Os Coen no caminho da vingança sangrenta de Tarantino

A frente fria que chegou ao Rio não pode esfriar o ânimo cinéfilo, ainda mais a alguns dias da cerimônia do Oscar. Para aquecer o espírito, tomei dois tragos do mais puro e artesanal destilado dos irmãos Coen. De uma só golada, coloquei para dentro o primeiro longa da dupla, “Gosto de sangue” (1984) − “Blood simple”, no original − e o laureado “Barton Fink” (1991), que encaçapou em Cannes os prêmios de melhor ator para John Turturro, melhor diretor para Joel Coen e ainda arrebatou a Palma de Ouro por unanimidade. Fiquei embriagado na hora.

Nos dois filmes podemos perceber todo o potencial da verve criativa dos Coen − que culminaria com obras-primas como “Fargo” (1996), “Onde os fracos não têm vez” (2007) e “Queime depois de ler” (2008) − sendo gestado.

Em “Gosto de sangue”, Francis McDormand − ainda novinha e encabulada, um mero reflexo do talento que esbajaria no divertidíssimo “Fargo” −, interpreta uma mulher insatisfeita que se envolve com um dos funcionários de seu marido. O corno não engole muito bem a traição, e resolve externar sua frustração da forma mais estúpida possível: contrata um investigador particular para apagar os dois. A história não começa nem termina bem, com vários tiros saindo pela culatra.

John Turturro, no pertubador “Barton Fink”, vive um dramaturgo – homônimo ao título − elogiado pela crítica teatral que é contratado pela indústria hollywoodiana para escrever roteiros para a telona. O que ele não esperava é ter um bloqueio criativo ao chegar a Los Angeles. Lá ele conhece o obscuro e carismático Charlie Meadows (John Goodman) e se envolve com a charmosa Audrey (Judy Davis), a assistente de um famoso escritor e roteirista. As novas amizades de Barton viram sua vida de pernas para o ar. O novato roteirista vai acabar encontrando inspiração no cenário mais hediondo de sua até então pacata existência.

Ali, no início da década de 1980, quando o trabalho dos irmãos Coen começava a atrair a atenção dos holofotes, já podemos encontrar um embrião da narrativa inteligente e ácida que se tornaria marca registrada da dupla. A construção do texto pelas mãos do produtor/roteirista Ethan e do diretor/roteirista Joel – geralmente a configuração dos créditos é assim, apesar de ser notório que as funções e decisões são compartilhadas pelos dois – beira o tarantinesco, com cenas cruas de violência, não movidas pela vingança, como é comum nas obras do diretor de “Bastardos inglórios” (2009), mas por conflitos e contradições internas. Um mistura de frustração, inconformismo e inadequação seria o motor dramático que impulsiona as ações das figuras criadas pelos irmãos. Algumas experimentações ousadas de câmera também despertaram minha atenção, especialmente em “Gosto de sangue”. Coisa de jovens impetuosos (a Nova Hollywood não teria existido sem eles).

Seja investindo em tramas policiais, em comédias, em dramas, ou destrinchando a equação que mistura os gêneros (sempre equilibrando o cálculo com doses de suspense), os dois americanos exalam um humor negro muito particular, explorando diálogos criativos (e muitas vezes a falta deles) e situações inusitadas, além de brindar o público com personagens desajustados e marcantes. Explorar o lugar-comum fugindo da mesmice e expondo o que há de mais bizarro nas relações humanas, acho que é por aí (esta última frase foi um devaneio).

A dobradinha “Gosto de sangue”/”Barton Fink” foi uma boa pedida para entender um pouco mais sobre os dois. Não preciso dizer que também serviu como estimulante para atiçar a curiosidade sobre a nova empreitada dos Coen, “Um homem sério”, produção que concorre, junto com outras nove realizações, a estatueta de melhor filme – e ainda disputa o prêmio de melhor roteiro original, escrito pelos próprios Coen.

Barton Fink declara, logo no início do filme, que os textos de um escritor deveriam vir das entranhas. Tal fato distingue um trabalho bom de outro meramente adequado. Ethan e Joel arrancam cada palavra de suas entranhas, estejam certos disso. Só quem tem um intestino delgado mais longo é Quentin Tarantino.

Apesar de o criador de “Pulp fiction” (1994) ter utilizado a faca-espada apache de Aldo Raine (morra de inveja, Rambo!) para retirar cada letra ensangüentada de seu âmago, a disputa promete. Tarantino tem o meu voto no quesito roteiro original, mas não custa nada dizer: olho vivo porque a faca dos Coen também é grande, e está cada dia mais afiada!

Carlos Eduardo Bacellar

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