Arquivo do mês: maio 2010

Almodóvar para presente

“Porque o amor é a coisa mais triste do mundo, quando se desfaz.”

Trecho da música “Amor em paz”. Composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Pedro Almodóvar já ficou tempo demais longe deste blog. Há poucas semanas, motivado por aquela comichão cinéfila, me embrenhei no universo almodovariano e tive uma overdose de obras-primas num intervalo de 2 dias: “Tudo sobre minha mãe” (1999), “Fale com ela” (2002), “Má educação” (2004) e “Volver” (2006).

Dos quatro, “Fale com ela” chamou minha atenção pela forma com que o realizador espanhol trata da incomunicabilidade do indivíduo, derivada do isolamento sentimental voluntário. Isolamento que pode ser motivado pelo(a) medo, orgulho, dúvida, egoísmo, perda. A paleta emocional é sortida.

Almodóvar, homossexual assumido, procura sublinhar temas considerados tabus – muitos polêmicos − em algumas de suas obras mais significativas. “Tudo sobre minha mãe” aborda o transexualidade; “Má educação” expõe escândalos de pedofilia envolvendo a Igreja; já em “Fale com ela”, Almodóvar manda a liturgia para o espaço e permite que suas câmeras profanem assuntos que deixariam qualquer carola de cabelo em pé. A produção conjuga psicopatia, coma, estupro, amor e amizade num roteiro brilhantemente construído, escrito pelo próprio diretor.

O cineasta espanhol abre seu filme rendendo uma homenagem ao teatro, de forma que sua encenação fique perdida entre o improviso e a instantaneidade dos palcos e o controle e o método captado pelas lentes − instinto versus racionalidade. Sentados lado a lado na plateia do espetáculo Café Müller, da coreógrafa alemã Pina Bausch, que mistura elementos do teatro e da dança, os protagonistas de “Fale com ela” se encontram pela primeira vez, por obra do acaso: Benigno Martín (Javier Cámara) e Marco Zuluaga (Darío Grandinetti). Este chora emocionado, enquanto aquele contempla por breves segundos as lágrimas do vizinho.

No drama, os dois núcleos de personagens, impelidos pelo amor (que alimenta a fornalha da esperança), se chocam novamente (e definitivamente) nos corredores frios de uma clínica particular. Descobrimos que Benigno Martín é o abnegado enfermeiro responsável por Alicia (Leonor Watling), uma paciente em estado de coma. Já o jornalista Marco Zuluaga, após convalescer de uma frustração amorosa no passado − que deixou cicatrizes profundas −, encontrou novamente o caminho para a felicidade nos braços da toureira Lydia González (Rosario Flores). Só que o destino teima em ser cruel com Zuluaga, que testemunha Lydia ser atropelada por um touro de meia tonelada ao exercer seu ofício. Resultado: a toureira é condenada ao estado vegetativo para o resto de sua vida, condição similar à de Alicia.

No ambiente asséptico da clínica, duas formas de afeto, metamorfoseadas em sentimentos distintos, aproximam os dois. Benigno, que vem cuidando de Alicia ao longo de quatro anos, acaba se apaixonando por ela (ou acreditando que está apaixonado). O enfermeiro conversa com a paciente como se ela pudesse entendê-lo, o que mitiga conflitos ao transformar a “relação”, que deveria ser construída com base na troca, em um monólogo.

Já Zuluaga desenvolve uma aversão por Lydia. Sem compreender que a relação dos dois já passava por turbulências antes do acidente, ele acredita que agora não existe mais possibilidade de estabelecer conexão com a pessoa que ama. Não consegue nem mais tocá-la. Amparado por Benigno, Zuluaga, ao velar por Lygia, vai decodificar o silêncio por meio das palavras de terceiros, e enxergar o que nem mil verbalizações poderiam ilustrar com tal clareza. Lygia estava mais distante de Zuluaga do que Plutão da Terra.

Um diálogo entre os dois protagonistas merece ser destacado:

Benigno (em resposta à frustração do amigo): “Fale com ela (Lydia). Conte isso a ela.”

Zuluaga: “Gostaria, mas ela não pode me ouvir.”

Benigno: “Como você tem certeza disso? A mente da mulher é um mistério, ainda mais neste estado. Tem de prestar atenção nelas, falar com elas… Pensar nos pequenos detalhes… Acariciá-las. Lembrar que existem, que vivem e que são importantes para nós. Esta é a única terapia.”

