Arquivo do mês: fevereiro 2010

Sam Mendes vegetariano

O último filme do diretor inglês Sam Mendes, “Por uma vida melhor” (“Away we go”, no original) é mais um órfão do circuito exibidor nacional.  O realizador de “Foi apenas um sonho” (2008) e “Beleza americana” (1999) mal tirou sua nova produção do forno (lançada ano passado) e já teve que colocá-la para esfriar nas prateleiras das locadoras por aqui, quando ela poderia estar queimando nossas retinas e despertando nosso paladar cinéfilo com seu aroma estético indie na telona mais próxima.

Escrita por Dave Eggers e Vendela Vida, a história gira em torno do lindinho casal Burt Farlander (John Krasinski) – candidato a novo xodó da América que arrancou aplausos deste crítico com sua atuação em “Simplesmente complicado” – e Verona De Tessant (Maya Rudolph), que vive a expectativa da chegada do primeiro filho – e todas as dúvidas e agonias inerentes a ela. No sexto mês de gravidez, ao visitarem os pais de Burt, os pombinhos são surpreendidos pela notícia de que vovô e vovó Farlander (Jeff Daniels e Catherine O’Hara) vão, um mês antes do nascimento do futuro rebento, embarcar para uma temporada de dois anos na Bélgica. Como os pais de Verona já faleceram, os dois se sentem desenraizados de um ambiente familiar, e resolvem partir numa viagem para encontrar um novo lar, revendo parentes e amigos pelo caminho.

O que eles acabam descobrindo nas paradas (as filmagens passaram por sete cidades entre os Estados Unidos e o Canadá*) são famílias nada ortodoxas, para não dizer bizarras, que os fazem refletir sobre onde e de que forma querem construir o seu ninho e criar seu bebê. A inquietude enfrentada pelos dois apaixonados conduz a uma reflexão sobre a vida a dois que, longe de ser um mar de rosas, é um oceano emocional/afetivo turbulento, que dever ser navegado com cuidado. Não tirem as mãos do leme e sigam comigo.

Em suas desventuras, com certeza o casal Farlander (e nós) não irá se esquecer da personagem de Maggie Gyllenhaal, uma mãe hippie cheia de nove horas que tem um entendimento todo especial sobre como cuidar de sua família. Ela tira Burt e Verona do sério e nos presenteia com cenas divertidíssimas.

É certo que o diretor imprime um ritmo bem monótono nesta produção, quase soporífero, e ela não tem a força de suas realizações anteriores, algumas consideradas obras-primas – com “Beleza americana” ele arrancou cinco Oscar da Academia, inclusive o de melhor direção. Tal fato pode explicar a estratégia de comercialização. Mas, um Sam Mendes é um Sam Mendes, e tem seus acertos (embora ele possa muito mais).

O filme chama a atenção por três motivos. A charmosa fotografia capturada pelas lentes de Ellen Kuras encanta por sua simplicidade e beleza, lembrando os enquadramentos pitorescos de “Hora de voltar” (2004), gol de placa do diretor-ator Zach Braff (mais conhecido como o médico palerma da série “Scrubs”).

A trilha sonora, sob responsabilidade do compositor e cantor londrino Alexi Murdoch, emplaca baladas românticas que envolvem e criam o clima perfeito. Somos pegos pelo ouvido, literalmente. Com músicas do próprio Murdoch, George Harrison, Bob Dylan, The Velvet Underground e The Stranglers, a trilha é o maior destaque desta comédia dramática (ou seria drama cômico?) indie.

Fechando o pacote de pontos positivos, a produtora executiva Mari Jo Winkler-Ioffreda fez com que Mendes levasse o título do filme ao pé da letra. Com a preocupação ecológica atingindo também a perdulária indústria hollywoodiana, “Por uma vida melhor” seguiu no compasso politicamente correto das filmagens verdes. Ao tentar reduzir sua pegada de carbono, a produção optou por soluções que agredissem o mínimo possível o meio ambiente. Imbuídos do espírito Na’vi, todos os envolvidos nas filmagens usaram e abusaram da reciclagem de materiais, utilizaram carros híbridos na logística de produção e nos sets, incluíram no cardápio produtos orgânicos, aprenderam a fazer compostagem (reutilização de alimento), entre outras medidas para deixar menos cicatrizes na mamãe natureza, que agradece. Os interessados podem conferir um pequeno documentário sobre a iniciativa nos extras do DVD.

