As veias abertas da América Latina

O início de março traz a recordação (vivíssima) do papai. Faria 70 anos, amanhã, 09 de março, se não tivesse nos deixado no dia 14 de março de 2004. Com generosidade peculiar, Nei Sroulevich investiu na minha Educação. Em tempos de crise, podia faltar dinheiro para tudo, mas nunca para viagens culturais, livros inusitados ou papos de bar/conversas esclarecidas que varavam a madrugada. E assim ele me deixou com “As veias abertas da América Latina”.

Nas dezenas de viagens que fizemos a Cuba, em discussões sobre livros de Eduardo Galeano, Fidel Castro, Ernesto Che Guevara, ou na memória que guardo dos 15 países latino-americanos que viajei entre 2004-2005, a herança portuguesa e espanhola era tema para qualquer papo. Em um ensaio galeânico, papai – com a ajuda da historiadora mamãe – analisava a História da América Latina, a exploração econômica, a dominação política e os anos de chumbo. Exilado pela ditadura militar brasileira, ele era só memória da sua militância compartilhada com figuras marcantes da nossa Cultura.

Gostava particularmente do Jards Macalé. Segundo ele, era um dos poucos que “não havia vendido a alma ao diabo”. O exemplo era ter levado sua carreira artística à margem dos blockbusters musicais. “Sabe essa música aí que você não para de cantar, Heleninha? Não é Gal Costa. É Jards Macalé. Só que ele não fica se autopromovendo por aí.” A sonora afirmação vinha depois de ter mostrado ao papai “Vapor Barato”, remanescente da dupla acústica Gal Costa e Zeca Baleiro. Avesso a presentes, toda a vez que eu o perguntava sobre o que gostaria de ganhar de aniversário, dizia: um CD do Jards Macalé ou do Johnny Alf, mas desista, filha, você não vai encontrar. Verdade seja dita, papai tinha um gosto especial por aqueles que não faziam concessões.

Vibraria com a vitória histórica de Evo Morales, na Bolívia, e com a política externa acertada do Governo Lula. Constantemente dizia que “devíamos buscar a nossa essência.” Nas vezes em que o vi conversando com o Darcy Ribeiro, latinidade sempre estava na ordem do dia. Pronto a desvendar o semelhante no desigual, papai dizia que brasileiros e descendentes de espanhóis eram mais próximos entre si do que o nosso aprendizado de História era capaz de retratar. Valorizava a preservação cultural de nossos países vizinhos, principalmente ligada aos indígenas, aqui renegados a sub-povo, e que  sempre mantiveram influência na Política Andina.

Na semana passada, assisti aos documentários “Pachamama”, de Eryk Rocha (nascer filho do Glauber, não deve ser fácil!), e “Jards Macalé – um morcego na porta principal”, de Marco Abujamra e João Pimentel. Capazes de atiçar o olhar curioso, são exemplos de documentários para tomarmos na veia. Assistam. Assim como o papai, sinto que todos temos as veias abertas quando o assunto é América Latina. Só que, muitas vezes, passamos uma vida sem saber disso ou demoramos muito para perceber. As minhas permanecem abertas e expostas. E as suas?

Helena Sroulevich

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Helena Sroulevich

2 Respostas para “As veias abertas da América Latina

  1. karina

    Eu? eu fiquei fascinada pelo seu pai.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s