Patogenia do incômodo

Eu não ia escrever sobre este filme, mas o pedido da Helena é uma ordem (quando estou nos meus bons dias). Vá lá…

A nova navalhada do diretor paranaense Sérgio Bianchi, “Os inquilinos”, é uma escarrada na cara da classe média que contamina com o germe do incômodo. Tal patógeno não pode ser combatido pelos anticorpos da hipocrisia e dos valores deturpados, o que obriga muita gente a virar a cara para a brutalidade seca exposta na tela.

Marat Descartes é Valter, um chefe de família de baixa renda que trabalha num entreposto de frutas. Ele, sua mulher e os dois filhos têm sua rotina perturbada com a chegada de novos vizinhos.

Bianchi subverte o ditado que diz: “o que os olhos não vêem o coração não sente”. Inspirado (talvez inconscientemente) pelo experimentalismo dos diretores Daniel Myrick e Eduardo Sánchez em seu inovador “The Blair Witch Project” (1999), ele alimenta nossa angústia com uma violência sugerida, e raras vezes mostrada de fato (mesmo assim de forma reticente).

O paradoxo do filme reside no fato de que Bianchi nos brutaliza com suas lentes ao deixar somente uma fresta da porta aberta, de forma que não conseguimos distinguir com clareza o que se encontra do outro lado – somente imaginar. O diretor trabalha a ambiguidade polanskiana – lapidada com genialidade em obras do franco-polonês como “O bebê de Rosemary” (1968) e “O inquilino” (1976) – e pinta com tinta vermelha um ponto de interrogação em nosso discernimento.

Não sabemos se o protagonista, bombardeado dia a dia com cenas de violência (midiáticas e reais), está surtando por causa da paranóia ou se seu comportamento é fruto do instinto de preservação justificado.

Carlos Alberto Mattos, com seu olhar apurado, percebeu algumas rupturas na realização. Segundo o crítico, Bianchi nos entrega certas cenas de forma crua, sem nenhum tipo de preparo, e o espectador precisa engolir aquilo a seco. Em determinado momento, Valter é abordado de forma abrupta por seu chefe, que o questiona, do nada, sobre uma possível doença que o esteja afetando no trabalho. Outra cena nos mostra a conscientização repentina do humilde e despreparado Valter acerca de seus direitos trabalhista, assim, sem mais nem menos.

De qualquer maneira, o filme é um retrato perturbador da sociedade absurda em que vivemos. O próprio protagonista, sofrendo de uma miopia social causada pelas circunstâncias, não consegue enxergar que ele está preso numa maré de exploração e pobreza intransponível – um dos sintomas: ele e sua família acreditam, realmente, que não moram numa favela. Valter denigre os menos favorecidos do que ele, da mesma forma que é astuciosamente enrolado (e humilhado) por seu chefe. São todos animais na cadeia alimentar. O mais forte engole o mais fraco em prol de seus interesses.

Trabalhando de dia e estudando à noite, ele tenta remar, em meio a uma tempestade, com uma colher de chá, em direção a um futuro melhor. Esse futuro nunca vai chegar. A “escravidão do século XXI” é ainda mais perigosa porque ela é aceita sem revolta, assim como o cigarro: duas drogas legais (?) que envenenam a sociedade. Acontece que o tabagismo mata gregos e troianos; o egoísmo e falta de sensibilidade das elites só esfola os menos favorecidos.

Uma pena que o filme tenha sido tão maltratado pelo circuito exibidor…

Carlos Eduardo Bacellar

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