Carlos Eduardo Bacellar

*O crítico de cinema Carlos Alberto Mattos chamou minha atenção para a seguinte curiosidade: as filmagens, ao contrário do que parece, não passaram por várias cidades. Tudo (exceto cenas em Miami e os long shots do Arizona), até mesmo o Canadá foi filmado em Connecticut. Papei mosca ao assistir ao making of  (pretendo revê-lo, pois é muito interessante) que, segundo o Carlos Alberto, vem com essa informação. Fui ludibriado pela magia do cinema e deixei o ceticismo em estado latente.

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Distante do paraíso

Impossível ficar inerte ao trabalho do oscarizado Peter Jackson, pai adotivo da trilogia “O senhor dos anéis” – o pai biológico é o escritor e professor universitário sul-africano John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), autor da obra literária que inspirou o filme.

Em sua mais nova empreitada, “Um olhar do paraíso” (“The lovely bones”, no original), Jackson não abandona totalmente a fantasia, e retrata de forma feérica a história (nesta vida e na outra) de Susie Salmon (Saoirse Ronan, mais conhecida como Briony, a menina vouyer e estraga prazeres – leia-se empata foda – de “Desejo e reparação”), uma jovenzinha que tem sua vida (e seus sonhos) brutalmente interrompida aos 14 anos. O diretor neozelandês mais uma vez sorve da literatura as ideias para suas realizações – o longa é baseado no livro “Uma vida interrompida”, da romancista americana Alice Sebold.

Logo no início da trama, Susie é assassinada por seu vizinho George Harvey, um sociopata encarnado por Stanley Tucci. Destruídos pelo acontecimento trágico, os pais da menina (Mark Wahlberg e Rachel Weisz) e seus dois irmãos tentam superar a dor e continuar suas vidas. Só que o ponto de interrogação manchado de sangue não abandona o lar dos Salmon. O mais afetado é o pai, que não consegue aceitar a perda da filha e parte em busca de respostas. O que eles não esperavam é contar com a ajuda da menina morta que, presa numa espécie de limbo para almas com assuntos não resolvidos (in between), procura dar uma forcinha para que seus parentes descubram quem é o monstro que a matou, e possam ter paz de espírito.

Peter Jackson acerta na forma inteligente com que constrói o episódio do violento assassinato de Susie. Com elipses regadas a metáforas, o diretor sensibiliza sem despir aos olhos do público um fato hediondo. O universo onírico (que abusa de todas as cores da paleta) em que Susie lança sua âncora afetiva também é um regalo para os olhos. No mesmo compasso de produções como “A cela” (Tarsem Singh, 2000) e “Amor além da vida” (Vincent Ward, 1998), Jackson encanta e surpreende nossa imaginação ao utilizar o poder da computação gráfica para criar uma nova Terra-Média – desta vez não habitada por hobbits, anões e elfos, mas sim almas com questões pendentes – que fascina os sentidos.

Outro ponto marcado da linha de três metros pelo responsável por turbinar a área de turismo na Nova Zelândia é a escalação de Susan Sarandon para dar vida à descolada (beirando a inconsequência) e moderninha vovó Lynn. Mesmo em um papel pequeno, Susan impressiona e deixa sua marca.

Agora, ao contrário de produções como “Invisível” (2007), do realizador americano David S. Goyer, Jackson erra ao tentar criar pontes fluidas entre dois mundos. A realidade dos vivos e o limbo habitado pelo espírito de Susie ficam separados em dimensões estanques, e os elos criados pelo diretor não têm força para modificar a realidade de forma convincente (que é o que todos esperamos), muito menos nossas emoções, como no filme de Goyer. O lirismo não transborda para terra firme, ficando só na leve sugestão.

Um drama que poderia explorar o melhor do suspense hitchcockiano, alimentando toda a nossa angústia, acaba tangenciando a arte para cair no fosso das surpresas de filmes que se utilizam de sustos esporádicos com pouca qualidade. A ação dramática tem o mesmo tom monocromático de “Fim dos tempos” (M. Night Shyamalan, 2008), protagonizado pelo próprio Wahlberg, filme que gera grandes expectativas, mas promove desencantamento com uma trama mal destrinchada e resolvida. Como exceção, destaco o momento em que a irmã de Susie, Lindsey Salmon (Rose Mclver), encontra provas de que seu vizinho é realmente o responsável pelo crime. Tanto ela como Tucci nos fazem prender o fôlego por vários minutos. Ao emergirmos, não queremos ser resgatados pela embarcação do tédio.

