Quem tem medo do lobo mau do além?

Acaba de se materializar nas locadoras o badalado suspense “Atividade paranormal” (2007), produção de baixíssimo orçamento – supostamente realizado com míseros 15 mil dólares − que se tornou coqueluche mais por ter sido apadrinhada por Steven Spielberg do que por seus méritos estéticos.

O novato diretor e roteirista israelense Oren Peli, radicado nos EUA desde os 19 anos, realiza um “Bruxa de Blair” (1999) urbano, e tenta transpor para um apartamento de classe média todo o clima de tensão que cinco jovens documentaristas diletantes viveram nas florestas de Burkittsville, Maryland.

No estilo mockumentary (falso documentário), Katie (Katie Featherston) e seu companheiro Micah (Micah Sloat) vivem o sonho americano quando a moça resolve ser realmente sincera com o rapaz (depois de já tê-lo fisgado e o feito passar do ponto de não retorno, como de praxe), revelando que é atormentada por uma entidade desconhecida desde os 8 anos de idade. Surpreso com a novidade – ele possivelmente estava esperando uma confissão do tipo “eu era uma prostituta antes de conhecê-lo” −, o cético e brincalhão Micah resolve comprar uma câmera e equipamentos de gravação de áudio para investigar o fenômeno que aflige sua amada.

O filme parece (mas só parece) que vai ficar interessante quando entra em cena o especialista em fenômenos paranormais interpretado por Mark Fredrichs. Mas ele só piora o calvário do casal ao revelar que Katie é perseguida por um demônio e ele, um ghostbuster acostumado com os inocentes fantasmas de Tim Burton, nada poderá fazer para ajudá-los. Num arroubo de testosterona, Micah resolve ignorar os conselhos do especialista e explorar seu lado irmãos Winchester, transformando seus dias e noites num episódio de “Supernatural”. Só que ele não tem a parafernália anti-inferno de Sam e Dean − nem o Chevy Impala preto 1967 que permitiria a ele trocar rapidinho de muchacha.

Em “A Bruxa de Blair”, Daniel Myrick e Eduardo Sánchez arrepiam os pelos de nossas nucas trabalhando a sugestão sem se utilizarem da exposição, o que era uma novidade na época. As pessoas descobriram, no susto (literalmente), que era mais amedrontador se agoniar com algo que desconheciam − ou melhor, que só imaginavam − do que saber que no encalço dos protagonistas (e de tudo que se mexesse na tela) estavam psicopatas sanguinários como Jasom Voorhees e Michael Myers, em carne, osso, máscara horripilante e faca-espada. Agora, o público está vacinado. Os truques baratos que seriam um desrespeito para o talento de Mr. M lembram aqueles “efeitos especiais” empregados pelas rádionovelas no tempo do onça.

Além disso, o filme curtinho (86min) na maior parte da encenação nos mostra situações do cotidiano do casal, que em nada contribuem para o clima geral da coisa toda – somente para deixá-la enfadonha. As manifestações do suposto demônio não devem totalizar 10min do disco. E é isso justamente o que a galera quer ver (ou quer fermentar na imaginação e se angustiar)!!!

De qualquer maneira, a cena final é perturbadora e faz jus ao xixi que quase derramei no sofá. Eu, que vi o filme (quase) todo com os olhos bem abertos, nessa hora tive que tapar um deles como um pirata e me espremer embaixo do edredom para segurar o desespero. Fiquei realmente perturbado… Para os R$ 2,99 que gastei nele – promoção da Blockbuster de segunda a quinta −, está valendo.

Após a sessão é que vieram os problemas… Como dormir com meus pais estava fora de cogitação (sou macho, pô), por via das dúvidas deixei a luz acesa, a porta entreaberta e fiz uma barreira de sal ao redor da cama (cortesia dos irmãos Winchester). Sei lá, né…

Curiosidade: O site do filme no Brasil publicou depoimentos de sujeitos que passaram por experiências de gelar a espinha – tipo um Projeto Mosaico da série Flash Forward −, pelo menos no entendimento deles. Para quem quiser conferir e/ou contribuir: http://www.atividadeparanormal.com.br

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Spoiler de pano rápido: não dá para não imaginar a implicação metafórica do trágico final de Micah, um (adivinhem vocês?) operador da bolsa de valores.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s