Emoções à flor da pele garantem boas risadas

A diretora americana Nancy Meyers (tenho certeza acerca do gênero agora, Carlos Alberto Mattos, eu juro!), responsável por “Alguém tem que ceder” (2003), surfa na mesma onda temática que engoliu Berlim ao emplacar a mais nova comédia romântica da praça, “Simplesmente complicado” (“It’s complicated”, no original), explorando todo o talento da veterana Meryl Streep. O filme será lançado oficialmente no Brasil semana que vem, mas já rolam pré-estreias pela cidade para os que, como eu, não se seguram (Helena, eu vi primeiro!!!).

Na história água-com-açúcar, Jane (Streep) é uma empresária bem-sucedida do ramo de gastronomia (bate algum sino?) que ainda não engoliu seu divórcio com o advogado Jake (Alec Baldwin), com quem tem três filhos. Baldwin, pavoneando uma pança indecente – fruto de muitos Big Macs regados a refrigerantes – e soltando pelos em excesso, é o Tony Ramos (versão piorada) da terra do Tio Sam (me desculpe pela comparação infame, Tony). Superestimado, só faz verão em “30 Rock”. Ele me lembra um pouco o George Clooney, que tem a mesma expressão para qualquer situação dramática. Clooney leva vantagem por ser mais boa pinta, e ter muitos quilos a menos.

Apesar de a separação ter ocorrido há dez anos, os dois ainda têm assuntos mal resolvidos (leia-se: atração um pelo outro turbinada por complexos da idade).

A formatura do filho Luke (Hunter Parrish) é o estopim para que os ex-cônjuges dêem vazão a todo o tesão incubado acumulado ao longo de uma década. Só que o pacote não contempla só o sexo, e os dois acabam tendo de passar a limpo a relação, que foi abandonada em meio a mágoas, frustrações, ciúmes, dúvidas e arrependimentos.

Para completar a receita da confusão, o casal acaba arrastando para o turbilhão emocional os filhos, que também não digeriram totalmente a separação dos pais; a atual mulher de Jake, Agness (Lake Bell), bem mais nova do que ele, que carrega um filho pimentinha a tiracolo e nutre um desejo louco de ter um novo pimpolho; e o arquiteto banana Adam, apaixonado por Jane, vivido por um apagado Steve Martin, que faz um mero papel terciário (esse, coitado, quando resolve esticar as pernas para fora da seara da comédia pastelão, se complica e não convence).

A partir dessa situação, o roteiro cria algumas tiradas engraçadíssimas acerca de questões como sexo, casamento, divórcio, adultério, ciúme e família. Sim, a família (olha a temática que dominou Berlim aí!), que com todas as suas peculiaridades, contradições, emoções, confusões e desajustes (não são todas assim?), gritando que somos todos estranhos no ninho. No momento em que foge um pouco do romance rasteiro e da comédia pequena, com suas piadinhas fáceis, passando a explorar as reações do núcleo familiar às desventuras do (ex)casal, a produção cresce e se torna algo mais, amparada pela força da atuação da mamãe Jane.

Meryl Streep brilha, encantando nossos olhos como uma mulher fragmentada por emoções contraditórias, que tenta entender como ser feliz sem desagradar as pessoas que ama – e ela mesma.

Outra grata surpresa é Harley (John Krasinski), o noivo da filha mais velha de Jane, Lauren (Caitlin Fitzgerald), que, ao descobrir que seus futuros sogros estão aprontando, dá um show ao procurar preservar a amada de todo o imbróglio. É claro que ele não consegue, mas sustenta uma atuação surpreendentemente divertida por tempo suficiente para arrancar aplausos da plateia.

Jane vai entender que não existe receita de bolo para a felicidade (que relacionamentos são complexos e imprevisíveis ela já pescou pelo título do filme). O amor – agridoce, apimentado, azedo ou adocicado -, pode ser um tempero complicado de se combinar com certos ingredientes. No processo, nossas retinas se fixam em na atuação, que arranca emoções sinceras.

Carlos Eduardo Bacellar

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