O final funciona como uma resposta politicamente correta aos anseios do público, ávido por um encerramento que foge do estilo “Seven” (David Fincher, 1995). Peter Jackson acaba deixando seus fãs sem água na boca ao perder o ponto da massa do lembas que deveria alimentar esta sua criação. Vale o ingresso? Se for meia entrada, sim. Caso contrário, não vai se arrepender quem aguardar o lançamento em DVD. Não esperem muita coisa.

Carlos Eduardo Bacellar

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Troco de Scola com Truffaut

Edu foi a Buenos Aires e Carlinhos soltou a verve cinéfila regada a 20 filmes durante o Carnaval, incluindo “It’s complicated”, que ele assistiu antes de mim. Beleza, Carlinhos. Edu virá em alfajores e meu troco – com obras-primas – é de Scola (“Um Dia Muito Especial”) com Truffaut (“Os Incompreendidos”), ambos títulos alugados no depenado Cineclube Estação – graças a um certo locador inveterado.

Com “Os Incompreendidos” (1959), François Truffaut lançou a Nouvelle Vague e esteve à frente do rompimento com o tradicional cinema francês. Combinando relato documental em primeira pessoa com poesia existencialista, retratou a incompreensão vivida por um pré-adolescente em formação, que busca atenção dos pais e professores cometendo pequenos delitos e infrações disciplinares. No centro de reabilitação em que fixa residência, os olhos de Antoine, alter ego do diretor, fazem dor e alegria ganharem dimensões continentais, e comovem pela profundidade com que permeia de detalhes o universo infantil.

Se Truffaut opta pela problemática intimista, quiça pequeno-burguesa, Ettore Scola, em “Um Dia Muito Especial” (1977), aposta na profunda troca entre proletários. Enquanto Roma se prepara de ilusões para a visita de Hitler a Mussolini, a relação de uma dona de casa (mãe de seis filhos e casada com um militante fascista) com seu vizinho (artista) desempregado parece ser o único resquício de verdade nas redondezas. Scola contesta as incongruências do Fascismo, evidenciando as minorias: no despreparo da mãe de família patriota e no homossexualismo masculino. Materializadas na metáfora do pássaro que foge, dúvidas e esperanças – afetivas, sexuais e políticas – são compartilhadas em um dia (muito especial) na vida de Antonietta e Gabrielle. No fim, a rebeldia possível: ela volta à gaiola do lar desiludida, enquanto ele voa à detenção sexual repleto de certezas.

O meu Carnaval pode não ter sido em castellano, nem ganhou na quantidade de filmes, mas não há celebração maior do que o troco de Scola com Truffaut.

Helena Sroulevich

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Fatura do Carnaval

Enquanto muita gente encarou a maratona dos blocos de rua aqui no Rio, neste Carnaval, eu procurei ficar distante da folia. Quem quis me encontrar recebia instruções ou para me procurar em casa (combinávamos senha e contrassenha), ou para seguir na direção contrária do agito.

Os mantimentos para alimentar o espírito, no meu exílio voluntário, foram uma pilha de filmes selecionados a dedo. Quando ousava deixar a segurança da Bacellar Caverna, colocava minha máscara de Michael Myers (que assusta até soldado do Bope), dava uma banana para a colombina, uma banda no pierrô e um drible no bate-bola. Contrariando todo o emocional coletivo, saía pela tangente para alcançar a sala de cinema mais próxima. O resultado vocês podem conferir abaixo.

