O nome dela é Claireece “Preciosa” Jones (a surpreendente Gabourey Sidibe, merecedora de figurar entre as cinco indicadas ao Oscar de melhor atriz), e sua história, angulada de forma crua e invasiva, precisa ser vista. Caso alguém acredite estar no fundo do poço, é melhor não deixar de conferir “Preciosa”, produção que amplifica na telona o drama ficcional desta garota de 16 anos.

A narrativa, que ganha vida pelas mãos do incipiente, mas promissor diretor americano Lee Daniels – que tinha como filho único na direção de longas a produção “Matadores de aluguel” (2005) -, possui tintas de um conto de fadas às avessas – é baseada no livro “Push”, da poetisa e artista performática Sapphire, nome artístico de Ramona Lofton.

Entre 1983 e 1993, a agora também escritora dava aulas no Bronx, ensinando adolescentes e adultos a ler e escrever. Construiu “Preciosa” mesclando experiências de diversos ex-alunos e de pessoas que conheceu quando trabalhou como atendente em um abrigo para mulheres do Harlem. A personagem  é o “Frankenstein” de Sapphire, e reflete todos os nossos preconceitos.

Por meio das lentes de Daniels, percebemos que a grama do vizinho não é tão verde como imaginamos, e é regada com lágrimas de rejeição e incompreensão (poderia ser um filme de Spike Jonze).

“Preciosa” é uma adolescente negra, pobre, obesa e analfabeta. Vive no Harlem nova-iorquino com a mãe Mary – interpretada de forma visceral pela atriz americana Mo’Nique, mais conhecida por seus trabalhos como comediante e favorita ao Oscar de melhor atriz coadjuvante -, de quem sofre constantes abusos físicos e psicológicos. A coitada tem sua infância dilacerada e seus valores deturpados. Claireece enxerga dor, rejeição e ódio de fontes que deveriam jorrar amor e compreensão.

Espera seu segundo filho, que, tanto como o primeiro – uma menininha com síndrome de Down, apelidada de Monguinha -, é fruto da violência do pai (Rodney Jackson), que a estupra e de quem contrai o vírus HIV. Não é de se admirar que ela tenha dificuldades na escola.

Mas é justamente na educação que Claireece encontra sua tábua de salvação, sua esperança, uma forma de continuar seguindo em frente e vislumbrar um futuro melhor para ela e seus filhos.

Em uma instituição alternativa, ela terá a ajuda da educadora Rain (Paula Patton) – a professora (linda!) que eu desejava ter no segundo grau… Deus não me deu essa benção… – e de um grupo de amigas problemáticas, cada uma com uma mochila nas costas entulhada de dramas pessoais. Completam a falange Lenny Kravitz, na pele do enfermeiro boa praça John, e a assistente social vivida por uma irreconhecível Mariah Carey (que falta faz uma maquiagem…). Aqui entre nós, alguém deve ter dito para a cantora que ou ela “Monster” (2003), ou nada de reconhecimento.

Aliás, no primeiro momento em que “Preciosa” e a personagem de Mariah (senhora Weiss) se encontram, a menina deixa aflorar resquícios da vampiromania pop que não larga de nossos cangotes – é uma forma de demonstrar, com seu limitado repertório, que sua vida está condenada a uma escuridão sem fim, e sem um Edward para ampará-la.

“Preciosa” encontra um meio de fugir de sua existência traumática se refugiando em sua imaginação. A professora Rain (Deus escreve certo por linhas tortas: eu não teria concluído o ensino médio se ela tivesse me dado aulas, e não por causa da falta de competência da docente, mas sim do excesso de conteúdo de seus dotes físicos) é um vetor para que ela perceba que a vida real pode ser especial – que ela é especial – e pode ter seus momentos de felicidade e satisfação. Claireece só precisa apostar nela mesma, e ousar ser tudo que ela pode ser (não resisti ao clichê), independentemente de qualquer outra coisa.

No início, eu disse que a história dela precisa ser vista. Para “Preciosa” Jones, ela precisa ser escrita – a tinta e a pena como formas de expurgo e como símbolos da vitória que ela pode conquistar por meio da educação, ferramenta de transformação e integração.

p.s. Mo’Nique só não ganha o Oscar se a Academia encrencar com o fato de ela não ter raspado os suvacos na hora de filmar. Não precisava ser tão visceral, né? Deu mole!

Carlos Eduardo Bacellar

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