A história sofre sua reviravolta quando Benigno ultrapassa limites éticos e é acusado de um ato moralmente condenável. Almodóvar, trabalhando com o talento do ator, aflora a ambiguidade sexual e moral do enfermeiro, que, numa interpretação apressada e preconceituosa, poderia nos levar a imaginar que Benigno flerta com a misoginia. Com toda sua qualidade dramática, Javier Cámara carrega seu personagem de tons ingênuos, o que relativiza a má índole de seu comportamento. E a situação acaba se invertendo, com Zuluaga retribuindo ao amigo o conforto que lhe foi dispensado na clínica, agora em outro ambiente sufocante.

Alicerçado por uma estrutura narrativa não linear, que dá saltos temporais intercalando passado e presente, o realizador espanhol traça o contorno de um discurso alegórico sobre os obstáculos da vida a dois, e como eles podem ser galgados (ou, pelo menos, compreendidos) ao se estabelecer um canal de comunicação com o outro. Nós, finalmente, entendemos o verdadeiro motivo do choro mudo de Zuluaga no início da produção. O que o emocionava não era a peça, mas o fato de não poder partilhar aquele momento com a mulher amada.

É curioso como, neste filme, Almodóvar torna pouco evidente o expressionismo das cores que funciona como espécie de assinatura do diretor. Praticamente toda a exacerbação da aquarela se restringe às touradas, época em que os olhos de Zuluaga voltaram a brilhar, norteando seu coração para uma nova paixão.

“Fale com ela” também destaca o fascínio do diretor pelo Brasil. As referências são várias: a música que acompanha uma das cenas de tourada é Por toda a minha vida, na voz da Elis Regina; Caetano Veloso faz uma ponta no filme interpretando, com o músico Jacques Morelenbaum, a canção Cucurrucucu Paloma, de Tomás Mendez Sosa; Zuluaga elogia explicitamente Caetano no filme, e ainda faz referência a um trecho de letra musical composta por Tom e Vinicius.

Aí está o pacote completo: teatro, cinema, música, dança, Almodóvar, amor, polêmica e Brasil.

Fecho este post com um diálogo entre Benigno e a enfermeira Rosa (Rosario Fuentes), no momento em que ela duvida que Alicia possa um dia acordar:

Rosa: “Depois de 4 anos seria um milagre.”

Benigno: “Acredito em milagres. Deveria acreditar também.”

Rosa: “Por que eu?”

Benigno: “Porque precisaria deles. Pode até acontecer um, mas como você não crê, nem perceberia.”

Carlos Eduardo Bacellar


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Fantasmas que assombram Polanski impregnam seu thriller com fatalismo inexpugnável

Se Roman Polanski não fosse cineasta, com toda certeza daria um ótimo jornalista. Munido de sua lupa estética, o diretor franco-polonês esmiúça a falência moral do indivíduo e impregna seus personagens com o cinismo que disfarça a perversidade.  Assombrado por fatos trágicos que inflamam a desesperança em seu íntimo, ele carrega suas obras de tons sombrios.

Carregado nos braços por um Urso de Prata de melhor direção no último Festival de Berlim, “O escritor fantasma” (2010), mergulho do realizador no thriller policial, acaba de estrear no Brasil. Polanski se baseou no romance “O fantasma”, de Robert Harris, que é coautor do roteiro.

Na trama, Ewan McGregor é contratado como ghost writer para escrever a versão final de um livro acerca das memórias do primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan). O personagem do ator escocês, inominado, é apresentado a todos como o fantasma – maneira com que o diretor torna impessoal (ou reifica) o instrumento de transformação da história.

O trabalho do ghost será requentar o manuscrito deixado por seu predecessor, que foi encontrado morto em circunstâncias misteriosas. Levado para uma espécie de casa de veraneio de Lang, situada numa ilha nos EUA, ele é extraído de uma grande metrópole para se ver confinado em um ambiente frio e opressor – asséptico na aparência, mas podre na essência. Assim que inicia sua tarefa, ele começa a afundar na areia movediça do lado negro da política, que camufla segredos, intrigas e questões de Estado.

Versão britânica de Fernando Collor de Mello, Lang está mais para Eike Batista no status de playboy do que para um estadista. Descaradamente moldado na figura de Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, Lang se torna um títere do desastre que se agarra na barra da saia do belicismo e da empáfia ianque. O diretor faz da encenação uma crítica ácida à desastrosa política externa americana na era Bush − e ao envolvimento da Inglaterra na receita da estupidez.

