Como nasce um artista – Parte II

Há alguns dias, a dúvida embrulhada no estômago: publicar ou não o post? Sempre avessa a compartilhar o íntimo na rede, pensava: Pra quê? Ninguém tá nem aí pra minha vida… Será que não é muita exposição? Mas nasci acreditando que o saber é democrático. E quando se cresce assim, atos são bem menos racionais. O impulso não questiona ou intelectualiza e o que motiva é o (simples) desejo de dividir. Foi assim que, uma vez mais, recorri ao Rilke: “(…) Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade (…)”. Dono de uma capacidade única, assim como Fernando Pessoa e Manoel de Barros, de me dizer coisas cheias de sentido, acatei o mandato, entoei como manthra e agora entrego ao Universo.

Respondendo a estímulos meramente internos, desde o ano passado, embarquei em um projeto (cinematográfico) pessoal. Passei (e passo todos os dias) pelos processos de venda interna – sensibilização dos meus sócios – e externa – busca de potenciais investidores. Trabalho na organização do roteiro (mutante) e conto com uma equipe (parceira). Amo vocês. No ímpeto de transformar Prosa em Poesia (faço isso sempre que posso!), revelei O Segredo a algumas pessoas. E aviso: se você que me lê agora é uma delas, saiba que é especial! Filmamos menos de cinco por cento do produto final, mas o suficiente para um primeiro extrato de edição. Assistindo ao material syncado, entendi como nasce um artista.

Vivo atormentada. Dentro de mim, um festival de sentimentos descontrolados: calafrio aqui, lágrima ali, arrepio acolá, frio na barriga. É como se o objeto me tomasse de forma visceral (só vi algo semelhante acontecer quando apaixonada, sabe?), tudo passa a ser secundário e eu simplesmente não respondo por mim. E pra quê responder? É carnal. É pra sentir. Trabalho na minha primeira obra. E talvez já me sinta no dever de recomendar: nunca comece a sua primeira obra por algo que você é completamente apaixonado (meu caso). Estou comendo o pão que o diabo amassou. Em doses homeopáticas. Tudo começa no desejo de tornar a jornada pela vida menos solitária. Não que eu tenha medo da solidão. Sou da tese de que todos os seres humanos são sós por excelência. Essencialmente solitários. E o desfecho, conectado à “A Alma Imoral”, “(…) não há solidão maior que ausência de si mesmo (…)”, é assombroso. Jamais esqueço do meu irmão Michel (afinal, foi ele quem disse que Sroulevich e Bercovitch querem dizer a mesma coisa) me dizendo há uns dois anos: o seu próximo projeto tem que ser completamente seu! Hoje eu entendo o que ele dizia.

Na busca por ordem no caos (será que é possível?), o desafio é se manter inspirado. Despretensiosamente (e é justo assim que os encontros mais bacanas rolam, quando a gente simplesmente não espera nada deles!), há algumas semanas, fui a Campinas e Paulínia. O motivo da viagem: visitar a duplinha Gui e Don, no set de “O Palhaço” (filme em produção do Selton Mello). Entre baladas e papos incríveis, me reservei ao posto de espectadora atenta; afinal, eu voltava ao mundo do set, sem qualquer função. Que o Selton é genial, possivelmente o melhor ator da geração dele, não é novidade para ninguém. Que “Feliz Natal” dá um tapa na nossa cara, mostrando a hipocrisia do Natal familiar, é verdade incontestável. Mas o que vi ali foi muito além. Nunca tive o privilégio de assistir a John Cassavetes, Woody Allen ou Luiz Fernando Carvalho em ação, mas, certamente, uma fusão dos três daria algo perto do Selton. Capitaneando a equipe, estava ligadíssimo. Preocupava-se com os tempos do áudio, com a tiara no cabelo da atriz, ou se havia algum prego fora do lugar que pudesse machucar alguém. Ao mesmo tempo, se entretinha (e se deliciava) com Paulo José, elogiava os técnicos, e respondia às solicitações de atenção e zelo da equipe, que acabara de armar o circo Esperança (sem qualquer construção física, simplesmente amarrado a tonéis de água). E, como se não bastasse, ainda marcava as movimentações dos atores, dando espaço a quem quisesse e pudesse contribuir; sem esquecer, é claro, de dirigir a si próprio (Selton interpreta no filme o homem-palhaço Benjamin/Pangaré, em crise de identidade, na busca por se enquadrar). E cuidava de tudo no mais profundo silêncio.

E como eu gosto de silêncio. De um jeito próprio, é como se o Selton subisse aos meus ouvidos, dizendo: fique atenta ao mundo de fora, mas escute a Helena lá de dentro, sem medo. Foi um exercício de sair de mim e me observar (de fora para dentro). E o que sobrou aqui? Verdadeiras revoluções internas difíceis de administrar. Se o filme será bom ao final, ninguém sabe, nem ele, mas “O Palhaço” já me cativou. Selton está imprimindo a sua alma. E me comove por mostrar que para ganhar o picadeiro, não é preciso mais do que dominar o mundo – interior. E assim nasce um artista.

Helena Sroulevich

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4 Comentários

Arquivado em Helena Sroulevich

4 Respostas para “Como nasce um artista – Parte II

  1. Carlos Eduardo Bacellar

    Não é que este (B)log está ficando supimpa?!
    Gostei muito do texto, mas continuo fechado com “Troco de Scola com Truffaut”. No meu entendimento, é sua melhor produção até o momento, com exceção do primeiro parágrafo (sim, sou específico).
    E se prepara, pois o negócio vai ficar ainda melhor.
    É muito bom poder discutir cinema com alguém como você. A gente se completa nas nossas afinidades e se complementa nas diferenças.
    Qualquer que seja o resultado, já valeu a pena.

    Beijos!

  2. Janaina Antunes

    Lelê, que texto bonito… E que generoso compartilhar seus sentimentos com outras pessoas…
    Vou virar frequentadora assídua daqui!
    Beijo grande, Jana.

  3. Carlinhos, companheiro cinéfilo, tamojunto! 😉
    Jana querida, f-o-f-a amiga, visite sempre sim. A gente tem que dividir e se puxar para ser generoso sempre. E assim a Lelê fica mais perto da Lelê de verdade, que o mundo desafia todos os dias. Até domingo no Parque Lage? 😉 Beijos!

  4. rodrigo

    Lelê, só agora arrumei um tempinho, entre choros, fraldas e encomendas de texto, para ter o prazer de ler seu texto. Parabéns, principalmente pela coragem de ser tão honesta com seus sentimentos!
    Beijo,
    inté
    (tô esperando a visita…)

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