Emoção x Razão

A cerimônia do Oscar, realizada na noite de ontem, reservou algumas surpresas para as bancas de apostas do mundo todo. Minha colega de blog, Helena “cadê o roteiro de Guerra ao terror?” Sroulevich, já teceu alguns comentários acerca das premiações em seu último post.

De qualquer maneira, não posso deixar passar em branco a láurea que talvez tenha configurado a maior zebra da noite: Michael Haneke deve ter usado sua fita branca para se estrangular ao ver a estatueta de melhor filme estrangeiro ir dançando tango em direção às mãos do argentino Juan José Campanella, premiado pelo seu magnífico “O segredo dos seus olhos”.

Novamente me abstenho de maiores detalhes sobre a produção destacando uma crítica da Helena, que escreveu de forma inspirada sobre o filme de Campanella (vou começar a cobrar pela propaganda): https://doidosporcinema.wordpress.com/2010/02/15/o-segredo-dos-seus-olhos/

O mais curioso é o fato de que, na hora de montar minhas apostas, minha caneta sempre hesitava em destacar “A fita branca” entre os indicados a melhor filme estrangeiro. Minhas mãos tremiam ante a indecisão. Não que a realização do diretor alemão não seja excelente. O prêmio teria ficado em ótimas mãos, e tudo indicava que seria assim. Mas cinema não é matemática.

Quando finalmente decidi em quem votar, meu sétimo sentido (o sentido cinéfilo) apitou, um alerta de que algo estava errado. Esse sentimento me acompanhou inquietante, até a chegada dos atores no tapete vermelho. Quando meus olhos bateram em Carey Mulligan, fui anestesiado e acabei esquecendo daquela gastura interna.

Acontece que o cinema argentino, quando quer, arrebenta a boca do balão. O talento de Campanella, aditivado pela atuação do brilhante ator Ricardo Darín, conseguiu estruturar uma história belíssima, de força incomparável. O charme e desenvoltura da encantadora Soledad Villamil eram a cereja do bolo de uma fábula castelhana que parece ter bebido do realismo mágico de Gabriel García Márquez para criar um roteiro que nos arranca da inércia, e desconstrói toda e qualquer expectativa.

Talvez avassalado pela torrente de elogios da crítica ao filme de Haneke, resolvi abafar a emoção e acreditar na razão − amparada na frieza e burocracia dos números. “A fita branca” flanava alto impulsionada pela brisa de diversos prêmios, e acabou caindo no colo receptivo da crítica especializada. O preto e branco do filme ampliaram áreas cinza que afetaram meu discernimento; encobriram o colorido e a riqueza da América do Sul.

Não prestei atenção quando os deuses da sétima arte sopraram no meu ouvido que eu deveria enxergar além da crítica, além da imprensa, além das premiações, além… Na cerimônia de ontem, US$ 500 milhões valeram menos que US$ 11 milhões, e a emoção suplantou a razão.

Aritmética nenhuma consegue resolver as equações que inebriam a alma. Campanella me ensinou essa lição.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Como essa vida é curiosa… No dia em que assisti ao filme argentino, eu havia perdido uma sessão no Kinoplex Leblon de “Percy Jackson e o ladrão de raios”. O filme de Campanella era o plano B. Pois é, podem me gozar. Corri para o Unibanco Arteplex. Chegando lá esbaforido, encontrei, por acaso, a Helena e sua mãe, a historiadora e jornalista Claudia Furiati, e o repórter e crítico de cinema Rodrigo Fonseca. Com toda sua qualidade e argúcia, o Rodrigo, num rápido bate-papo, deu sinais − contrariando todas as apostas − de que Haneke poderia ver a estatueta escapar de suas mãos, como de fato aconteceu. Eu só não soube lê-los (o queixo caído da Helena após a sessão também era um prenúncio).

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