Talento dos Coen emplaca outro filmaço

Ancorados na atuação irretocável do pouco badalado Michael Stuhlbarg, os irmãos Coen trazem para as telas a produção que pode ser traduzida como o livro “O Complexo de Portnoy” adaptado para o cinema. Com o telúrico humor negro temperado com doses de drama dos diretores cara e coroa polivalentes, não é à toa que a realização concorreu aos prêmios de melhor filme e melhor roteiro original no Oscar deste ano – inexplicável a não indicação de Stuhlbarg a melhor ator; ele tirava George Clooney do páreo fácil!

Com o inteligente e bem elaborado roteiro, que parece ter sido escrito com a malícia e o deboche de Philip Roth, a dupla nos apresenta o professor de física Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg). Devotado à sua família e à comunidade judaica, Larry vê sua vida virar de pernas para o ar quando sua esposa Judith (Sari Lennick) afirma que está pulando a cerca com Sy Ableman (Fred Melamed), um conhecido da família, e exige o divórcio.

Não bastasse isso, Larry ainda precisa lidar com seus dois filhos adolescentes − o problemático Danny (Aaron Wolff) e a vaidosa e alienada Sarah (Jessica McManus) −, seu irmão Arthur (Richard Kind), um fracassado viciado em jogo que se aboletou em sua casa indefinidamente, e imbróglios profissionais atomizados por um desentendimento entre o lente e um estudante oriental acerca da nota em um exame.

Atenção para os diálogos entre o professor e seu descontente aluno Clive Park (David Kang), bem como a disputa retórica com o pai do estudante, Stephen Park (Steve Park), que resolve tomar as dores do jovem herdeiro. Antológicos! Aliás, o forte dos Coen são os diálogos – destilados da original verve tarantinesca e woody-alleniana (sem o excesso de esquizofrenia no último caso). A câmera inquisitiva e despreocupada com a duração das tomadas − captando a última transpiração de cada take, de cada atuação −, somada à fotografia belíssima, completa o quadro e dá o tom perfeito daquela atmosfera opressora.

Larry − diferentemente de Alexander Portnoy, que no romance de Roth recorre ao psicanalista para resolver seus problemas – busca a ajuda de três rabinos para enfrentar o que parece ser a época mais negra de sua vida, fato que gera situações cômicas de tão bizarras.

A narrativa revela um sujeito preso a uma rotina medíocre e castradora que, ao ser atropelado por circunstâncias da vida, desvela o paradoxo de uma comunidade hipócrita que se afasta cada vez mais da religião, mas, ao menor sinal de perturbação, recorre a ela como uma panacéia (*). O filme, nesse sentido, é também um escárnio a qualquer regime absolutista que deforma valores.

Existe, ainda, um claro descompasso de gerações quando prestamos atenção no desinteresse de Danny e outros jovens pela liturgia e os ensinamentos judaicos, hipnotizados e alienados por uma sociedade  − a americana − impulsionada pelo consumismo. É mais atrativo ouvir o rock do momento (mesmo que para isso precise se apropriar dos dados pessoais de seu pai), ir ao salão de beleza e fumar um baseado que aprender hebraico (**).

O prólogo ensaia uma alegoria que, posteriormente, nos permite definir Larry (no sentido figurado) como dybbuk – uma espécie de entidade que se apossa do corpo dos mortos. Tencionado entre a ortodoxia da religião – que consagra as noções de certo e errado de forma maniqueísta −, e a praticidade objetiva da vida real, ele flutua entre duas dimensões e se desespera com sua alma dilacerada, sem saber que decisões tomar.

Os principais temas abordados pelos diretores-roteiristas são a inexorabilidade do tempo – capaz de dobrar as instituições (religiosas ou não) mais sólidas –, com todas as mudanças que ela acarreta, e a fragilidade da existência humana, tão pequena diante de contingências que podem transformar tudo num piscar de olhos.

Na cena final, os Coen deixam patente a insignificância de nossos problemas diante de algo muito maior e incontrolável que alguns chamam de a vontade (ira?) de Deus, outros de destino. Corram para o cinema, pois ninguém sabe como vai ser o dia de amanhã. Este crítico ovaciona.

Carlos Eduardo Bacellar

(*) Spoiler 1: Tal contradição é expressa pela ignorância do advogado da comunidade (Adam Arkin) contratado por Larry para resolver a burocracia legal do divórcio, que não sabe do que se trata um get – divórcio religioso que permite a mulher se casar novamente de acordo com os preceitos judaicos.

(**) Spoiler 2: A cena em que o Rabino Marshak (Alan Mandell) devolve o rádio ao sardento Danny é de uma força metafórica tremenda. Com aquele gesto o ancião parece dizer: “A bola está com você agora. Eu não posso mais acompanhá-lo, nem entendê-lo”.


Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

3 Respostas para “Talento dos Coen emplaca outro filmaço

  1. Tô louca pra ver. Largou na frente. Que os caras são geniais, a gente já sabia. O bacana é que eles se superam sempre. Sinto que ovacionarei. Tô superbem. Nada melhor que um Retiro de Yoga. Ah… Não faço menor questão de falar sobre o filme da Bullock. Tá me cheirando algo como “Duelo de Titãs” a la Brooklin novaiorquino. Passo essa. Beijo grande!

  2. Gostei do filme, inteligente, divertido…E me identifiquei em algumas partes.
    Muito atenta e inteligente sua crítica, me despertou várias questões.
    E fiquei curiosa pra ler o livro do Roth agora!

    Beijos!

  3. Carlinhos, é de uma genialidade sem tamanho. E ainda mais para mim, judia, em véspera de Pessach (Páscoa Judaica), que lida com a culpa (judaica) e a necessidade altruísta o tempo todo, cai como luva. Sabe duas metáforas que eu achei incríveis também? Antena com defeito e a tempestade/bomba que espera pelo menino, assim que sai da escola. Concorda? Beijinhos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s