Aspirante a Jigsaw

O ator escocês Gerard Butler pode ser acusado de tudo, menos de não ser eclético. Butler já despejou sua carga dramática (duvidosa) nos mais diferentes papéis: interpretou homens românticos; incorporou o rei espartano Leônidas; atacou de consultor sentimental; já viveu um presidiário que vira personagem de um Counter-Strike que coloca seres humanos “descartáveis” na linha de tiro; até furou os olhos do 007 Pierce Brosnan no papel de um publicitário garanhão que não se contentava só com a esposa… Nem o fantasma da ópera se salvou numa lista que segue extensa.

Em “Código de conduta” (“Law abiding citizen”, no original) – que acaba de chegar às locadoras −, sob o comando do diretor nova-iorquino F. Gary Gray (“Be cool”, 2005), o genuíno produto escocês para exportação é o sarado “engenheiro” Clyde Shelton, um pai que carrega a dor de ter perdido esposa e filha num violento assalto à residência da família.

Os assaltantes são levados à justiça que, em vez de suturar as feridas de Clyde com uma sentença exemplar, joga sal no espírito dilacerado pela perda. Com medo de perder pontos no seu impecável índice de condenação de 96%, o promotor Nick Rice (Jamie Foxx) opta por um acordo entre as partes, amenizando a pena de um dos bandidos (logicamente, o que tem mais afinidades com a família Manson) que recorre à delação premiada para se espremer por entre os laços da forca da lei.

Insatisfeito não só com o veredito, mas com todo o sistema judiciário, Clyde abraça o Jigsaw que estava incubado dentro dele e parte para fazer justiça (o que ele acredita ser justiça) com as próprias mãos. O que de início parece ser uma mera vingança, o extermínio da escória que destruiu sua vida, vira um jogo muito mais perigoso quando o promotor Nick descobre que a especialidade de Clyde é gerenciar operações cinéticas de baixo impacto. No popular: ele é um professor Pardal macabro especializado em matar pessoas de forma precisa e inteligente – os alvos dão seu último suspiro enquanto o gênio das engenhocas proibidas para menores de 100 anos toma seu uísque em algum outro local, sem sujar as mãos.

Clyde, utilizando seu dom de MacGyver do inferno, parte para uma sangrenta cruzada contra todos os personagens que, direta ou indiretamente, estiveram envolvidos no episódio da morte de sua família – incluindo as pessoas responsáveis pelo julgamento dos meliantes e o próprio sistema judiciário. Resta ao dedicado Nick tentar detê-lo. O promotor vive conflitos pessoais ao entender que talvez tenha que agir à margem da lei, driblando as regras, para evitar o pior.

A produção nos deixa angustiados, pois somos obrigados a tatear no escuro, com a pulsação a mil, tentando descobrir qual será a próxima jogada do arquiteto da morte. Quem será a próxima vítima? Como ela será executada? Alguém escapará de sua fúria? Conseguirá ele implodir a instituição que conhecemos como justiça? Em determinado momento, nós comungamos com a dor de Clyde, que, apesar de externar de forma brutal seus sentimentos, acaba se tornando um anti-herói.

Além de ter uma forte conotação moral, o filme faz uma crítica inteligente e amarga à ineficiência de um sistema judiciário burocrático, viciado e apodrecido por conveniências que escapam do senso comum de certo e errado. Você vai torcer por quem? Não digo quem vai se dar bem…

Carlos Eduardo Bacellar

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2 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

2 Respostas para “Aspirante a Jigsaw

  1. Erick

    Gostei do texto muito bem escrito. Principalmente nesta parte:

    “Insatisfeito não só com o veredito, mas com todo o sistema judiciário, Clyde abraça o Jigsaw que estava incubado dentro dele…”

    hahahahahhaha

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