Busca do entendimento na dor

Nem o cascudo ator irlandês Liam Neeson, que já contabiliza 58 anos de estrada, escapou da síndrome da locadora que assola o país.

Neeson, que estrela duas produções ainda inéditas por aqui − “Chloe” (2009), de Atom Egoyan e “After.Life” (2009) de Agnieszka Wojtowicz-Vosloo (sim, os nomes dos diretores estão se tornando cada vez mais bizarros, não é impressão; o segundo nome, impronunciável, é de uma mulher) −, diminui esse déficit com “Rastros de Justiça” (“Five minutes in heaven” no original, 2009), do diretor alemão Oliver Hirschbiegel, responsável pelo magistral “A queda! As últimas horas de Hitler” (2004). O filme, laureado por direção e roteiro (Guy Hibbert) em Sundance, no ano passado, já pode ser encontrado na locadora mais próxima de sua casa.

Talvez empolgados pelo fôlego que “Busca implacável” (2008) mostrou no mercado doméstico – realização protagonizada por um Liam Neeson à moda Seagal −, os responsáveis pela distribuição de “Rastros…” no Brasil (leia-se Flashstar Filmes) resolveram mandá-lo direto para as prateleiras para fazer companhia a Michael Douglas e Cia Ltda.

No drama, Alistair Little (Neeson) carrega nas costas, há décadas, o fardo de ter matado a sangue frio, quando ainda era adolescente, um jovem na época mais efervescente do conflito entre católicos e protestantes que destroçou a Irlanda do Norte – as desavenças pegaram fogo no fim da década de 1960, e se estenderam por mais de 30 anos. Em determinado momento de sua amarga existência, já bem mais velho e maduro, surge a oportunidade (sob os rótulos de busca pela verdade e reconciliação, que devem ser traduzidos para comercialização da dor) de confrontar o irmão mais novo de sua vítima, Joe Griffen (o excelente James Nesbitt), que presenciou o atentado. Só que os sentimentos detonados por essa possibilidade de acareação são antagônicos: Little procura paz de espírito, enquanto Griffen anseia por vingança.

O mérito maior do filme é captar os aspectos humanos aflorados em uma situação que devassa o cerne dos dois protagonistas. Little não busca redenção, muito menos perdão. O que o atormentado ex-militante procura é um encerramento. Ele espera, encontrando Griffen, exorcizar os fantasmas que o perseguem desde seu erro na adolescência, estigmatizando-o com a chaga do remorso. Como um remédio paliativo para sua alma hemorrágica, ele prega a não violência em grupos de apoio como uma forma de “enganar seu caminho através da vida”.

Já Griffen, que viu sua vida transformada num calvário após o assassinato do irmão – a mãe o culpou pela morte do primogênito e destilou todo seu desprezou sobre o inocente menino −, foi consumido pelo ódio e rancor ao longo dos anos e só pensa em cravar uma faca no coração do homem que destruiu sua família. Incapaz de demonstrar o afeto do qual foi privado, se desespera quando percebe que Little não é um monstro.

Da mesma forma que a personagem de Kate Winslet em “O leitor” (2008) – deixando de lado as idiossincrasias da formação moral do adolescente, ainda em processo, que podem ser atenuantes −, Little foi engolido pela força das circunstâncias, e simplesmente se deixou levar – não achando que estava fazendo a coisa certa ou errada, mas, simplesmente, o que era necessário para ser aceito. Alguns dizem que a História sempre se repete, mas com novos atores. Só a incompreensão pelos absurdos extremados permanece.

No encontro entre Little e Griffen, duas forças opostas se atraem objetivando um desfecho – e se anulam no entendimento da(s) dor(es), o que proporciona uma cicatrização que permite aos dois enxergar o futuro de forma menos embaçada.

Carlos Eduardo Bacellar


Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s