Caindo dentro do circuitão:

“A fita branca” (Michael Haneke, 2009) 145 minutos

“Ah… O amor!” (Fausto Brizzi, 2009) 120 minutos

“Educação” (Lone Scherfig, 2009) 100 minutos

“O lobisomem” (Joe Johnston, 2009) 102 minutos

“O mensageiro” (Oren Moverman, 2009) 112 minutos

“O amor segundo B. Schianberg” (Beto Brant, 2009) 80 minutos

“O segredo de seus olhos” (Juan José Campanella, 2009) 129 minutos

“Percy Jackson e o ladrão de raios” (Chris Columbus, 2009) 121 minutos

“Simplesmente complicado” (Nancy Meyers, 2009) 120 minutos

“Só dez por cento é mentira” (Lírio Ferreira, 2009) 78 minutos

“Um olhar do paraíso” (Peter Jackson, 2009) 135 minutos

Fazendo a limpa na locadora do Estação*:

“O pianista” (Roman Polanski, 2002) 148 minutos

“Garota interrompida” (James Mangold, 1999) 127 minutos

“Era uma vez na América” (Sergio Leone, 1984) 227 minutos

“O inquilino” (Roman Polanski, 1976) 126 minutos

“Estado de sítio” (Costa-Gavras, 1972) 119 minutos

“A bela da tarde” (Luís Buñuel, 1967) 100 minutos

“A Aventura” (Michelangelo Antonioni, 1960) 143 minutos

“A doce vida” (Federico Fellini, 1960) 174 minutos

“Roma, cidade aberta” (Roberto Rossellini, 1945) 97 minutos

Foram 20 filmes em 10 dias, totalizando 2503 minutos na retina (os extras não foram contabilizados), uma média de 2 filmes por dia. A ressaca da maratona cinéfila cobrou seu preço antes do tempo: já estou escrevendo Fellini no lugar de Rossellini, confundindo comédia com drama e trocando os gêneros na hora de identificar diretores. Ainda bem que este é um ambiente dinâmico. Numa pincelada, transformamos urubu em meu louro. Manter um blog dá mais trabalho do que eu imaginava… Acho que preciso de férias.

De qualquer forma, entre erros e acertos, espero que o Rodrigo Fonseca, repórter e crítico de cinema, esteja orgulhoso do caminho que seu padwan está trilhando.

Agora, se vocês me dão licença, vou descansar curtindo mais um filme.

Carlos Eduardo Bacellar

*Não me orgulho de coisas que fiz para conseguir alguns dos filmes: tirei DVDs das mãos de velhinhas; liguei para clientes cobrando, veementemente, filmes atrasados; convenci os mais inocentes de que “Showgirls”, de Paul Verhoeven, era melhor que “O pianista”, do Polanski (“o filme do franco-polonês é muito parado… não há muito agito nem mulheres em trajes ousados”); joguei um papo 171 na atendente, tentando convencê-la de que ela era it girl, com o objetivo de conquistar filmes reservados; troquei discos de caixa e por aí vai.

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Emoções à flor da pele garantem boas risadas

A diretora americana Nancy Meyers (tenho certeza acerca do gênero agora, Carlos Alberto Mattos, eu juro!), responsável por “Alguém tem que ceder” (2003), surfa na mesma onda temática que engoliu Berlim ao emplacar a mais nova comédia romântica da praça, “Simplesmente complicado” (“It’s complicated”, no original), explorando todo o talento da veterana Meryl Streep. O filme será lançado oficialmente no Brasil semana que vem, mas já rolam pré-estreias pela cidade para os que, como eu, não se seguram (Helena, eu vi primeiro!!!).

Na história água-com-açúcar, Jane (Streep) é uma empresária bem-sucedida do ramo de gastronomia (bate algum sino?) que ainda não engoliu seu divórcio com o advogado Jake (Alec Baldwin), com quem tem três filhos. Baldwin, pavoneando uma pança indecente – fruto de muitos Big Macs regados a refrigerantes – e soltando pelos em excesso, é o Tony Ramos (versão piorada) da terra do Tio Sam (me desculpe pela comparação infame, Tony). Superestimado, só faz verão em “30 Rock”. Ele me lembra um pouco o George Clooney, que tem a mesma expressão para qualquer situação dramática. Clooney leva vantagem por ser mais boa pinta, e ter muitos quilos a menos.

Apesar de a separação ter ocorrido há dez anos, os dois ainda têm assuntos mal resolvidos (leia-se: atração um pelo outro turbinada por complexos da idade).

A formatura do filho Luke (Hunter Parrish) é o estopim para que os ex-cônjuges dêem vazão a todo o tesão incubado acumulado ao longo de uma década. Só que o pacote não contempla só o sexo, e os dois acabam tendo de passar a limpo a relação, que foi abandonada em meio a mágoas, frustrações, ciúmes, dúvidas e arrependimentos.

