Nine mais para zero

Sob pesada artilharia da crítica especializada, “Nine”, o novo musical de Rob Marshall, diretor do divertido e contagiante “Chicago” (2002), não emplaca no circuito e desce amargo na goela de quem teve a coragem de gastar dinheiro para conferir “a obra”.

Filme que utiliza como matéria-prima a produção 8 ½, de Federico Fellini – que deve estar saindo de enquadramento na cova –, traz Daniel Day-Lewis no papel de um diretor italiano – Guido – em crise criativa. O realizador acaba se isolando e, por meio de delírios da imaginação, recorre às mulheres que marcaram sua vida em busca de inspiração, misturando ficção com realidade.

Marshall não conseguiu realizar com Day-Lewis a mesma mágica que transfigurou Richard Gere em um advogado canastrão e talentoso que dança e canta de formas quase convincentes. O ator inglês canta muito mal – por incrível que pareça, canta pior do que eu quando resolvo incorporar James Blunt debaixo do chuveiro, com meus tenebrosos falsetes e tudo.

Os números musicais até têm sua graça no quesito coreografia. As letras, por sua vez, são sofríveis e não empolgam – reforçam de forma insistente a óbvia conotação italiana do filme. Para não dizer que nada se salva, destaque para os números de Kate Hudson (a inesquecível roadie Penny Lane, de “Quase famosos”) e da sensação francesa Marrion Cotillard – até agora não descobri nada que ela faça mal. Será que Cotillard tem bafo?

O que mais inquietou meu espírito cinéfilo foi o fato de não ter entendido nada acerca do filme de Fellini – mesmo batendo várias punhetas mentais em casa. Já no caso da produção de Marshall, entendi tudo! – sem o menor esforço. Traduzindo: na lógica do mundo da sétima arte, isso quer dizer que o segundo filme não presta.

Outro detalhe sofrível é ver o furacão espanhol Penélope Cruz – a indefectível musa de Pedro Almodóvar -, que já virou Tom Cruise do avesso e faz até chover no deserto, apresentar um número provocante utilizando uma meia calça do tempo da minha avó, opaca e sem sal. Que falta de sensibilidade de Marshall… O que é bonito é para ser mostrado, e não eclipsado por um figurino supostamente de época.

Daniel Day-Lewis está no fundo do poço. E aquela maçaroca escura que ele avista aos seus pés não é petróleo, cheira diferente.

“Nine”, dando um chega para lá no politicamente correto, ainda vai disputar com “É proibido fumar”, da diretora brasuca Anna Muylaert, o título de realização cinematográfica recente na qual o protagonista mais fuma em cena. Chega a ser sufocante ver Day-Lewis tragando um cigarro atrás do outro. Não sei qual dos dois vai para o Guinness Book. A favor de “É proibido”, conta o fato de que a personagem vivida por Glória Pires tenta largar o tabagismo. Rob Marshall, que já enfiou o pé na jaca mesmo, podia abusar da licença poética e inventar outro meio de alívio para o estresse do personagem Guido, como um Twinkie – versão do Tio Sam do nosso bolinho Ana Maria -, por exemplo. Ponto para “Zumbilândia”!

Não sei por que não dei ouvidos à crítica e resolvi comprar ingresso para essa roubada… Pois é, ela de vez em quando acerta. Nos últimos tempos parece até previsão do tempo, tem dado muitas bolas dentro.

Os únicos apelos para assistir “Nine”, obviamente, são as musas, mas não todas. Coloquem na conta Penélope Cruz, Kate Hudson, Fergie (a profissional que eu pedi a Deus!!! I got a feeling!!!), Marrion Cotillard e, forçando a barra, Nicole Kidman. A plastificada Sophia Loren e a anciã Judie Dench não se salvam. Coitada da pobre senhora Dench, que foi obrigada a usar uma indumentária que eu não aprovaria para uma filha minha de 18 anos. Vamos com calma… Nem tudo pela arte, por favor.

É melhor economizar a grana para comer no McDonald’s. Tanto o filme como a rede de fast-food são uma porcaria. Mas o Mc tem a vantagem de oferecer ao cliente, na compra de um McLanche Feliz, brinquedinhos inúteis para distraí-lo nos momentos de tédio no trabalho e em casa. Da última vez que estive lá, adivinhem vocês?, a cadeia de “enlatados” americana estava oferecendo lembranças do filme sensação do momento, “Avatar”. Eu tenho o Jake Sully que acende no escu… Bom, deixa isso para lá…

Acho que já espinafrei “Nine” o bastante. Agora que desabafei, sinto-me bem melhor. Quem foi que disse que eu preciso de terapia?

Carlos Eduardo Bacellar


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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Fuja dessa roubada!!!

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