Arquivo do mês: maio 2010

Almodóvar para presente

“Porque o amor é a coisa mais triste do mundo, quando se desfaz.”

Trecho da música “Amor em paz”. Composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Pedro Almodóvar já ficou tempo demais longe deste blog. Há poucas semanas, motivado por aquela comichão cinéfila, me embrenhei no universo almodovariano e tive uma overdose de obras-primas num intervalo de 2 dias: “Tudo sobre minha mãe” (1999), “Fale com ela” (2002), “Má educação” (2004) e “Volver” (2006).

Dos quatro, “Fale com ela” chamou minha atenção pela forma com que o realizador espanhol trata da incomunicabilidade do indivíduo, derivada do isolamento sentimental voluntário. Isolamento que pode ser motivado pelo(a) medo, orgulho, dúvida, egoísmo, perda. A paleta emocional é sortida.

Almodóvar, homossexual assumido, procura sublinhar temas considerados tabus – muitos polêmicos − em algumas de suas obras mais significativas. “Tudo sobre minha mãe” aborda o transexualidade; “Má educação” expõe escândalos de pedofilia envolvendo a Igreja; já em “Fale com ela”, Almodóvar manda a liturgia para o espaço e permite que suas câmeras profanem assuntos que deixariam qualquer carola de cabelo em pé. A produção conjuga psicopatia, coma, estupro, amor e amizade num roteiro brilhantemente construído, escrito pelo próprio diretor.

O cineasta espanhol abre seu filme rendendo uma homenagem ao teatro, de forma que sua encenação fique perdida entre o improviso e a instantaneidade dos palcos e o controle e o método captado pelas lentes − instinto versus racionalidade. Sentados lado a lado na plateia do espetáculo Café Müller, da coreógrafa alemã Pina Bausch, que mistura elementos do teatro e da dança, os protagonistas de “Fale com ela” se encontram pela primeira vez, por obra do acaso: Benigno Martín (Javier Cámara) e Marco Zuluaga (Darío Grandinetti). Este chora emocionado, enquanto aquele contempla por breves segundos as lágrimas do vizinho.

No drama, os dois núcleos de personagens, impelidos pelo amor (que alimenta a fornalha da esperança), se chocam novamente (e definitivamente) nos corredores frios de uma clínica particular. Descobrimos que Benigno Martín é o abnegado enfermeiro responsável por Alicia (Leonor Watling), uma paciente em estado de coma. Já o jornalista Marco Zuluaga, após convalescer de uma frustração amorosa no passado − que deixou cicatrizes profundas −, encontrou novamente o caminho para a felicidade nos braços da toureira Lydia González (Rosario Flores). Só que o destino teima em ser cruel com Zuluaga, que testemunha Lydia ser atropelada por um touro de meia tonelada ao exercer seu ofício. Resultado: a toureira é condenada ao estado vegetativo para o resto de sua vida, condição similar à de Alicia.

No ambiente asséptico da clínica, duas formas de afeto, metamorfoseadas em sentimentos distintos, aproximam os dois. Benigno, que vem cuidando de Alicia ao longo de quatro anos, acaba se apaixonando por ela (ou acreditando que está apaixonado). O enfermeiro conversa com a paciente como se ela pudesse entendê-lo, o que mitiga conflitos ao transformar a “relação”, que deveria ser construída com base na troca, em um monólogo.

Já Zuluaga desenvolve uma aversão por Lydia. Sem compreender que a relação dos dois já passava por turbulências antes do acidente, ele acredita que agora não existe mais possibilidade de estabelecer conexão com a pessoa que ama. Não consegue nem mais tocá-la. Amparado por Benigno, Zuluaga, ao velar por Lygia, vai decodificar o silêncio por meio das palavras de terceiros, e enxergar o que nem mil verbalizações poderiam ilustrar com tal clareza. Lygia estava mais distante de Zuluaga do que Plutão da Terra.

Um diálogo entre os dois protagonistas merece ser destacado:

Benigno (em resposta à frustração do amigo): “Fale com ela (Lydia). Conte isso a ela.”

Zuluaga: “Gostaria, mas ela não pode me ouvir.”