Polanski, sempre arquitetando seus filmes com mulheres em papéis fortes, equilibra a irresponsabilidade e falta de norte do primeiro-ministro colocando ao seu lado a eficiente assessora Amelia Bly (Kim Cattrall, a ninfomaníaca Samantha Jones da série “Sex and the City”) e sua perspicaz esposa Ruth (Olivia Williams).

Assim como Amelia parece extrapolar suas funções profissionais, Ruth é mais do que só a primeira-dama que enfeita as fotos oficiais. Altamente gabaritada, ela é a conselheira a quem o primeiro-ministro recorre nos momentos de crise. Ou pelo menos recorria antes de o relacionamento dos dois começar a azedar. Lacônica e enigmática, exalando uma tristeza muda, Ruth é a mulher que engole do marido as frustrações que não podem vir a público.

O manuscrito original com o qual o ghost se depara, além de um convite para o tédio, esconde segredos que só começam a se desvelar quando ele transcende a mera burocracia do projeto e coloca seu ceticismo para funcionar. O escritor é o veículo utilizado pelo diretor para maquiar uma realidade insossa e sem charme – a vida pregressa de Lang −, mas que acaba sendo a ferramenta que dinamitará camadas e mais camadas de falsidade, escancarando relações impensáveis. O que ele descobre suscita a mesma cara de pânico de Mia Farrow ao se deparar com seu bebê demônio. Só que desta vez o mal pode ser bem mais charmoso.

As nuanças do roteiro são muito bem exploradas pelas lentes do diretor, que não deixa a plateia tomar fôlego e se acomodar na cadeira. Mestre do duplo sentido, Polanski parece ter desovado o personagem de Ewan na ilha de Lost: cada nova descoberta ou multiplica as perguntas, ou nos dá a resposta falsa. Roman, cumprindo prisão domiciliar em seu castelo na Suíça, escarnece do nosso virtuosismo inocente ao tornar translúcida uma realidade cruel, que não pode ser remendada pela vontade de algum purista militante.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Olivia Williams, no alto do salto de seus 41 anos, vira do avesso as convenções e mostra que cirurgia plástica não está com nada. Com mechas grisalhas que emolduram traços da idade, ela dá um show de beleza interpretando uma mulher madura que esbanja sensualidade. Não troco por uma de 20.

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É “pra Geral” curtir o Curta “Geral”, heim!

E relembrar o velho Maracanã, com a antiga Geral –  lugar da torcida organizada, da verdadeira inversão de valores da sociedade carioca, onde, pagando-me menos, conquistava-se um lugar ao sol –  o privilégio de assistir ao craque preferido de pertinho.

Saudosistas de plantão, geral aí, heim: aproveitem a chance e revejam os últimos momentos da Geral, no curta-metragem dirigido pela cineasta Anna Azevedo, neste domigo, 30/05, às 21h, no Unibanco Arteplex, sala 1 (Botafogo, RJ). Entrada franca. Sujeito à lotação da sala.

Helena Sroulevich

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És José Martí!

“Roza una abeja mi boca / Y crece en mi cuerpo el mundo”.

(José Martí)

Após frustrada tentativa de assalto aos quartéis de Moncada e Céspedes, em 26 de julho de 1953 (*), Fidel Castro é capturado. Quando perguntado sobre quem teria sido o mentor intelectual da operação, o jovem advogado responde: “És José Martí”!

Na fase adulta, José Martí foi o grande mártir da independência cubana. Nascido em 1853 numa família de imigrantes espanhóis – sem muitos recursos –, conheceu, desde cedo, a dominação colonial e a escravidão. Primogênito e único filho entre sete irmãs, José Julián Martí Perez (José Martí), era sutil no trato com os semelhantes. No olhar, fundia melancolia e convicção. Era silencioso. E com tino especial para Matemática e Latim, além das Artes. Podia permanecer, por horas, apreciando óperas. Na pré-adolescência, descobriu a sexualidade. Desconstruído o mito do herói, este é José Martí, dos 9 aos 17 anos, no recorte cinebiográfico “José Martí: El ojo del canário”, em cartaz, em Cuba.

Favorecido pela carência de informações sobre a infância de José Martí, Fernando Perez (**), diretor, roteirista e maior cineasta cubano em atividade, em sua obra (prima), parece fazer brotar um Martí de dentro de si. É vasto o mundo interior do personagem, inspirado, quiça intencionalmente, nos universos infantis de François Truffaut. Tudo o que é sentido pelo menino Martí ganha dimensões continentais, na forma de criança melancólica, que existe no silêncio e no olhar, e, desta forma, capta o seu entorno – que será revelado, anos depois, em suas atividades como poeta e político libertário da América Latina.

