Martin Scorsese e “Ilha do Medo”: quem é rei nunca perde a majestade

O santuário – coexistência pacífica – cinematográfico conta com deuses: Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Robert Altman, Brian dePalma, Peter Bogdanovich e Woody Allen. Na história recente, Quentin Tarantino, Irmãos Coen, Clint Eastwood e Spike Jonze conquistaram estrelas. Soberanos, os diretores italianos – todos mencionados em posts anteriores -, floreiam de poesia o mais desgramado dos jardins – do éden. Mas unindo o velho ao novo mundo, Martin Scorsese é quem reina absoluto quando o assunto é decupar em quadros os mistérios da natureza humana.

Quem não se lembra do solitário Robert de Niro, veterano da Guerra do Vietnã, exorcizando medos, vícios e revoltas como “Taxi Driver” (1976)?  E do mesmo De Niro, na pele do psicopata, vingativo e estratégico Max Cady,  em “Cabo do Medo” (1991)? Em “Ilha do Medo”, Leonardo diCaprio (o Robert de Niro da vez na vida do Scorsese) explora lacunas e limites da mente esquizofrênica como o agente federal Teddy Daniels.

Em 1954, desembalsa na “fortaleza” de Shutter Island. Sua tarefa é investigar o misterioso desaparecimento de uma “paciente” (Rachel Solando). Sem a ajuda do staff do presídio psiquiátrico e suspeitando de tudo e todos (como qualquer americano pós Segunda Grande Guerra), Teddy só parece contar com o agente Chuck Aule (Mark Ruffalo).

Chuck toma em pílulas alucinógenas a genialidade do novo mentor e se firma como novo parceiro. Aos poucos, percebe que ele  não é nada além de uma ilusão: paciente terminal da própria mente. A capa autoconfiante cai e Teddy Daniels, em outras vestimentas, se revela atormentado por seu passado de soldado no campo de concentração e por algumas dezenas de fantasmas, como do assassino da esposa detento na ilha.

No limiar entre realidade e imaginação, a montagem do filme, apimentada por trilha sonora incidental – daquela de dar frio nas espinhas -, sugere um quebra-cabeças de opções. Teddy seria mesmo um agente federal e Chuck, seu parceiro? Ou Mr. Daniels seria mais um louco detido por crime hediondo representando para si próprio o personagem do agente federal? Viveria ele como homem bom em um universo terrível ou reinaria como monstro no paraíso? Ou, em última hipótese, seria ele vítima de uma conspiração cruel – e nazista – para elouquecê-lo?

Scorsese se supera nas sequências, descobre enquadramentos, duplica personagens, mostra flashbacks do Holocausto, abusa de transições sem cortes entre personagens  e revisita, de quebra e por osmose,  Kubrick e Hitchcock. Os labirintos da mente – seja por ela mesma ou por seu produto -, refém de pesadelos, são a coroa da vez. A Scorsese, laureado esse ano no Globo de Ouro pelo conjunto de sua obra (já não era sem tempo…), depois de “Ilha do Medo”, só o bordão: quem é rei nunca perde a majestade.

Helena Sroulevich


P.S. Sou obrigada a me pronunciar. Bati o pé e disse “de mim ninguém tasca o Scorsese”. Assim como “Avatar”, “O Segredo dos Seus Olhos” e “Bastardos Inglórios”, foi capaz de me pegar em todos os sentidos. E estava com a pulga atrás da orelha – e não cubos de gelo na bolsa, Carlinhos – desde que tinha lido no blog do Bonequinho, a observação acerca do filme, feita pelo André Miranda (“O Globo”), direto do Festival de Berlin. Dentre outras coisas, disse: “…o filme do Scorsese me decepcionou bastante. Com “Ilha do medo”, Scorsese fez um longa-metragem igual aos do M. Night Shyamalan. São aqueles filmes em que o diretor te conta uma história durante uma hora e 59 minutos. Aí, no último minuto, ele avisa: “Ó, otário, eu menti para você, tá bom? A história não é nada disso. Agora assista ao filme novamente para perceber como fui inteligente em criar situações ambíguas para justificar minha mentira!”. É… Tivemos opiniões completamente diferentes, pelo visto… E esse não é justo o barato do cinema?

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