Benigno: “Como você tem certeza disso? A mente da mulher é um mistério, ainda mais neste estado. Tem de prestar atenção nelas, falar com elas… Pensar nos pequenos detalhes… Acariciá-las. Lembrar que existem, que vivem e que são importantes para nós. Esta é a única terapia.”

A história sofre sua reviravolta quando Benigno ultrapassa limites éticos e é acusado de um ato moralmente condenável. Almodóvar, trabalhando com o talento do ator, aflora a ambiguidade sexual e moral do enfermeiro, que, numa interpretação apressada e preconceituosa, poderia nos levar a imaginar que Benigno flerta com a misoginia. Com toda sua qualidade dramática, Javier Cámara carrega seu personagem de tons ingênuos, o que relativiza a má índole de seu comportamento. E a situação acaba se invertendo, com Zuluaga retribuindo ao amigo o conforto que lhe foi dispensado na clínica, agora em outro ambiente sufocante.

Alicerçado por uma estrutura narrativa não linear, que dá saltos temporais intercalando passado e presente, o realizador espanhol traça o contorno de um discurso alegórico sobre os obstáculos da vida a dois, e como eles podem ser galgados (ou, pelo menos, compreendidos) ao se estabelecer um canal de comunicação com o outro. Nós, finalmente, entendemos o verdadeiro motivo do choro mudo de Zuluaga no início da produção. O que o emocionava não era a peça, mas o fato de não poder partilhar aquele momento com a mulher amada.

É curioso como, neste filme, Almodóvar torna pouco evidente o expressionismo das cores que funciona como espécie de assinatura do diretor. Praticamente toda a exacerbação da aquarela se restringe às touradas, época em que os olhos de Zuluaga voltaram a brilhar, norteando seu coração para uma nova paixão.

“Fale com ela” também destaca o fascínio do diretor pelo Brasil. As referências são várias: a música que acompanha uma das cenas de tourada é Por toda a minha vida, na voz da Elis Regina; Caetano Veloso faz uma ponta no filme interpretando, com o músico Jacques Morelenbaum, a canção Cucurrucucu Paloma, de Tomás Mendez Sosa; Zuluaga elogia explicitamente Caetano no filme, e ainda faz referência a um trecho de letra musical composta por Tom e Vinicius.

Aí está o pacote completo: teatro, cinema, música, dança, Almodóvar, amor, polêmica e Brasil.

Fecho este post com um diálogo entre Benigno e a enfermeira Rosa (Rosario Fuentes), no momento em que ela duvida que Alicia possa um dia acordar:

Rosa: “Depois de 4 anos seria um milagre.”

Benigno: “Acredito em milagres. Deveria acreditar também.”

Rosa: “Por que eu?”

Benigno: “Porque precisaria deles. Pode até acontecer um, mas como você não crê, nem perceberia.”

Carlos Eduardo Bacellar


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Fantasmas que assombram Polanski impregnam seu thriller com fatalismo inexpugnável

Se Roman Polanski não fosse cineasta, com toda certeza daria um ótimo jornalista. Munido de sua lupa estética, o diretor franco-polonês esmiúça a falência moral do indivíduo e impregna seus personagens com o cinismo que disfarça a perversidade.  Assombrado por fatos trágicos que inflamam a desesperança em seu íntimo, ele carrega suas obras de tons sombrios.

Carregado nos braços por um Urso de Prata de melhor direção no último Festival de Berlim, “O escritor fantasma” (2010), mergulho do realizador no thriller policial, acaba de estrear no Brasil. Polanski se baseou no romance “O fantasma”, de Robert Harris, que é coautor do roteiro.

Na trama, Ewan McGregor é contratado como ghost writer para escrever a versão final de um livro acerca das memórias do primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan). O personagem do ator escocês, inominado, é apresentado a todos como o fantasma – maneira com que o diretor torna impessoal (ou reifica) o instrumento de transformação da história.

O trabalho do ghost será requentar o manuscrito deixado por seu predecessor, que foi encontrado morto em circunstâncias misteriosas. Levado para uma espécie de casa de veraneio de Lang, situada numa ilha nos EUA, ele é extraído de uma grande metrópole para se ver confinado em um ambiente frio e opressor – asséptico na aparência, mas podre na essência. Assim que inicia sua tarefa, ele começa a afundar na areia movediça do lado negro da política, que camufla segredos, intrigas e questões de Estado.

