Mike Leigh em sua melhor forma

Com a proximidade do Festival de Cannes, que será realizado entre os dias 12 e 23 de maio, é oportuno registrar amostras do trabalho de diretores que concorrem à Palma de Ouro deste ano.

Uma das feras é o diretor inglês Mike Leigh (o Coppola da terra da Rainha), que está na disputa com “Another Year”. Devoto da linha mais autoral, o realizador é o capitão de naus estéticas como “Topsy-Turvy” (1999), “O Segredo de Vera Drake” (2004) e “Simplesmente Feliz” (2008) − talvez a produção mais fresca nas retinas dos cinéfilos. Agora, a empreitada mais sombria e cáustica de Leigh, mas não menos vigorosa, é “Agora ou Nunca” (2002), filme do qual trataremos neste post.

Obstinado infectologista da alma, neste drama Leigh estuda com suas lentes os micro-organismos que atingem as aspirações e desejos individuais e deterioram as relações humanas. Sob o microscópio, uma família de classe média baixa da Londres contemporânea.

Phil (Timothy Spall em atuação estupenda) é um taxista que, juntamente com sua mulher Penny (Lesley Manville), uma caixa de supermercado, tenta se equilibrar na corda bamba que balança entre a miséria e a sobrevivência com o mínimo de dignidade. Não bastasse as dificuldades impostas por restrições orçamentárias, Phil é tolhido e diminuído pelo desprezo de Penny que, inconscientemente, implode a autoestima do companheiro com cobranças e comentários que mais são bofetadas. E bofetadas de quem você ama são as que mais doem.

Integram o pacote do núcleo familiar os dois filhos do casal: a tímida e lacônica Rachel (Alison Garland) – que ajuda com as despesas trabalhando como faxineira num asilo para idosos – e o adolescente revoltado Rory (James Corden), que tem como esporte o levantamento de garfo e pleiteia uma vaga no Guinness Book como o sujeito que passa mais tempo deitado no sofá alienado com a programação “instrutiva” da televisão.

Ao acompanharmos a rotina da família, e das pessoas que gravitam em torno dela, nossos olhos radiografam a putrefação dos relacionamentos não pela simples falta de grana, mas pela diferença de expectativas que ganha dimensão destrutiva quando é camuflada pelo silêncio.

Outras análises primorosas da falência dos núcleos familiares da classe média são arquitetadas por Sam Mendes, em “Foi apenas um sonho” (2008), e por Mike Nichols no magistral “Quem tem medo de Virginia Woolf?” (1966).

No primeiro, um casal vê sua relação ir para o espaço, dinamitada por intrigas e frustrações, ao sufocar paixões e alimentar a hipocrisia, o pior dos venenos. Já Nichols escracha e joga toda merda no ventilador ao criar um jogo desmoralizante entre os personagens do casal vivido por Richard Burton e Elizabeth Taylor. Nas duas produções, ambos os núcleos são abonados, o que descarta o dinheiro como panaceia para a satisfação das inquietações do espírito.

Mike Leigh, assim como Mendes, não se vale de nenhum artifício para alegorizar os problemas enfrentados por aquela família. É o “neorrealismo” inglês em sua excelência, ou melhor, em sua versão mais azeda e patética.

Mas nem tudo é desespero. Na iminência de testemunharem a falência da instituição, motivados por um evento que força a família a se reunir e se comunicar, Phil e Penny se confrontam e percebem que do diálogo pode nascer o entendimento − e a esperança de dias melhores juntos. Os substantivos família e amor, conjugados na construção de algo no longo prazo, não podem ser definidos por cifrões ou abdomens sarados – muito menos nutridos com o não dizer. O primeiro, concreto, se fundamenta nas mais loucas abstrações do segundo, que torna a nossa existência muito mais saborosa.

Leigh também nos dá a seguinte lição: A vida é curta e passa rápido. O que nós temos de mais valioso são as pessoas que nos amam e querem o nosso bem. Num piscar de olhos elas podem não estar mais do nosso lado. Uma palavra de carinho, inclusive nas situações mais adversas, pode fazer toda diferença – e trazer a luz no lugar da escuridão.

Gostaram?

Carlos Eduardo Bacellar

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s