Para completar a receita da confusão, o casal acaba arrastando para o turbilhão emocional os filhos, que também não digeriram totalmente a separação dos pais; a atual mulher de Jake, Agness (Lake Bell), bem mais nova do que ele, que carrega um filho pimentinha a tiracolo e nutre um desejo louco de ter um novo pimpolho; e o arquiteto banana Adam, apaixonado por Jane, vivido por um apagado Steve Martin, que faz um mero papel terciário (esse, coitado, quando resolve esticar as pernas para fora da seara da comédia pastelão, se complica e não convence).

A partir dessa situação, o roteiro cria algumas tiradas engraçadíssimas acerca de questões como sexo, casamento, divórcio, adultério, ciúme e família. Sim, a família (olha a temática que dominou Berlim aí!), que com todas as suas peculiaridades, contradições, emoções, confusões e desajustes (não são todas assim?), gritando que somos todos estranhos no ninho. No momento em que foge um pouco do romance rasteiro e da comédia pequena, com suas piadinhas fáceis, passando a explorar as reações do núcleo familiar às desventuras do (ex)casal, a produção cresce e se torna algo mais, amparada pela força da atuação da mamãe Jane.

Meryl Streep brilha, encantando nossos olhos como uma mulher fragmentada por emoções contraditórias, que tenta entender como ser feliz sem desagradar as pessoas que ama – e ela mesma.

Outra grata surpresa é Harley (John Krasinski), o noivo da filha mais velha de Jane, Lauren (Caitlin Fitzgerald), que, ao descobrir que seus futuros sogros estão aprontando, dá um show ao procurar preservar a amada de todo o imbróglio. É claro que ele não consegue, mas sustenta uma atuação surpreendentemente divertida por tempo suficiente para arrancar aplausos da plateia.

Jane vai entender que não existe receita de bolo para a felicidade (que relacionamentos são complexos e imprevisíveis ela já pescou pelo título do filme). O amor – agridoce, apimentado, azedo ou adocicado -, pode ser um tempero complicado de se combinar com certos ingredientes. No processo, nossas retinas se fixam em na atuação, que arranca emoções sinceras.

Carlos Eduardo Bacellar

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Amor: encontros, desencontros e dois filmes iguais!

Mulher adora uma comedinha romântica. E lá fui eu me meter a assistir a dois filmes – iguais – hoje. “Idas e Vindas do Amor” (que acaba de estreiar) e “Ah… O Amor!” só têm de diferente a nacionalidade.

“Ah… O Amor!” é italiano, cheio de personagens hiperbólicos (falam demais, gritam demais, são excessivamente melosos e dramáticos…) e assim se consideram doutores em relações amorosas. Se metem em historinhas previsíveis – crise da meia-idade com trilha sonora”Sex Bomb” (de chorar de rir!), do divórcio, da mulher apaixonada pelo padre, da briga por custódia dos filhos, dos pais confrontados com a iniciação sexual dos filhos e etc etc – e passam boa parte do filme acreditando na razão que a própria razão desconhece; como homens vítimas de mulheres coração de pedra. Será? Bom, lindinho é o romance do casal jovem que monta o quebra-cabeças do amor à distância. Ambientado entre a França e a Nova Zelândia, eles nos surpreendem, encantam, desencantam, têm a nossa torcida, deixam a gente quase no desespero para, enfim, viverem juntos para sempre. É bonito de ver o amor embalado por Creed, James Blunt e suas baladinhas que fazem o coração bater mais forte, como no – é um spoiler – encontro dos dois na escada rolante do aeroporto de Hong Kong, no final do filme. Claro que não faltaria um aeroporto. Quantas dezenas de vezes aeroportos já foram sinônimos de encontros e desencontros amorosos na história do cinema?