Versão britânica de Fernando Collor de Mello, Lang está mais para Eike Batista no status de playboy do que para um estadista. Descaradamente moldado na figura de Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, Lang se torna um títere do desastre que se agarra na barra da saia do belicismo e da empáfia ianque. O diretor faz da encenação uma crítica ácida à desastrosa política externa americana na era Bush − e ao envolvimento da Inglaterra na receita da estupidez.

Polanski, sempre arquitetando seus filmes com mulheres em papéis fortes, equilibra a irresponsabilidade e falta de norte do primeiro-ministro colocando ao seu lado a eficiente assessora Amelia Bly (Kim Cattrall, a ninfomaníaca Samantha Jones da série “Sex and the City”) e sua perspicaz esposa Ruth (Olivia Williams).

Assim como Amelia parece extrapolar suas funções profissionais, Ruth é mais do que só a primeira-dama que enfeita as fotos oficiais. Altamente gabaritada, ela é a conselheira a quem o primeiro-ministro recorre nos momentos de crise. Ou pelo menos recorria antes de o relacionamento dos dois começar a azedar. Lacônica e enigmática, exalando uma tristeza muda, Ruth é a mulher que engole do marido as frustrações que não podem vir a público.

O manuscrito original com o qual o ghost se depara, além de um convite para o tédio, esconde segredos que só começam a se desvelar quando ele transcende a mera burocracia do projeto e coloca seu ceticismo para funcionar. O escritor é o veículo utilizado pelo diretor para maquiar uma realidade insossa e sem charme – a vida pregressa de Lang −, mas que acaba sendo a ferramenta que dinamitará camadas e mais camadas de falsidade, escancarando relações impensáveis. O que ele descobre suscita a mesma cara de pânico de Mia Farrow ao se deparar com seu bebê demônio. Só que desta vez o mal pode ser bem mais charmoso.

As nuanças do roteiro são muito bem exploradas pelas lentes do diretor, que não deixa a plateia tomar fôlego e se acomodar na cadeira. Mestre do duplo sentido, Polanski parece ter desovado o personagem de Ewan na ilha de Lost: cada nova descoberta ou multiplica as perguntas, ou nos dá a resposta falsa. Roman, cumprindo prisão domiciliar em seu castelo na Suíça, escarnece do nosso virtuosismo inocente ao tornar translúcida uma realidade cruel, que não pode ser remendada pela vontade de algum purista militante.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Olivia Williams, no alto do salto de seus 41 anos, vira do avesso as convenções e mostra que cirurgia plástica não está com nada. Com mechas grisalhas que emolduram traços da idade, ela dá um show de beleza interpretando uma mulher madura que esbanja sensualidade. Não troco por uma de 20.

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É “pra Geral” curtir o Curta “Geral”, heim!

E relembrar o velho Maracanã, com a antiga Geral –  lugar da torcida organizada, da verdadeira inversão de valores da sociedade carioca, onde, pagando-me menos, conquistava-se um lugar ao sol –  o privilégio de assistir ao craque preferido de pertinho.

Saudosistas de plantão, geral aí, heim: aproveitem a chance e revejam os últimos momentos da Geral, no curta-metragem dirigido pela cineasta Anna Azevedo, neste domigo, 30/05, às 21h, no Unibanco Arteplex, sala 1 (Botafogo, RJ). Entrada franca. Sujeito à lotação da sala.

Helena Sroulevich

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És José Martí!

“Roza una abeja mi boca / Y crece en mi cuerpo el mundo”.

(José Martí)

Após frustrada tentativa de assalto aos quartéis de Moncada e Céspedes, em 26 de julho de 1953 (*), Fidel Castro é capturado. Quando perguntado sobre quem teria sido o mentor intelectual da operação, o jovem advogado responde: “És José Martí”!

Na fase adulta, José Martí foi o grande mártir da independência cubana. Nascido em 1853 numa família de imigrantes espanhóis – sem muitos recursos –, conheceu, desde cedo, a dominação colonial e a escravidão. Primogênito e único filho entre sete irmãs, José Julián Martí Perez (José Martí), era sutil no trato com os semelhantes. No olhar, fundia melancolia e convicção. Era silencioso. E com tino especial para Matemática e Latim, além das Artes. Podia permanecer, por horas, apreciando óperas. Na pré-adolescência, descobriu a sexualidade. Desconstruído o mito do herói, este é José Martí, dos 9 aos 17 anos, no recorte cinebiográfico “José Martí: El ojo del canário”, em cartaz, em Cuba.

