Paulo “Kaufman” Halm nos delicia em apenas 90 minutos

Paulo Halm é o Charlie Kaufman do Spike Jonze de realizadores do quilate de José Joffily, Sandra Werneck, Sérgio Rezende e Hugo Carvana. Assim como Kaufman, que não conseguiu manter seu talento circunscrito ao universo do texto, e se aventurou na direção com o complexo e reflexivo “Sinédoque, Nova Iorque” (2008), Halm sentou na cadeira de diretor e transpôs para as telas seu roteiro do longa “Histórias de amor duram apenas 90 minutos” – ele já tinha experiência na direção de curtas e médias-metragens.

Assim como Kaufman, Halm brinca com a metalinguagem para estruturar seu excelente enredo. A narrativa é embalada pelo triângulo amoroso entre Zeca (Caio Blat, irrepreensível), um aspirante a escritor com trinta anos na cara que não consegue sair da página 50 de seu primeiro romance, sua mulher, a determinada e ambiciosa professora Júlia (a belíssima Maria Ribeiro), e a estonteante gringa Carol (a argentina Luz Cipriota, que me fez entender a escolha de Matt Damon), que com seu jeito descolado e provocador incendeia desejos.

Acometido pelo ciúme fruto da falta do que fazer, Zeca dá vazão às fantasias mais loucas de sua imaginação e enxerga um caso entre Júlia e Carol, passando a viver entre realidade e loucura. A beleza e o charme da suposta amante perturbam o rapaz, que acaba se apaixonando por ela (ou melhor, achando que se apaixona).

O turbilhão emocional que esgarça Zeca ganha forças na sua relação com seu pai Humberto (Daniel Dantas). Ele mesmo uma promessa de escritor que nunca se realizou, utiliza o filho como repositório de sua insatisfação. Humberto, como muitos pais, via em seu filho uma caderneta de poupança que, infelizmente, foi confiscada por circunstâncias da vida.

O filme – no qual Halm trança com habilidade e sutileza drama e comédia − é o reflexo de uma geração que vive num limbo entre a realização e a depressão. Geração caracterizada pelo fato de ser incompleta, de não concretizar nada, de deixar tudo para depois – o tempo passa e os projetos são abandonados ao longo do caminho. Quando consegue alguma estabilidade (estagnação, para ser mais preciso) em sua vida pessoal e (pseudo) profissional, Zeca se sabota, com medo do diferente – ele não quer descobrir aonde seu talento e suas emoções podem levá-lo.

Ao ser comparado com o escritor Rubem Fonseca (o maior contista brasileiro vivo), Zeca se irrita e repudia tal comentário, mas em casa tem uma estante cheia de livros do autor de “Feliz Ano Novo”, a quem venera e inveja nas sombras. Balizado for um deturpado senso de moral, ele não acha correto se relacionar com duas mulheres ao mesmo tempo – somente porque lhe convém: a amante lhe dá mais tesão que sua própria esposa.

Em determinado momento, nosso protagonista reflete sobre os porquês de seu bloqueio criativo. Ao imaginar personagens, toda ficção criada em torno delas acaba voltando para o ponto de origem: o próprio escritor. Como sua vida não anda, seu texto segue o mesmo caminho e esbarra no excesso de páginas e falta de tinta da frustração.

Com diálogos inteligentes, Halm, mostrando-se seguro no ofício, acaricia gentilmente a metalinguagem, para depois pegar no dente a calcinha da função e virá-la do avesso. Zeca questiona as escolhas da personagem de seu romance inacabado, que troca o terreno sólido de uma profissão liberal para se entregar às incertezas da arte (como o Rubem Fonseca, não é verdade?). Cuspindo na refeição que ele mesmo preparou, desavisadamente coloca em xeque sua própria existência. Por meio da literatura, nosso protagonista vomita em suas escolhas pessoais, em sua vida medíocre – e transpira toda sua contradição ao andar de roupa social nas areias de Ipanema e se entregar a práticas sexuais impensáveis para alguém que se imaginava heterossexual convicto.

A semelhança entre Kaufman e Halm não para nos filhos únicos na seara de longas (por enquanto) paridos pelos dois no comando das câmeras. As lentes de ambos perfuram a couraça de suas criações e atingem o cerne de cada uma, que é alimentado pela angústia. Assombrado pelo medo da rejeição e do fracasso, Zeca dá as mãos para a dor da personagem de Nicolas Cage (o próprio Kaufman) em “Adaptação” (2002). Nos dois filmes, situações extremas levam os protagonistas a tentar escalar em direção à saída do poço. Se eles vão conseguir sair é outra história que não pode ser resolvida em noventa minutos. Apesar disso, cada segundo capturado pelas lentes de Halm é imperdível!

Carlos Eduardo Bacellar


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6 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

6 Respostas para “Paulo “Kaufman” Halm nos delicia em apenas 90 minutos

  1. Muito boa a crítica!
    E adorei o blog, o “perfil” de vocês é muito bem escrito e divertido!

    • Olá, Taís!

      Obrigado pelo elogio. É sempre um prazer prestigiar o cinema brasileiro de qualidade. O filme conseguiu me emocionar e divertir ao mesmo tempo. Acho que não há ninguém na faixa dos 20 aos 30 anos que não se identifique de alguma maneira. Eu e o pessoal do “Doidos” agradecemos o carinho. Estamos à disposição.

      Abraços!

      Carlos Eduardo Bacellar

  2. Oi Carlos Eduardo, muito boa crítica. Aliás, boa sacada “Paulo ‘Kaufman’ Halm”.

    Vamos reproduzir lá no blog do filme, tá? Vc vai brigar com a gnt? Vamos dar todos os créditos.

    Em tempo, voltaremos a fazer visita outras vezes. O blog é mt simpático.

    Abraço

    • Salve!

      Que bom que gostaram. Nenhum problema em reproduzir o texto no blog de vocês.
      Como eu não canso de repetir, é sempre um prazer prestigiar o cinema brasileiro de qualidade.
      Suces… Ou melhor, mais sucesso! 🙂

      Abração amigo!

      Carlos Eduardo Bacellar

  3. Micheline

    Gostei do filme,mas o final me encasquetou. Se elas não tinham um caso, porque a Julia mandou ele embora e ficou conversando sozinha com a Carol quando pegou os dois no flagra? E porque comprou passagens, no plural e não uma passagem?

    • Pois é, Micheline… Também tenho tantas dúvidas. Acho que esse é o grande barato do cinema. Se o filme te fez pensar, te provocou de alguma forma, já valeu a pena. Mas suas palavras me levaram a Umberto Eco, um brilhante teórico da literatura. O pensamento de Eco pode ser desdobrado para o cinema. Ele diz o seguinte em um de seus textos (“Sobre algumas funções da literatura”): “[…] A função dos contos “imodificáveis” é precisamente esta: contra qualquer desejo de mudar o destino, eles nos fazem tocar com os dedos a impossibilidade de mudá-lo. E assim fazendo, qualquer que seja a história que estejam contando, contam também a nossa, e por isso nós os lemos e os amamos. Temos necessidade de sua severa lição “repressiva” […] Os contos já “feitos” nos ensinam também a morrer. Creio que esta educação ao Fado e à morte é uma das funções principais da literatura […]”. Cara esperto, né? Bateu algum sino?
      Abraços!
      CEB

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