O limite da educação

“Educação” (“An education”, no original) é mais um projeto de dimensões hollywoodianas que cai no colo de uma obscura diretora europeia. Desta vez a sorteada foi a realizadora dinamarquesa Lone Scherfig.

O frio na barriga, fruto da dúvida com relação à direção, é acompanhado pela expectativa, já que o roteiro foi confiado ao escritor inglês Nick Hornby, credenciado por obras como “Alta fidelidade” (2000) e “Um grande garoto” (2002), livros já adaptados para a telona: o primeiro dirigido por Stephen Frears, e o segundo Chris e Paul Weitz – roteirizados por D. V. DeVicentis e Peter Hedges, respectivamente.

Mas os ventos gelados do norte não são prenúncio de notícias ruins. A história gira em torno da vidinha insossa, planejada e segura de Jenny (Carey Mulligan), típica adolescente de classe média inglesa dos anos 1960. Filha de um casal conservador, ela vive os dilemas da adolescência no momento em que se prepara para prestar exames de admissão para a faculdade. Alguém já ouviu essa história antes? Pois é… Alfred Molina (primoroso) interpreta Jack, o pai quadradão e autoritário que deposita todas as suas expectativas (e sua grana) na formação de Jenny. Seu sonho é que a filha ingresse em Oxford. Marjorie, a mãe atenciosa, compreensiva e conivente, encarnada pela insípida Cara Seymor, faz contraponto ao sisudo e obtuso chefe da família.

O grande problema do drama (e de todos nós) é que, geralmente, os sonhos dos pais e dos filhos não coincidem. Jenny, na idade em que os hormônios começam a entrar em ebulição, conhece o charmoso, abonado e enigmático David (Peter Sarsgaard, tirando o ranço dos papéis sinistros), um homem mais velho que vira sua vida de pernas para o ar. Na companhia de David – sempre acompanhado do endinheirado Danny (Dominic Cooper) e da loiríssima insipiente Helen (Rosamund Pike) -, Jenny é tragada para uma vida completamente diferente da sua, na qual seu coração é descompassado por jantares, leilões, viagens, gastos excessivos – tudo com o que ela nunca teve contato, ou não era permitida ter. O que era direita vira esquerda, e o certo não parece mais tão certo assim. Ela mergulha na vida louca, e gosta do veneno. Chega o momento das escolhas.

Logo Jenny descobre que a vida não é tão colorida como ela sonhava, escondendo segredos em zonas cinza que a menina, ao amadurecer na marra, vai enxergando. Ela vai entender, à custa da dor, que nada vem fácil, e toda escolha tem o seu preço e suas consequências.

Pode parecer uma batida trama sobre a formação e o crescimento de uma menina, e sua transformação em mulher. Também é. Mas não podemos subestimar a sensibilidade do roteiro. As reviravoltas na então existência linear de Jenny são a premissa para que, auxiliada pela malícia do texto de Hornby, a diretora dinamarquesa ajuste suas lentes e deslinde a hipocrisia e falsa moralidade que impregnam a classe média, expondo os esqueletos que se escondem sob um manto de pseudorrespeitabilidade. É um tapa na cara ao estilo chá das cinco. É nas entrelinhas que reside a força e a beleza da pena de Hornby.

A câmera burocrática de Scherfig não inova, mas capta o melhor da carga dramática do elenco, que, encabeçado pela incrível Carey Mulligan, é o ponto forte desta produção.

A atriz (lindinha) dosa, na medida certa, meiguice e esperteza inocentes que desestruturam e sensibilizam. Há muito tempo que não aparece uma jovem atriz com tanta força no olhar; um olhar que expressa todas as nuances de sentimentos conflitantes, na medida certa. A atuação de Mulligan arrebata. Os papéis de atrizes experientes como Emma Thompson (a bitolada diretora da escola de Jenny) e Olivia Williams (a depressiva professora Stubbs) só servem de palco para que a surpreendente atriz londrina mostre todo o seu talento. O próprio núcleo familiar, com o emblemático patriarca Molina, apenas funciona de moldura para complementar, sem chamar demasiada atenção para si, a interpretação dessa estrela. Mulligan vale o ingresso e os aplausos deste que vos escreve.

Problemas (opções?) na montagem mudam a cadência do filme na meia hora final, e atropelam um pouco os acontecimentos derradeiros. O espectador fica na situação de ter de saltar, no susto, sobre hiatos, para poder acompanhar, sem tempo para respirar, o ritmo da narrativa – nada que comprometa a qualidade da produção e o brilho de Carey, uma jovem atriz que encanta. Olho vivo nesta menina (mulher?), que promete. Sandra Bullock vai ter que suar muito para levar o Oscar para casa. Eu apostei meus cartões de Super Trunfo em Bullock, mas a atuação magistral de Mulligan me deixou dividido (estou repensando minha decisão).

“Educação” é uma transposição para as telas da autobiografia homônima da jornalista britânica Lynn Barber. A história tem como gênese um ensaio que Barber escreveu para a edição britânica da revista Granta.

Curiosidade: Hornby se baseou no material publicado na Granta da terra de Sherlock Holmes, e não no livro, para roteirizar “Educação” (http://en.wikipedia.org/wiki/Lynn_Barber).

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. As perguntas que não querem calar: 1) O que Carey Mulligan viu em Shia LaBeouf? 2) Por que todos os estudantes ingleses retratados no cinema, ultimamente, me lembram Harry Potter?

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

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