Favorecido pela carência de informações sobre a infância de José Martí, Fernando Perez (**), diretor, roteirista e maior cineasta cubano em atividade, em sua obra (prima), parece fazer brotar um Martí de dentro de si. É vasto o mundo interior do personagem, inspirado, quiça intencionalmente, nos universos infantis de François Truffaut. Tudo o que é sentido pelo menino Martí ganha dimensões continentais, na forma de criança melancólica, que existe no silêncio e no olhar, e, desta forma, capta o seu entorno – que será revelado, anos depois, em suas atividades como poeta e político libertário da América Latina.

O filme – trajetória espiritual – de Martí foi realizado em co-produção com a Televisión Española, e a montagem final sugere una mini-série de quatro capítulos. “Abejas” (roza una abeja mi boca / y crece en mi cuerpo el mundo), com foco no menino de 9-10 anos que vive sua infância habanera na cidade e descobre o campo e a escravidão, a partir de uma viagem com o pai. A segunda parte mostra a construção sensível de Martí em relação às artes (literatura, poesia, teatro e música) e ao cubanismo (sentimento patriota de gostar do que é hecho en Cuba). A terceira fase é marcada pela intensa atividade política e poética que perseguirão Martí por toda vida. E o quarto final revela um Martí aparentemente acoado, órfão, aprisionado. [Spoiler] E é na prisão que o filme termina. A imagem do protagonista é congelada no olhar – em direção ao futuro -, e o convite é feito ao espectador  para mergulhar naquele silêncio, adentrar naquela alma, enquanto sobem os créditos finais. Verdadeiro show de cinema. Em todos os aspectos (direção, fotografia, roteiro, arte,…). E é assim do princípio ao fim.

Helena Sroulevich

(*) O episódio histórico é conhecido como “Assalto ao Quartel Moncada”, em Santiago de Cuba. O objetivo da ação, liderada por Fidel Castro e outros 165 companheiros, é tomar os quartéis – de assalto -, armar a população e derrubar o Governo de Fulgêncio Batista. Não há êxito na tentativa e vários companheiros são mortos. Fidel é capturado, julgado e condenado a 15 (quinze) anos de prisão, que não chega a cumprí-los, uma vez que é anistiado. E assim parte ao exílio no México, de onde a Revolução Cubana, que chega ao poder em 01 de Janeiro de 1959, é estrategicamente pensada e coordenada com Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Raul Castro.

(**) Fernando Perez é dono de uma cinebiografia que tem que ser (re)conhecida por qualquer amante do bom cinema. São dele alguns títulos memoráveis como “Clandestinos”, “Hello Hemigway”, “Suíte Habana” e “Madagascar”. Vale muito a pena.

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Sincretismo e poesia da obra de Jorge Amado servem de guia para criação de ode à amizade lastreada no realismo mágico

“Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há.”

Quincas Berro Dágua

Quincas Berro Dágua é o alter ego do funcionário público Joaquim que, após desatar o nó de gravata das convenções que o sufocavam, dá um basta na mediocridade e chatice de sua vida careta. Com anos de farra incubada, o agora (e definitivamente) Quincas resolve abraçar a esbórnia e curtir uma vida de excessos regada a álcool. Rasga o traje esporte fino e por baixo aparece a farda da malandragem. Abandona mulher e filha para viver entre o lúmpen-proletariado de uma Bahia imersa numa atmosfera onírica; e que transpira possibilidades para quem deseja se perder de si mesmo. E assim você é apresentado ao nosso anti-herói, cuja história começa com uma morte e deveria terminar com outra morte, mas não foi bem assim…

Carregado pelo sincretismo e verve poética de Jorge Amado (1912-2001), o diretor (e conterrâneo de Amado) Sérgio Machado pede licença aos seus Orixás e faz uma oferenda para todos que curtem o bom cinema. Baseado no livro “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua” – cuja primeira edição data de 1961 −, do romancista baiano pai dos capitães da areia, chega às telas “Quincas Berro Dágua”, que traz no papel do morto-protagonista um Paulo José impagável!

