Padilha erra na mão e torna enfadonho documentário que poderia ser brilhante

No último fim de semana, como não podia deixar de ser diferente, os Doidos caíram dentro do 15º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, que movimenta o público cinéfilo no eixo Rio-São Paulo.

Abrindo os trabalhos, eu e minha parceira Helena corremos para o Unibanco Arteplex para conferir a exibição do novo documentário de José Padilha, “Segredos da Tribo”, coprodução da brasileira Zazen, de Padilha e Marcos Prado, com a BBC.

Em sua nova empreitada, Padilha coloca em xeque o exercício da antropologia ao questionar a ética do trabalho de campo e desestruturar a aura romântica que muitas vezes delineia nosso (equivocado?) entendimento acerca da rotina dos etnógrafos. São desveladas histórias de pedofilia, indução ao homossexualismo, exploração de prostituição e experiências danosas à saúde dos índios, consideradas genocidas por alguns.

O documentário se pauta nas experiências de figuras míticas da área, como os antropólogos Napoleon Chagnon, Jacques “Safadinho” Lizot (não resisti…) e Kenneth Good, e suas experiências nas tribos Ianomâmi – a polêmica foi dinamitada pelo livro de Patrick Tierney (2000), publicado no Brasil pela Ediouro com o título Trevas no Eldorado – como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia e violentaram a cultura Ianomâmi.

Após a interferência de Lizot, os Ianomâmi passaram a brincar com Comandos em Ação baseados no etnógrafo francês: modelo de conduta questionável

O assunto ganha dimensão quando paramos para refletir que a antropologia, não raro, é confundida com religião, e não tida como ciência, o que termina por “canonizar” os cientistas dessa disciplina em nossos subconscientes. Não é incomum nos esquecermos que o lado negro sempre está lá.

Tanto eu como a Helena esperávamos nada mais nada menos que um filmaço. E fomos obrigados a entrar no clima etnográfico (por causa de um atraso involuntário… culpa minha…) − sentamos nas escadas do cinema lotado, e tivemos que imaginar que estávamos estirados numa rede indígena, olhando para o céu ao entardecer.

Infelizmente, nossas expectativas foram frustradas. O cineasta escorrega na casca da banana do formato, compromete a construção da linguagem e torna o doc pouco palatável para o público brasileiro.

Antes da explicação, dois pontos que devem ser considerados, abonando parcialmente as opções de José Padilha, realizador que, sem sombra de dúvida, possui domínio sobre a linguagem cinematográfica:

1)   A complexidade do tema, extremamente espinhoso e difícil de ser abordado;

2)   O doc é financiado pela BBC inglesa, o que indica que (provavelmente) existia uma linha editorial bem definida, que pode ter cerceado a liberdade autoral de Padilha.

Dito isso, vamos que vamos. Abusando dos testemunhos secos, sem nenhum tipo de purpurina estética, o doc cansa até os mais aficionados pelo formato (que é o meu caso). O filme, calcado nessa base crua, poderia ter sido resolvido em, no máximo, 1h10min. Padilha estende a projeção para 94min (e acreditem, parece que tem mais de 2h), e um tema interessantíssimo se torna enfadonho e cansativo. Pessoas dormiram durante a exibição, outras poucas não resistiram e abandonaram o cinema. É um produto para inglês ver, literalmente.

Abrindo o Segundo Caderno de domingo (11/4), do jornal O Globo, o repórter André Miranda assina matéria na qual faz uma análise dos números dos documentários brasileiros, da Retomada para cá.  Baseado num estudo realizado pela Helena (essa é a minha garota!!!), lá pelas tantas o repórter destaca as seguintes aspas de Paulo Sérgio Almeida, diretor do portal de análise de mercado Filme B: […] Para atingir o público de cinema, o documentário precisa trazer uma informação inédita ou polêmica […]. Quando isso não acontece, ele cai numa mesmice e entra numa disputa difícil por espaços no cinema.

Sem discordar da opinião de Paulo Sérgio, não podemos esquecer que não é somente o ineditismo e a polêmica que alimentam a fome de um público ávido pelo gênero. Subgêneros como esporte e música, trabalhados em diversos docs, como O homem que engarrafava nuvens, de Lírio Ferreira, têm a possibilidade de utilizar recursos estéticos que apelam para a emoção do espectador, o que torna o resultado final mais sedutor – sem ter de necessariamente se utilizar de material inédito ou polêmico.

Padilha, sem dispor de tais firulas narrativas, talvez pela própria aridez do tema, faz um filme burocrático e excessivamente verborrágico. Caberia mais ousadia, apesar de o registro ser importante.

O crítico Carlos Alberto Mattos postou em seu blog um texto bem completo sobre a produção de Padilha, do qual pesquei diversas informações. Merece ser lido:

http://carmattos.wordpress.com/2010/04/06/antropologos-nao-sao-santos/

Sem dúvida alguma, o texto dele é muito melhor que o filme. Acabei comprando o livro de Tierney por causa das palavras do xará. Se a obra for desestimulante como a nova produção do diretor de “Tropa de Elite”, ele me deve R$ 34,45.

Carlos Eduardo Bacellar

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2 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

2 Respostas para “Padilha erra na mão e torna enfadonho documentário que poderia ser brilhante

  1. carmattos

    Já conversamos, xará, e você sabe que discordo da sua apreciação. Vi e revi o filme, e desde a primeira vez fiquei siderado pela batalha de ideias, ataques verbais e ironias autodepreciativas que rolam entre os antropólogos ouvidos por Padilha. Para mim, aquele filme tem mais “ação” do que muitos boring action films de Hollywood. Ação imaginária, emocional. E ainda a conflagração etnográfica, que achei fascinante. A montagem inteligente não me deixou espaço nenhum para tédio. Um dia, quem sabe, eu e você seremos protagonistas de uma discussão acirrada como as do filme, num outro talvez chamado “Segredos da Tribo dos Cinéfilos”.

    • É sempre um privilégio ouvir seus pontos de vista. Seu entendimento torna necessária uma nova imersão no filme do Padilha, desta vez com um olhar oxigenado.
      Quem sabe eu não estava num dia ruim e minha interpretação foi embaçada por causa disso? Não se esqueça que eu e a Helena vimos o filme sentados na escada, o que deverá me render uma lordose.
      De qualquer forma, seus comentários são sempre muito bem-vindos e necessários.
      Discussão acirrada com você? Estou perdido… Acho que eu talvez sobreviva a uma troca de ideias. Pode apostar que vou levar o caderninho e, também, uma câmera digital supimpa 🙂

      Abração amigo!

      Bacellar

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