“Guerra ao Terror”: o novo velho pão do mercado.

Timidamente, me pronunciei sobre os porquês do mercado cinematográfico, a partir de perguntas ser ou não ser circuitão do Carlinhos (aqui do Blog). Hoje, instigada por uma troca de receitas de pão, via e-mail, detonarei “Guerra ao Terror”.

O distribuidor cinematográfico – Paramount, Universal, Sony, Imagem Filmes, Fox, Imovision, Europa, Downtown, e etc – é o responsável pela colocação dos filmes nas salas de cinema. Grosso modo, seu trabalho se parece ao de um comerciante de pães diferenciados. Distribui croissant, pão francês, ciabatta, pão de forma, australiano, integral, light e por aí vai. Cabe à ele ousar em novas formas de empacotá-los e o risco financeiro de colocá-los à prova dos mais variados gostos nas distintas padarias (salas de exibição/locadoras/grupos varejistas) existentes no país.

A partir de um exercício ecônomico, avalia o potencial de cada novo pão no mercado, combinando possibilidades de receitas futuras com resultados passados de pães semelhantes. Desta Matemática deriva a decisão de lançar novos títulos em salas de cinema (primeira janela de comercialização),  diretamente no mercado de DVD (segunda janela) ou primeiro em theatrical, depois em homevideo. Como em qualquer negócio, a regra é minimizar custos  e maximizar lucros.  De maneira simplificada, este é o business do nosso expert dos pães, perdão, distribuidor.

Lendo a primeira página do Segundo Caderno (O Globo) de  hoje, pensei: “Guerra ao Terror” – empatado com “Avatar” em indicações ao Oscar 2010 – só pode ter sido um fiasco no mercado de homevideo… O que justifica o filme ser lançado em cinema, depois de já ter saído em DVD desde o ano passado, contrariando o fluxo das janelas? Será que a conta do nosso pãozinho “Guerra ao Terror” não fechou? Ou a decisão de desensacá-lo na telona não se pauta na razão e é resposta (subjetiva) ao auê em torno da “mulher que bomba”?

Prezo a Ciência, mas a decisão de ser ou não o pão da semana pode ter um quê de feeling… Vamos às oferendas (afinal, hoje é dia de Iemanjá): (1) Bigelow é uma padeira e tanto. (2) Ao longo de sua cinebiografia, foram inúmeros os oba-obas, indicações e prêmios outorgados pelos sindicatos e associações de cinema à ela. (3) Questões em torno da relação entre americanos e iraquianos despertam curiosidade.  (4) Obama e McCain nos enfiaram “Guerra ao Terror”(*) goela abaixo, enquanto disputavam a sucessão presidencial nos EUA. (5) No Google, The Hurt Locker (título original do filme) e ramificações beiram 80 milhões de incidências. Quer sucesso maior?

O estimulante negócio da distribuição deixa refém até um profundo conhecedor de pães, como a Imagem Filmes. Sexta-feira chega aos cinemas o novo velho pão do mercado. Será que o empacotamento final contou com os mesmos ingredientes que deixam nossos pãezinhos tupiniquins menos competitivos?  Ou simplesmente não foi viável lançar o filme antes devido ao concentrado circuito de padarias (circuito exibidor), abarrotado por pães-de-férias-da-Fox-tamanho-família “Avatar” e “Alvim e os Esquilos 2”? Cálculos matemáticos e questões do mercado à parte, fica o recado: “Guerra ao Terror” (**) é a maior diversão.

Helena Sroulevich

(*) Licença poética: torres gêmeas, Afeganistão, Iraque e cia ilimitada estão no mesmo saco.

(**) O bagelow (bagel + bigelow = trocadilho infame) é  bem dirigido. Tem aquela câmera nervosa, que eu adoro, e qualidades de som e imagem para saborear no escurinho da padaria mais próxima! O grande crédito é mesmo da Direção da Kathryn Bigelow. O Directors’ Guild foi justíssimo. Quanto ao Oscar, seria lindo vê-la recebendo, mas, por outro lado, que outro Diretor no mundo seria tão metódico, paciente, refinado para fazer um “Avatar”, como o James Cameron? Esta dúvida tem me dado crises digestivas… mas só esta. “Avatar” é muito mais saboroso que “Guerra ao Terror”. Não entendo o alvoroço…

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