A quizumba começa com o falecimento de Quincas, que bate as botas agarrado a uma garrafa de pinga num cortiço imundo de algum canto esquecido da Bahia. Pois é, toda putaria desenfreada uma hora cobra o seu preço.

No velório, a turba maltrapilha devota do boêmio mais famoso do Pelourinho é confrontada pela família do ex-funcionário público, que esconde da sociedade a verdadeira ocupação (ou melhor, falta dela) do falecido. Mariana Ximenes interpreta a filha de Quincas, e representa toda a castração da liberdade do indivíduo, abafada por quilos de exigências formais de uma classe média hipócrita que fantasia suas raízes.

O contraste (que define a discrepância social) é marcado pelos malandros profissionais (romantizados pelo diretor) representados por Frank Menezes, Luís Miranda, Flávio Bauraqui e Irandhir Santos (o cara do momento). Inconformados com a morte do companheiro, os quatro encasquetam que Quincas não partiu dessa para melhor, e resolvem levá-lo para uma última noitada. Os fiéis amigos paramentam Quincas com a indumentária da perdição e, numa versão brasileira de “Um morto muito louco” (Ted Kotcheff, 1989), partem com o corpo pelas ladeiras do Pelourinho em busca de diversão. Todos os esquetes são devidamente acompanhados por Quincas do limbo em que se encontra: narrador de suas próprias desventuras pós-morte.

Congraçando realidade e delírio, Sérgio Machado tangencia o fantástico para falar da amizade sincera, que se recusa a arrefecer mesmo depois do último suspiro. Quincas Berro Dágua é mais do que um maestro da orgia e da alegria, ele é um estilo, um modo vida. Ele é um Ferris Bueller que cresceu, mas se arrependeu, e resolveu voltar a curtir a vida adoidado, inspirando quem orbitava ao seu redor. Morre com ele um pouco daquele espírito da picardia que habita todos nós, mas que muitas vezes fica em estado latente, enterrado em corações de terno e gravata. Seus trapalhões soteropolitanos não querem se desapegar dessa centelha hedonística que torna mais leve vidas tão difíceis.

Destaque no filme para a voluptuosa cafetina Manuela (Marieta Severo), nos braços de quem Quincas consegue conjugar carinho e tesão: a puta com o coração de ouro que todo homem (heterossexual) sonha encontrar.

Ouvi de algumas pessoas que é difícil engolir a metamorfose repentina da filha de Quincas. Eu digo o seguinte: não é assim na vida real? O ser humano é bizarramente contraditório. Em tempos de padres que catequizam menores de idades nos meandros da saliência, nada menos surpreendente. Quem nunca conheceu alguém que foi reprimido e/ou violentado – física ou moralmente − durante grande parte de sua vida e, quando atingiu seu limite, despirocou? Mariana Ximenes, cansada da rotina monocromática e linear de sua vidinha de dondoca de classe média, abraça sua herança e se entrega aos prazeres da carne – como que chancelando as atitudes de seu pai e redimindo-se das privações ao gemer de prazer num quarto sujo de motel.

Não dá para deixar de exaltar o trabalho do diretor de fotografia Toca Seabra que, por meio de suas lentes, cria uma atmosfera deprimente, imunda, enigmática, decadente – tudo e nada ao mesmo tempo −, mas cheia de energia e expectativas. Seu trabalho dá vida a uma Bahia mágica, cantada nos versos de Dorival Caymmi.

Carlos Eduardo Bacellar

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“Frère Jaques”

Frère Jacques
Frère Jacques
Dormez-vous?
Dormez-vous?

Sonnez les matines,
Sonnez les matines.
Ding, ding, dong.
Ding, ding, dong.

De alguma esquina do mundo, canto e recordo o aniversário do Frère Jaques Morelenbaum, em 18 de maio. Aliás, se esta cantiguita de ninar reverberasse daquele violoncelo, como seria? Não sei. Só sei das alegrias e lembranças intermináveis que criatura e criação não param de nos oferecer.

