Sam Mendes vegetariano

O último filme do diretor inglês Sam Mendes, “Por uma vida melhor” (“Away we go”, no original) é mais um órfão do circuito exibidor nacional.  O realizador de “Foi apenas um sonho” (2008) e “Beleza americana” (1999) mal tirou sua nova produção do forno (lançada ano passado) e já teve que colocá-la para esfriar nas prateleiras das locadoras por aqui, quando ela poderia estar queimando nossas retinas e despertando nosso paladar cinéfilo com seu aroma estético indie na telona mais próxima.

Escrita por Dave Eggers e Vendela Vida, a história gira em torno do lindinho casal Burt Farlander (John Krasinski) – candidato a novo xodó da América que arrancou aplausos deste crítico com sua atuação em “Simplesmente complicado” – e Verona De Tessant (Maya Rudolph), que vive a expectativa da chegada do primeiro filho – e todas as dúvidas e agonias inerentes a ela. No sexto mês de gravidez, ao visitarem os pais de Burt, os pombinhos são surpreendidos pela notícia de que vovô e vovó Farlander (Jeff Daniels e Catherine O’Hara) vão, um mês antes do nascimento do futuro rebento, embarcar para uma temporada de dois anos na Bélgica. Como os pais de Verona já faleceram, os dois se sentem desenraizados de um ambiente familiar, e resolvem partir numa viagem para encontrar um novo lar, revendo parentes e amigos pelo caminho.

O que eles acabam descobrindo nas paradas (as filmagens passaram por sete cidades entre os Estados Unidos e o Canadá*) são famílias nada ortodoxas, para não dizer bizarras, que os fazem refletir sobre onde e de que forma querem construir o seu ninho e criar seu bebê. A inquietude enfrentada pelos dois apaixonados conduz a uma reflexão sobre a vida a dois que, longe de ser um mar de rosas, é um oceano emocional/afetivo turbulento, que dever ser navegado com cuidado. Não tirem as mãos do leme e sigam comigo.

Em suas desventuras, com certeza o casal Farlander (e nós) não irá se esquecer da personagem de Maggie Gyllenhaal, uma mãe hippie cheia de nove horas que tem um entendimento todo especial sobre como cuidar de sua família. Ela tira Burt e Verona do sério e nos presenteia com cenas divertidíssimas.

É certo que o diretor imprime um ritmo bem monótono nesta produção, quase soporífero, e ela não tem a força de suas realizações anteriores, algumas consideradas obras-primas – com “Beleza americana” ele arrancou cinco Oscar da Academia, inclusive o de melhor direção. Tal fato pode explicar a estratégia de comercialização. Mas, um Sam Mendes é um Sam Mendes, e tem seus acertos (embora ele possa muito mais).

O filme chama a atenção por três motivos. A charmosa fotografia capturada pelas lentes de Ellen Kuras encanta por sua simplicidade e beleza, lembrando os enquadramentos pitorescos de “Hora de voltar” (2004), gol de placa do diretor-ator Zach Braff (mais conhecido como o médico palerma da série “Scrubs”).

A trilha sonora, sob responsabilidade do compositor e cantor londrino Alexi Murdoch, emplaca baladas românticas que envolvem e criam o clima perfeito. Somos pegos pelo ouvido, literalmente. Com músicas do próprio Murdoch, George Harrison, Bob Dylan, The Velvet Underground e The Stranglers, a trilha é o maior destaque desta comédia dramática (ou seria drama cômico?) indie.

Fechando o pacote de pontos positivos, a produtora executiva Mari Jo Winkler-Ioffreda fez com que Mendes levasse o título do filme ao pé da letra. Com a preocupação ecológica atingindo também a perdulária indústria hollywoodiana, “Por uma vida melhor” seguiu no compasso politicamente correto das filmagens verdes. Ao tentar reduzir sua pegada de carbono, a produção optou por soluções que agredissem o mínimo possível o meio ambiente. Imbuídos do espírito Na’vi, todos os envolvidos nas filmagens usaram e abusaram da reciclagem de materiais, utilizaram carros híbridos na logística de produção e nos sets, incluíram no cardápio produtos orgânicos, aprenderam a fazer compostagem (reutilização de alimento), entre outras medidas para deixar menos cicatrizes na mamãe natureza, que agradece. Os interessados podem conferir um pequeno documentário sobre a iniciativa nos extras do DVD.

Carlos Eduardo Bacellar

*O crítico de cinema Carlos Alberto Mattos chamou minha atenção para a seguinte curiosidade: as filmagens, ao contrário do que parece, não passaram por várias cidades. Tudo (exceto cenas em Miami e os long shots do Arizona), até mesmo o Canadá foi filmado em Connecticut. Papei mosca ao assistir ao making of  (pretendo revê-lo, pois é muito interessante) que, segundo o Carlos Alberto, vem com essa informação. Fui ludibriado pela magia do cinema e deixei o ceticismo em estado latente.

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