Goodbye mediocridade

Talvez não seja a função precípua da sétima arte, quem sabe apenas o subproduto de pretensões estéticas?, mas é muitas vezes a emoção a responsável por tocar nosso cerne e, consequentemente, lotar salas de cinema.

Com “Goodbye Solo” (2008), o jovem diretor americano Ramin Bahrani, de 34 anos, nos evolve com a história − ao mesmo tempo simples e arrebatadora − de uma amizade inusitada que floresce nas entrelinhas do desespero no momento em que ele se choca com a esperança.

O taxista senegalês Solo (o magistral Souleymane Sy Savane), radicado nos EUA, pega em umas de suas corridas o rabugento William (Red West), um senhor que lhe faz uma proposta tentadora. Solo receberá mil dólares se, no dia 20 de outubro, levá-lo até uma região montanhosa conhecida por seus fortes ventos que, dizem, faz a neve subir da terra para o céu.

Não tarda para Solo se lembrar de que “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Intrigado com as atitudes de William, o taxista nota sinais de uma profunda depressão. Ele não consegue entender o motivo daquela tristeza, e o velho não deseja explicar quão fundo é o poço em que (acredita) se encontra. Mas nosso protagonista é tenaz e, num esforço de curiosidade, começa a montar o quebra-cabeça que impede seu mais novo amigo de enxergar um futuro.

O senegalês, não num impulso altruísta, mas humanitário, resolve mostrar ao inflexível William que a vida ainda guarda muitas alegrias. O filme pode ser entendido como a redenção de “Medo e Obsessão” (2004), do realizador alemão Wim Wenders. Desta vez a arte dá um drible no preconceito e alimenta a compreensão e o companheirismo construídos no olhar — a paranoia pela destruição se transforma na cisma com a preservação.

Solo é verborrágico e aberto, enquanto William é lacônico e enigmático. Este parece não ter ninguém; aquele se preocupa com sua família, que conta com seu auxílio e carinho. Apesar de pertencerem a universos distintos, os dois assimilam que o que realmente importa não precisa ser traduzido, nem ao menos dito, somente sentido.

Solo acaba aceitando o fato de que não pode demover William de sua vontade. E entende que, mesmo nas horas mais sombrias, um ombro amigo é mais do que necessário – não para mudar o rumo dos acontecimentos, mas, simplesmente, para estar lá.

A interação entre os dois atores é sublime, e algo difícil de ser encontrado no meio de tantas atuações rasteiras que inundam todo tipo de produção hoje em dia. Na linha de realizadores autorais americanos como Noah Baumbach, Ramin Bahrani acerta na mão e deixa suas estrelas brilharem.

Procure o filme na locadora mais próxima de sua casa. Vale cada centavo.

Carlos Eduardo Bacellar

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