O casal jovem valeu o ingresso. Desperdício foi “Idas e Vindas do Amor”. Por que não me deixei influenciar pelo Ely Azeredo, crítico de “O Globo”, que dificilmente erra e já tinha aniquilado o filme esta manhã? Por quê? A tentativa foi de repetir o filme inglês (bonitinho) “Love Actually” (2003), com aeroporto, é claro, mas sem Colin Firth, Hugh Grant e Rodrigo Santoro. É um elenco de primeira, em que Anne Hathaway (a musa do Carlinhos aqui do Blog) e Jennifer Garner se destacam, enquanto ótimas atrizes como Kathy Blates e Shirley MacLaine e seus fantasmas me perseguem perguntando o que fazem ali. As obviedades se cruzam, como em “Ah… O Amor!”, e todas levam ao final feliz. A “amizade” de Julia Roberts e Bradley Cooper no avião rende um bom texto e desenlace de fazer qualquer mulher se desesperar… Assistir ao Bradley Cooper nos braços de um – é um spoiler – jogador americano é triiiste. Fiquei mal. E para completar o festival dos horrores, o filme ainda” surpreende” com um casamento indiano em pleno dia dos namorados, celebrando a infelicidade das mulheres solteiras. Se você ainda não se convenceu, see for yourself. Agora, se confia na opinião de quem vos escreve, não perca seu tempo. Mesmo.

Finais felizes merecem vida real, pois ter que engolir mesmices no cinema é chatíssimo. O tempo do amor na vida cinematográfica dura 2h ou 90 min, como Paulo Halm sugerirá em poucos dias, assim que “Histórias de Amor duram apenas 90 minutos” entrar em circuito comercial. Até lá, “filmes de amor” permanecerão iguais nos encontros e desencontros.

Helena Sroulevich

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Long Tracking Shots: os planos-sequência!

Instigada pelo twitter do Carlinhos Mattos (amigo é para essas coisas…), dono de um blog MUST READ http://carmattos.wordpress.com, dormi pensando em planos-sequência. E acordei disposta a cavar tudo que eu podia ou não na internet…

Planos-sequência são aquelas cenas longas de caráter investigativo e revelador, em que não há cortes. Quando assistirem a “O Mensageiro” (Moverman) e “O Segredo dos Seus Olhos” (Campanella), ambos em cartaz, serão brindados com belos exemplos! Aliás, a cena do estádio do filme do Campanella , que o Carlinhos Mattos encontrou na rede, virou peixe aqui. Olhem desde já!

Outras preciosidades, capazes de atiçar o cinéfilo incubado em todos nós, podem ser encontradas no blog “Daily Film Zone”. Além de ser uma excelente fonte de informação sobre o cinema, o cara faz uma seleção de 20 long tracking shots inacreditavelmente belos; que certamente entrariam entre os mais belos da minha conta. Tem o I Am Cuba (1964) – The Rooftop – dir. Mikael Kalatozov, que é genial (e que vale à pena ser conferido como filme e como documentário, versão do meu amigo Vicente Ferraz). Tem o meu poeta, o Antonioni. Tem a “mulher que bomba”, a indicada ao Oscar Kathryn Bigelow, que já despertava curiosidade na sua câmera há muito tempo… Não há o que falar. Confiram: http://www.dailyfilmdose.com/2007/05/long-take.html

Um dos grandes acertos da lista acima está na seleção dos filmes, uma vez que na época em que a maioria dos longas foi realizada, planos-sequência daquela magnitude exigiam verdadeiras engenharias de maquinária; além de muita criatividade e talento dos técnicos envolvidos. Não havia gruas enormes, daquelas de cinema americano, que fazem a gente babar, e que aqui só encontramos versões nano no Projac ou na RecNov. É fato.

O cinema brasileiro, entretanto, nunca deixou a desejar. Tem lindos exemplos de planos-sequência, que não encontrei na rede, mas estimulo que sejam vistos por vocês. O primeiro deles está em “Os Fuzis”, do Ruy Guerra. Há quem tenha pinimba com o cineasta, mas eu vejo um belo diretor ali, principalmente neste filme, e em “A Queda” (vencedor do Urso de Prata em Berlim). Show de cinema. Outro bom exemplo é “Terra em Transe”, do Glauber Rocha, em que o Dib Lufti, nossa grua do Cinema Novo, faz verdadeiros malabarismos com a câmera. Este título revi recentemente nas aulas do meu professor Bigode (Luis Carlos Lacerda). É de arrepiar. Procurem no Cineclube mais próximo ou no Canal Brasil. E se você tiver algum plano-sequência bacana para compartilhar, escreve aí. Me amarro em câmeras doidas! Segue o plano-sequência.

Helena Sroulevich

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