O Segredo dos (Seus) Olhos

O segredo dos (olhos) argentinos tem sido desvendado pelos óculos de Juan José Campanella (“O Filho da Noiva”, “Clube da Lua” e “O Mesmo Amor, A Mesma Chuva) e Fernando Solanas (“Sur”, “Tango, O Exílio de Gardel” e “Memória do Saqueio”). Dois grandes cineastas e um cinema argentino que, quando resolve ser bom, não tem para ninguém. Com “O Segredo dos Seus Olhos”, do mesmo Campanella, não é diferente : é candidato ao Oscar 2010 de Melhor Filme Estrangeiro, levou mais de 2,5 milhões de espectadores argentinos às salas de cinema — número de blockbuster naquele país — e é/foi aclamadíssimo pela crítica especializada por onde quer que passe – e olha que o filme tem rodado à beça.

Lançado em agosto de 2009  e conferido aqui no Festival do Rio, o filme retrata a história de um oficial de justiça recém-aposentado que, para preencher seu tempo ocioso, escreve um romance policial sobre um crime investigado por ele anos antes. O contato com o passado faz com que ele questione os resultados obtidos com as investigações e o rumo tomado por sua vida desde então. E a capacidade do passado de influenciar o presente – como o amor que permanece através do tempo. História das mais simples.

E a simplicidade é um luxo. É um suspense policial repleto de romance e comédia, e gran finale hitchcockiano – fato que deixaria vários distribuidores confusos sobre o gênero do filme ou  sobre como marketear o produto. Contrariamente, aqui tudo funciona em harmonia e está à serviço de um excelente roteiro, com belas interpretações, e uma direção digna de clínica oftamológica. A retina do público agradece os lindos enquadramentos de câmera e um plano-sequencia de arrepiar, daqueles arrasa estádio em ano de Copa do Mundo – coisa que só pode ser segredo da visão de Campanella.

O segredo dos (seus) olhos está no olhar da Doutora, amor da juventude do oficial; da garota assassinada no início do filme, do assassino, do juiz, do protagonista apaixonado – de todos -, que como eu acabam dizendo com os olhos o que a boca é incapaz de verbalizar. O olhar peculiar e minucioso também revela o segredo de um estupro/assassinato, em que o foragido é “acobertado” pelas instâncias governamentais corruptas. Tem, portanto, viés político, colocando em foco a ineficiência do Estado e a incapacidade de distintos órgãos de se sobrepor às jogatinas, muito comuns aos regimes militares – e que permanecem até hoje. A corrupção é um mal da América Hispano-portuguesa.

Os olhos ficam hipnotizados por 2h30. O filme é incrível e profundamente latino-americano (coisa que deixa a observadora aqui numa felicidade política e musical sem tamanho). Ao final do filme, olhos atentos dão lugar às lágrimas embriagadas de segredo. E ninguém duvida do segredo dos (seus) olhos.

Helena Sroulevich

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1 comentário

Arquivado em Filmaço!!!, Helena Sroulevich

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