Sobre a linha tênue que separa o sagrado do religioso, Daniel Filho dribla o profano e leva multidões aos cinemas para conferir “Chico Xavier”

A escolha de Daniel Filho para dirigir o filme acerca da vida do médium mais badalado do Brasil, Francisco Cândido Xavier (1910-2002), vulgo Chico Xavier, parece obra de alguma força superior. O diretor, que se diz ateu, amparado por todo o seu talento como realizador, lapidado ao longo de mais de 50 anos de dedicação à arte, se utiliza de um distanciamento respeitoso para contrapor fé e razão, crença e descrença, dimensões que permearam a vida do homem que dedicou sua sensibilidade ímpar ao altruísmo.

Baseando-se na biografia “As vidas de Chico Xavier”, do jornalista Marcel Souto Maior, Daniel se vale da participação de Chico Xavier no programa Pinga-Fogo, da extinta TV Tupi, no início da década de 1970, para costurar extratos da vida do médium − apresentados como flashbacks −, e compor sua narrativa.

Como um jornalista em busca da imparcialidade, o diretor flerta com a linguagem do documentário – embaralhando ficção e realidade − para dar um tom mais factual à sua encenação, sem a pretensão de contestar ou desacreditar as crenças de quem quer que seja; mas para dar credibilidade ecumênica a um personagem polêmico.

Matheus Costa, Ângelo Antônio e Nelson Xavier interpretam Chico, de forma brilhante, em diferentes fases da vida do espírita. Ambas as leituras dos vértices da mediunidade do mineiro nascido em Pedro Leopoldo são exploradas de maneira inteligente: tanto o que pode ser entendido como agruras creditadas a uma maldição quanto louros frutos da bênção divina desenham não um mártir do religioso, mas um ser humano especial que buscou o bem ameaçando, de forma não intencional, valores e dogmas empedernidos ao acreditar em algo diferente; nem preciso dizer que sofreu muito por causa disso.

Produção trabalhada com esmero pelas mãos de quem entende do riscado, “Chico Xavier” é um primor no quesito realização. Aliás, o cinema brasileiro tem crescido a passos largos no que diz respeito à forma. O cuidado com as novas fornadas é visível na qualidade expressa na tela.

Daniel traça, com suas câmeras, o perfil de seu objeto caminhando sobre a tênue linha que separa o sagrado do religioso, evitando tombar no profano – mas, sem se furtar de situações espinhosas. O diretor espelha sua incredulidade no personagem de Tony Ramos, magistral, como de costume. Responsável pela edição de imagens do Pinga-Fogo, Orlando (Tony), que perdeu seu filho num trágico acidente, destila seu ceticismo escarnecendo do talento de Chico Xavier.

A perda do menino, vítima de um disparo acidental de arma de fogo, acabou distanciando Orlando de sua mulher Glória (Christiane Torloni), que se vale de todos os métodos para tentar curar sua dor, inclusive do espiritismo – “remédios psicopáticos” que o marido não aprova.

O médium consegue derrubar as barreiras emocionais e o repúdio de Orlando ao psicografar uma carta do filho morto, que revela detalhes do dia fatídico – depois, ela é usada como prova no tribunal para inocentar o autor do crime, um amigo do garoto. As cenas do julgamento são de uma força desestruturante. Orlando, contra tudo aquilo que acredita (ou deixa de acreditar), coloca a razão de lado e se rende à emoção, protagonizando uma das cenas mais belas do filme. A justiça representa a racionalidade dos homens, que se dobra a desígnios que ela não consegue entender, somente respeitar.

“Chico…”, apesar de tudo que foi dito, não é um filme sombrio. A produção é arejada por situações divertidas que podem parecer, ao olhar mais desatento, consequências da profícua veia cômica de Daniel Filho – taxado como diretor que faz televisão para o cinema, com o objetivo de atrair grandes públicos em detrimento da reflexão gerada por obras de conceito mais universal.

O próprio protagonista é o responsável por tiradas à moda stand up comedy. Santo para muitos, charlatão para alguns e louco para outros tantos, Chico Xavier se aproveita de situações esdrúxulas proporcionadas por seu “dom” para fazer piada. E olha que o mineirinho tinha talento.

Bom, é verdade que tinha sempre alguém soprando no ouvido dele (verdade = por via das dúvidas, é sempre bom ficar com um pé atrás…). Em um momento de desânimo, Chico é amparado por seu guia, Emmanuel (André Dias), que relembra o infortúnio de Cristo, que foi parar na cruz, enquanto ele, Chico Xavier, foi só parar numa reportagem preconceituosa e mal intencionada da revista “Cruzeiro” − assinada por ninguém menos que David Nasser (Charles Fricks). E agora, Emmanuel, terminou aparecendo nas telas dos cinemas pelas mãos de Daniel Filho, seu outro guia. Se não gostou, paciência. Se você acha vida de guia espiritual é difícil, já imaginou a de crítico?

Não será necessário auxílio de outros planos para convencer vocês de que é um filme que merece ser visto, independentemente de credo ou religião.

Carlos Eduardo Bacellar


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