São de Jaques Morelenbaum, algumas em parceria com Antonio Pinto, as belas trilhas sonoras de “Central do Brasil”, “Orfeu do Carnaval”, “Tieta do Agreste”, “O Quatrilho”, e, mais recentemente, “Lula, o Filho do Brasil” e “Olhos Azuis”, de José Joffily, que chega aos cinemas na sexta que vem, 28 de maio.

Aqui, a homenagem simbólica ao grande artista que ganhou o mundo do cinema e dos palcos. E a notícia: este ano, enquanto completa 35 anos de escuderia e amuleto de nomes como Tom Jobim, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gal Costa, Cesária Évora e Sting, prepara seu primeiro álbum solo, resultado do trabalho desenvolvido pelo Cello Samba Trio; que também reúne o violonista Lula Galvão e o baterista Rafael Barata.

“A música dá o clima para o que os olhos vêem, guia suas emoções, é a moldura emocional para o que as imagens mostram”, como certa vez apontou o americano David W. Griffith, cineasta e professor de todos como Charles Chaplin, Orson Wells e John Ford. Aí acima, “Central do Brasil”. Mr. David W. Griffith não disse tudo? Quase.  “Frère Jaques” floreia a trilha sonora da vida de todos. É, Jaques Morelenbaum, minha gratidão eterna.

Helena Sroulevich

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MARXTRIX

Pega ônibus, carro, metrô, cavalo, trabalha, trabalha, trabalha, volta pra casa, enche a pança, vê novela, deita, transa, sexta bebe, cai, domingo vê Sílvio Santos, acorda, pedala, caminha, corre, corre, trabalha, trabalha, morre. Se você alguma vez sentiu todo o peso do vazio da vidinha consumista contemporânea e só não se desesperou por um apego fisiológico à vida, você não está louco, THE MATRIX HAS YOU!

Sempre digo que as grandes obras são maiores que elas mesmas, que encerram significados que, de tão poderosos, nem seus autores os conhecem por completo. Honestamente duvido que os Wachowski* tinham em mente qualquer coisa próxima das estruturas de dominação de classe propostas por Karl Marx, mas como defensor incorrigível do ser humano espiritual contra o material, não consigo deixar de ver em “Matrix”** (1999) a perfeita alegoria contemporânea sobre a opressão capitalista.

Outrora baseada na religião, a dominação de uma(s) classe(s) sobre outra(s) tornou-se digital, exata, maquínica. E foi a máquina que os humanos criaram, liberta do controle, então com o único propósito de crescer e prevalecer. Sem escrúpulos. Os mecanismos do capital, que em teoria geram riqueza, na real escravizam as pessoas. Terminator.

Além disso, os robôs da trilogia do virtual desenvolveram métodos de controle subjetivo, gerando a ilusão de que os seres humanos podem ser livres. É a dominação de cima a baixo, infra e superestruturas. “O mundo que foi posto diante de seus olhos”, diz Morfeu. A agenda midiática corporativa quer te fazer crer que o mundo está em progresso, que tudo que deve está sendo cuidado, que o trabalho deles é para o bem de todos, passo que na verdade a parada é all the way down, e pior, em grande parte por culpa deles! Coma seu hambúrguer e cale a boca. Tanto na Matrix como aqui, na real carne e metal, não só corpos aprisionados, mas espíritos também. Crescente complexidade em níveis, fractais como elos dos grilhões.

E lembre-se, nós somos o combustível deles, eles comem nossa carne, e nosso próximo pode virar o inimigo. Porque não há neutralidade. Se você não está com a resistência, estimula o sistema, mesmo inconsciente. É uma de suas peças, e pode tornar-se um agente num piscar de led. Nosso trabalho alienado faz o óleo da engrenagem deles, quando não a própria mortalha dos inocentes, e ainda temos a capacidade de voltar sorrindo pra casa. Dever cumprido.

Mas eis o herói! Ele é capaz, ele liberta! Mas costuma morrer e virar símbolo. E das pradarias do Elísio fica torcendo para que sua imagem inspire as massas, essas sim, únicas capazes da verdadeira revolução e liberdade.

Cristiano Kusbick Poll

*Andy e LANA (???) Wachowski. Isso mesmo! Se ficou curioso, escute o ArtsiderCast #1 e mais será revelado.

** Primeiro filme da trilogia idealizada pelos irmãos Wachowski. As outras duas produções que completam a obra-prima da dupla são Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, ambas de 2003.


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