Antonioni: o poeta da realidade

O dom de calar é de Ettore Scola, Sergio Leone, Giuseppe Tornatore, Federico Fellini, Bernardo Bertolucci, Gabrielle Salvatore, Roberto Benigni e, finalmente, Michelangelo Antonioni. Em tempos de “Nine”, um vexame, filme desnecessário, repugnante e desonroso, minha ode e eterno amor ao cinema italiano, recheado de obras-primas. Aqui, uma homenagem e um pequeno extrato do legado: Depois daquele Beijo, do poeta da realidade.

Em julho próximo, faz três anos que Antonioni – o mestre, o poeta da dureza, das angústias, da dificuldade de interlocução entre os seres humanos – nos deixou, aos 94 anos. Recentemente revi três títulos do Antonioni: Deserto Rosso, A Aventura e Blow up – Depois daquele Beijo (todos disponíveis no Cineclube do Estação). Este último, que falarei logo adiante, foi merecedor de indicação ao Oscar de melhor diretor, estatueta que Antonioni apenas recebeu em 1995, pelo conjunto de sua obra.

Em Blow up, nosso personagem é louco por fotografia e usa a ampliação fotográfica para descobrir a realidade. Tem a ilusão de poder evitar um crime e passa por todo o impacto psicológico quando se dá conta que suas suposições podem não estar certas.

É um renomado fotógrafo de moda e prepara um livro de imagens sobre sua cidade, a Londres dos anos 60. Como parte deste trabalho, vai ao parque e, acidentalmente, fotografa um beijo. Amplia as imagens e percebe angústia no rosto da mulher. Com mais uma ampliação, descobre alguém escondido nos arbustos com uma pistola. Acredita que conseguiu evitar um assassinato. Volta ao parque e descobre um cadáver, mas percebe que se esqueceu de levar sua câmera fotográfica, o que o impede de registrar o fato. No dia seguinte, volta ao local e o cadáver já nao está lá.

Em paralelo ao crime, é mostrada a revolução nos costumes dos anos 60. Os apelos externos são tantos que o fotógrafo é displicente com sua vida. Deixa tudo inacabado pelo caminho: seu livro, seu casamento, suas fotos de moda. O trabalho de detetive é combinado a  sexo, drogas e rock n’roll. A incerteza sobre o progresso técnológico também é retratada. Ampliando suas fotografias, ele pode ver mais do que veria a olho nu. As ampliações acabam por transformar as imagens da realidade em puras abstrações/distorções – houve ou não um assassinato?

Assim como A Aventura, Depois daquele Beijo é um mistério sem resolução. O próprio protagonista desaparece no ar, em meio à ilusão artística. Sugere que a arte, como forma de jogo/brincadeira, é ilusória – não se pode investigar objetos visíveis à fundo. Uma bela foto pode não representar nada, apenas manchas sem sentido, quando muito ampliada.

Antonioni é o poeta da realidade. Há em cartaz um filme iraniano que se parece muito com o enredo de “A Aventura” e tem uma beleza do tipo Antonioni-na-veia. Chama-se Procurando Elly. Vale à pena conferir.

Helena Sroulevich

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