Para não dizer que não falei de cinema brasileiro…

…e dos bons documentários em cartaz, minha porção de música e poesia vai para “O Homem que Engarrafava Nuvens”, do Lírio “gente boa” Ferreira, e para “Só 10% é mentira”, de Pedro Cezar. Dois documentários do cinema brasileiro que valem muito à pena.

Ficar de butuca em filas de salas de cinema é prato cheio para nós impressionistas. Sim, impressionistas. Não temos a pretensão de sermos críticos – conhecemos alguns excelentes no mercado – e muito menos cronistas/contistas – isto a gente deixa para o Rubem Fonseca, nosso semi-Deus. Ontem, quando fui finalmente assistir ao documentário sobre o Manoel de Barros, e rever o do Lírio, não resisti e preguei a anteninha numa conversa (triste) típica de frequentadores de cinema no Brasil:

Mãe: Maria, não! Pagar essa grana – cinema tá caro, minha filha – para assistir a documentário, não dá.

Filha: Mãe, mas é sobre o Manoel de Barros, que tem uma poesia interessante… Me falaram bem do documentário…

Mãe: Beleza. Escolha entre a poesia e a pipoca.

A filha ficou com a pipoca e acompanhou a mãe em “Guerra ao Terror”.

E assim foi a história da filha, que quase entrou na média de 3% do público frequentador de cinema – fatia pertencente aos documentários em salas de exibição. Pouco, né? Sim, se considerarmos os blockbusters (filmes estrangeiros de dezenas/centenas de milhões de dólares) com a maior porção do mercado e os documentários como concorrentes diretos dos filmes brasileiros de larga escala; o que faz o número de salas tender a zero quando o assunto é exibição. Uma pena, pois sempre há bons títulos a conferir, como “Simonal”, “Cidadão Boilesen”, “Caro Francis” e, neste momento, “Só 10% é mentira” e “O Homem que Engarrafava Nuvens”.

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

“Só 10% é mentira” conta a vida de Manoel de Barros, o poeta que mais vende no Brasil, no alto dos seus 91 anos. Há depoimentos de profundos conhecedores e admiradores de sua obra, além de imagens dignas de despertar o poeta (adormecido) em cada um de nós.

Se a gente lembra só por lembrar
Do amor que a gente um dia perdeu
Saudade até que assim é bom
Pro cabra se convencer
Que foi feliz sem saber, pois não sofreu
Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade entonce aí é ruim
Eu tiro isso por mim
Que vivo triste a sofrer.
Ai! Quem me dera voltar
Aos braços do meu xodó
Saudade assim faz roer
E amarga que nem jiló
Mas ninguém pode dizer
Que me viu triste a chorar
Saudade, meu remédio é cantar

Que falta eu sinto de um bem
Que falta me faz um xodó
Mas como eu não tenho ninguém
Eu levo a vida assim tão só
Eu só quero um amor
Que acabe o meu sofrer
Um xodó pra mim
Do meu jeito assim
Que alegre o meu viver

“O Homem que Engarrafava Nuvens” narra a vida e a obra do músico Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga, pai de Denise Dumont. É bem criativo, mostra o baião ganhando o mundo, imagens que vão de Carmem Miranda e Oscarito a Lirinha, Lenine, Gil, Caetano e Chico. Desafia a linguagem do documentário e atire a primeira partitura quem não se mexeu na poltrona do cinema ou não cantou baixinho alguma das várias maravilhosas canções interpretadas no filme. Diz aí…

Helena Sroulevich

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