Exumando a dissensão

O Caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, publicou, neste sábado, artigo indispensável da polivalente (a mulher é tudo: professora, escritora, crítica literária…) pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa Flora Süssekind, que coloca em xeque o exercício da crítica literária.

Flora parte da análise dos necrológicos necrológios do crítico Wilson Martins para desenvolver, com retórica rebuscada e feroz, raciocínio acerca do que entende como “o apequenamento e a perda de conteúdo significativo da discussão crítica, assim como da dimensão social da literatura no país nas últimas décadas”.

Alertando para a pasteurização da crítica literária, que procura homogenizar a arte, livrando sua exegese de possíveis formas de dissensão, ela desvela o lado perverso da função que, atrelada ao poder mercadológico, é forçada a se enquadrar à linha ideológica do padrão econômico dominante – que força o contínuo crescimento do número de exemplares, em descompasso com o alcance da produção, o faturamento das editoras e a capacidade de absorção por parte de consumidores e bibliotecas. Em decorrência disso, temos o esvaziamento do espaço de discussão, deturpado pela eugenia macabra das letras.

Transcrevo algumas palavras de Flora:

“Qual o interesse de um comentário crítico quando se pode obter muito mais visibilidade para escritores e lançamentos por meio de entrevistas, notas em colunas sociais e participações em eventos de todo tipo? Fabricam-se nomes e títulos vendáveis, vende-se, sobretudo o nome das editoras, e sua capacidade de descobrir “novos talentos” semestralmente, ao sabor das feiras literárias. E, nesse sentido, formas dissentâneas de percepção, como a crítica, se mostram particularmente incômodas. Formas personalistas e estabilizadoras, ao contrário, se esvaziadas, parecem continuar benvindas. Se adotado o perfil do colunista que “sabe ficar no seu lugar”, que funciona, com voz opiniática, e sem maiores tensões, como moldura quase invisível, inconsequente, para o que o mercado editorial ou o próprio veículo quiser referendar. Se desse lugar sem qualquer ressonância não houver condições reais de intervenção, formulação de questões relevantes e expansão do mínimo espaço público talvez ainda disponível para um exercício crítico que não se confunda inteiramente com busca de prestígio ou com um guia de consumo”.

No fim das contas, para a engrenagem do sistema capitalista girar, a magia de Harry Potter deve ser mais forte que a do Bruxo do Cosme Velho – fato que transcende o mero ato de escrever sobre. E fazendo analogia com a política, no que diz respeito à demanda: ninguém mais se interessa por debates ideológicos. No exercício de comparação, ganha o “produto” com a melhor roupagem.

A professora destacou extratos de alguns necrológicos necrológios escritos por conta da morte do célebre crítico, em janeiro último. E sobram caracteres afiados para todo mundo. As brigas entre profissionais para ver quem possui o maior membro – “Pois não há lugar para cordialidade alguma num campo cuja retração e desimportância amesquinham e tornam ainda mais cruenta a disputa por posições, pelos mínimos sinais de prestígio e por quaisquer possibilidades de autorreferendo. Daí a truculência preventiva, propositadamente categórica, emocionalizada, nada especulativa”; a inércia de pessoas que poderiam elevar a voz e apontar na direção contrária, mas se omitem por falta de colhão; a política de mercado, mais preocupada com teorias econômicas que com teorias sociais; nem o Wilson Martins (que Deus o tenha) escapou, sendo tachado de bibliotecário-arquivista de luxo, e não visto como uma figura com experiência analítica invejável. Como não poderia deixar de ser diferente, a isenção de seus textos para veículos de comunicação também foi questionada.

E o motivo de toda verborragia? O cinema, (quase) sempre ele. Aproveito o gancho para salientar o dever da crítica cinematográfica. Sei que é assunto polêmico, repleto de zonas cinza, mas profissionais que se pretendem sérios devem flanar acima de ditames mercadológicos e idiossincrasias enviesadas (olha só quem fala…). O deslumbramento deve ser comedido e técnico. Sei que as tentações são muitas, e é fácil escorregar na casca de banana que achamos ser alguma barra de chocolate.

Flora, gosto de mulheres como a senhora. Impetuosas, corajosas e que não contemporizam. Acredito que este verbo precisa ser deixado um pouco de lado pela crítica. Transigir é preciso. Se não há dissensão, não há arte. Viva a divergência! Precisamos de mais especialistas que falem para somente 3 pessoas, mas que sejam ouvidos e, com seu conhecimento, possibilitem o desenvolvimento do espírito crítico. A senhora iluminou o meu sábado com suas palavras.

O Exocet completo vocês podem conferir no blog do Prosa: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2010/04/24/a-critica-como-papel-de-bala-286122.asp

Carlos Eduardo “a voz que não se cala” Bacellar

p.s. Eu sabia que meu encontro fortuito com o Miguel Conde, num sebo (local bem sugestivo) da Zona Sul, era o prenúncio de que algo estava por vir. Espero que ele tenha gostado do filme “Mother” tanto quanto eu. Ah, sim, Miguel… Nunca me esqueci do “Cachorro do Vampiro de Cabul”. Você precisa exercitar com mais freqüência esse seu lado galhofeiro, meu garoto. Essa sua cara séria não me convence 😉

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Ensaio

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