Insolação que confunde, entontece e acelera a pulsação

“O homem que roubava livros só se torna merecedor da morte quando

a vida passa a significar alguma coisa para ele.”


Felipe Hirsch e Daniela Thomas são realizadores cerebrais. Instrumentalizado por uma estética de narrativa complexa, estreou, na última sexta-feira (26/3), “Insolação”, aventura poética da dupla que causa grande estranhamento e nos leva à reflexão.

Quem espera encontrar uma narrativa fácil, é melhor entrar na sala de cinema ao lado e curtir algum outro filme. Agora, para quem é instigado pelo não usual, pela provocação (no bom sentido), é um prato cheio. Eu, particularmente, gosto de ser desafiado por um trabalho artístico, porque acredito que é essa exegese que eleva o espírito. É claro que qualquer análise crítica se torna tarefa muito mais temerária, mas eu sou destemido até o limite do abuso.

Li muita coisa sobre o filme nos três últimos dias, mas procuro, na medida do possível, não me deixar contaminar (principalmente depois de preterir “O segredo de seus olhos” no Oscar 2010). Não acredito que a dobradinha dos dois diretores resulte em uma narrativa acerca da solidão, muito menos de paixões frustradas. Essas duas dimensões, que estão presentes na obra, são produtos secundários de uma necessidade orgânica do ser humano chamada compreensão – seja ela afetiva, emocional, profissional, escolha você.

Os dois artífices lapidam o trabalho dos atores e angulam suas lentes de forma que fique exposta a necessidade de compreensão por meio dos contrastes. A personagem de Paulo José – apaixonada pela subjetividade da literatura e da poesia, que, por isso mesmo, é única linearidade em toda encenação − tenta, por meio da linguagem poética, entrelaçar extremos que, paradoxalmente, estão intrinsecamente ligados: amor/tristeza; compreensão/repúdio; experiência/imaturidade; juventude/velhice; companhia/solidão. Ela procura jogar alguma luz na incompreensão gerada por expectativas distintas, tentando amparar as pessoas dispostas a ouvi-la, de maneira que elas encontrem nas palavras formas ilustradas do que as consome por dentro – e possam viver. Nem sempre isso é possível. Aí está a utopia do trovador.

Com um elenco brilhante, liderado pelo excepcional Leonardo Medeiros (o nosso Ricardo Darín) e o já citado grande Paulo José, Felipe e Daniela trabalham as relações sentimentais contrapondo, na maior parte da encenação, a paixão adolescente (que representa inocência, entrega e doçura) com o “amor” maduro (muitas vezes prático, seco e burocrático). Qualquer semelhança com “Deixa ela entrar” não é mera coincidência – tirando o fato de que lá no frio europeu eles se entendem nas diferenças. Nós temos até a nossa vampirinha Eli, que ficará mais conhecida no Brasil como Zoyka, interpetada pela atriz Daniela Piepszyk (não conseguia parar de imaginar o momento em que ela iria direto no cangote do tiozinho do rock; na verdade, ocorreu o contrário).

A exceção à regra fica gritante na aproximação da fracassada personagem de Medeiros com a repórter vivida por Maria Luisa Mendonça: o descompasso profissional entre os dois, apesar do desejo subjacente, é determinante para que um fale árabe e o outro hebraico.

A desolação nasce justamente da falta de receptividade (incompreensão) do sujeito idealizado, que tem outra vivência, outra maturidade, outras idiossincrasias, outros objetivos. E não ter o brilho dos seus olhos refletidos machuca. Para viver é necessário amar, e amar dói. A Brasília fantasma captada pelas lentes simboliza o limbo emocional pelo qual os atores precisam guiar suas criações. Muitas ficarão perdidas pelo meio do caminho, sem chance de avançar ou retroceder.

Na sala escura, presenciei algo que, recentemente, só havia visto ao assistir “Anticristo”, de Lars von Trier (2009): pessoas abandonando o filme por causa da estética difícil e tortuosa (eu ainda vou perder um relacionamento por causa disso).

“Insolação” não é palatável como um copo de Coca-Cola. Felipe e Daniela enfiam em nossas goelas colheradas de Óleo de Fígado de Bacalhau com uma validade que até agora não expirou na minha alma. Quem faz esse tipo de cinema não está preocupado com a saúde da produção nas bilheterias. Algo muito maior norteia a vontade de realizar arte dos diretores. Eu vou continuar tentando entender o que é; buscar essa compreensão. Esse é o grande barato.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Quem saiu de fininho antes do tempo perdeu a cena em que a encantadora Simone Spoladore toma banho de chuva esparramada no asfalto, de vestido 🙂

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