Fogo amigo que expõe a dor

O filão das produções de guerra parece ser inesgotável. Mas na linha não ortodoxa de filmes como “Guerra ao terror” e “Trovão tropical” – este atacando na comédia e aquele detonando cargas dramáticas -, que trouxeram um novo frescor ao gênero, o diretor-produtor-ator Oren Moverman traz para as telas “O mensageiro”.

O drama trata dos reflexos da guerra em solo americano – prisma incomum que poucas vezes é explorado, já que afeta o ego do cowboy ianque imbatível. Os personagens de Woody Harrelson e Ben Foster são militares encarregados da difícil tarefa de notificar parentes acerca das baixas (mortes, no português claro, livre do ranço gramatical militar) de seus entes queridos, geradas por conflitos, muitas vezes distantes, que civis dificilmente compreendem.

O capitão Tony Stone (Harrelson) é um burocrata cascudo que nunca provou o sabor do conflito. O jovem sargento Will Montgomery (Foster) é um herói de guerra que, alguns meses antes de sua baixa no exército, é recrutado para acompanhar o capitão Stone na missão que se mostrará a mais desafiadora de sua vida.

Um trabalho que, em princípio, parece banal e entediante para um soldado habituado ao combate, acaba ganhando contornos complexos. Stone verá que pode ser mais fácil lidar com o fogo inimigo do que com o sofrimento de americanos que, de repente, encaram a face real dos conflitos, quando corpos são enviados de volta para casa para serem enterrados.

Ao dilacerar a alma humana e revelar o que ela tem de mais frágil – por meio da pior notícia que alguém poderia receber -, Moverman expõe a seiva da dor. É com sumo de espíritos afetados pela perda que os dois militares precisam lidar.

O mais irônico do filme reside no fato de que tanto o capitão Stone como o sargento Montgomery não seriam os mais indicados para lidar com pessoas em momentos críticos. Stone é um alcoólatra inveterado, metido a garanhão, que se engana na tentativa de largar o vício. Montgomery sofre com seqüelas da guerra e mantém um relacionamento com uma mulher compromissada (Jena Malone), prestes a subir no altar. Além de lidar com a tormenta sentimental catalisada pela dor da perda, eles precisam exumar os próprios fantasmas. Freud explica tal escolha do exército americano…

Tanto Stone como Montgomery, unidos pelo acaso, tentam encontrar uma forma de enfrentar o estresse pós-traumático dos outros e sair ilesos, o que não parece possível. Em “terreno inimigo”, o sargento acaba se apaixonando por Olivia Pitterson (Samantha Morton), enquanto o capitão vivido por Harrelson se entrega à bebida. Ambos irão descobrir que a pior batalha pode ser a que travamos dentro de nós mesmos; e que o pior da guerra não está nos caixões que voltam enrolados em bandeiras, mas nos sentimentos que eles detonam, estraçalhando uma nação.

Carlos Eduardo Bacellar

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