em Pandora. O James Cameron não quis falar comigo. Agora que “Avatar” vai acabar de massacrar o transatlântico Titanic e assumir o posto de maior iceberg do mar do norte no quesito bilheteria, ele está um pouco cheio de si e não deu bola para este humilde blog. Voltando ao meu amigo, futuro diretor de sucesso –  o novo Matheus Souza -, o problema é pouca farinha para muito pirão. Completou dizendo que santo de casa não faz milagre e pau que nasce torto nunca se endireita. Não sei o que ele quis dizer com tudo isso, mas foi profundo. Cameron não diria nada melhor, nem em língua Na’vi, conectado com as forças da terra.

Duas coisas são certas (e aqui fica o grito de um apaixonado por cinema):

1) Se alguém me privasse de “Deixa ela entrar” na telona, eu ficaria muito indignado e faria xixi na porta da Ancine (não sei nem se a autarquia tem culpa no cartório, mas alguém tem de pagar), como uma forma de protesto desabrido (adorei essa palavra, desabrido). A produção sueca do diretor Tomas Alfredson mexeu com minha sensibilidade cinéfila e, na minha opinião, juntamente com “500 dias com ela” (Marc Webb), “À procura de Eric” (Ken Loach) e “Bastardos inglórios” (Tarantino), é um dos melhores filmes de 2009. Até hoje eu fecho os olhos e vejo aqueles olhos azuis expressivos e mortais, mas ao mesmo tempo ternos e inocentes, da personagem de Lina Leandersson, a vampirinha Eli. Taí… Tenho que escrever uma crítica sobre o filme. Alguém me lembre disso…

2) Quero ver quem é macho de vetar este que vos escreve dos corpos esculturais de Zoe Saldana (a minha Neytiri), Angelina Jolie, Katie Hudson e companhia limitada na tela grande (eu ainda não tenho tela de LCD 42’’ em casa, tenham dó, poxa vida…). Só se for por um motivo de saúde pública. O coração entra em descompasso e aí, malandro, já viu, né? Meu pai, com quase 80 anos, não pode ver um troço desses (minha mãe também é muito ciumenta).

Fica aqui este libelo contra quem a carapuça tenha servido. Inté!

Carlos Eduardo Bacellar

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1 comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar

Uma resposta para “Qual filme vai para o paredão? Melhor, não entra no circuitão?

  1. Carlinhos, há inúmeras variáveis, porém poupar-te-ei (adoro mesóclise!) do verborrágico economês. Trata-se: (1) O filme tem que ter um distribuidor interessado em “arriscar” o filme em salas de cinema; (2) Para tal, precisa arcar com custos de comercialização que garanta o mínimo de exposição ao produto nas “prateleiras” (salas de cinema) e lucros à matriz; (3) Nosso padeiro (distribuidor é um fabricador de pães diferenciados), em seu ensaio matemático, prevê se os custos de fabricação de pães batem com a potencial venda. Se a conta não fechar, o filme vai para o mercado de DVD, que vive do grande volume de títulos. Beijos da tua amiga bloggeira.

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