O filme – trajetória espiritual – de Martí foi realizado em co-produção com a Televisión Española, e a montagem final sugere una mini-série de quatro capítulos. “Abejas” (roza una abeja mi boca / y crece en mi cuerpo el mundo), com foco no menino de 9-10 anos que vive sua infância habanera na cidade e descobre o campo e a escravidão, a partir de uma viagem com o pai. A segunda parte mostra a construção sensível de Martí em relação às artes (literatura, poesia, teatro e música) e ao cubanismo (sentimento patriota de gostar do que é hecho en Cuba). A terceira fase é marcada pela intensa atividade política e poética que perseguirão Martí por toda vida. E o quarto final revela um Martí aparentemente acoado, órfão, aprisionado. [Spoiler] E é na prisão que o filme termina. A imagem do protagonista é congelada no olhar – em direção ao futuro -, e o convite é feito ao espectador  para mergulhar naquele silêncio, adentrar naquela alma, enquanto sobem os créditos finais. Verdadeiro show de cinema. Em todos os aspectos (direção, fotografia, roteiro, arte,…). E é assim do princípio ao fim.

Helena Sroulevich

(*) O episódio histórico é conhecido como “Assalto ao Quartel Moncada”, em Santiago de Cuba. O objetivo da ação, liderada por Fidel Castro e outros 165 companheiros, é tomar os quartéis – de assalto -, armar a população e derrubar o Governo de Fulgêncio Batista. Não há êxito na tentativa e vários companheiros são mortos. Fidel é capturado, julgado e condenado a 15 (quinze) anos de prisão, que não chega a cumprí-los, uma vez que é anistiado. E assim parte ao exílio no México, de onde a Revolução Cubana, que chega ao poder em 01 de Janeiro de 1959, é estrategicamente pensada e coordenada com Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Raul Castro.

(**) Fernando Perez é dono de uma cinebiografia que tem que ser (re)conhecida por qualquer amante do bom cinema. São dele alguns títulos memoráveis como “Clandestinos”, “Hello Hemigway”, “Suíte Habana” e “Madagascar”. Vale muito a pena.

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Sincretismo e poesia da obra de Jorge Amado servem de guia para criação de ode à amizade lastreada no realismo mágico

“Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há.”

Quincas Berro Dágua

Quincas Berro Dágua é o alter ego do funcionário público Joaquim que, após desatar o nó de gravata das convenções que o sufocavam, dá um basta na mediocridade e chatice de sua vida careta. Com anos de farra incubada, o agora (e definitivamente) Quincas resolve abraçar a esbórnia e curtir uma vida de excessos regada a álcool. Rasga o traje esporte fino e por baixo aparece a farda da malandragem. Abandona mulher e filha para viver entre o lúmpen-proletariado de uma Bahia imersa numa atmosfera onírica; e que transpira possibilidades para quem deseja se perder de si mesmo. E assim você é apresentado ao nosso anti-herói, cuja história começa com uma morte e deveria terminar com outra morte, mas não foi bem assim…

Carregado pelo sincretismo e verve poética de Jorge Amado (1912-2001), o diretor (e conterrâneo de Amado) Sérgio Machado pede licença aos seus Orixás e faz uma oferenda para todos que curtem o bom cinema. Baseado no livro “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua” – cuja primeira edição data de 1961 −, do romancista baiano pai dos capitães da areia, chega às telas “Quincas Berro Dágua”, que traz no papel do morto-protagonista um Paulo José impagável!

A quizumba começa com o falecimento de Quincas, que bate as botas agarrado a uma garrafa de pinga num cortiço imundo de algum canto esquecido da Bahia. Pois é, toda putaria desenfreada uma hora cobra o seu preço.

No velório, a turba maltrapilha devota do boêmio mais famoso do Pelourinho é confrontada pela família do ex-funcionário público, que esconde da sociedade a verdadeira ocupação (ou melhor, falta dela) do falecido. Mariana Ximenes interpreta a filha de Quincas, e representa toda a castração da liberdade do indivíduo, abafada por quilos de exigências formais de uma classe média hipócrita que fantasia suas raízes.

O contraste (que define a discrepância social) é marcado pelos malandros profissionais (romantizados pelo diretor) representados por Frank Menezes, Luís Miranda, Flávio Bauraqui e Irandhir Santos (o cara do momento). Inconformados com a morte do companheiro, os quatro encasquetam que Quincas não partiu dessa para melhor, e resolvem levá-lo para uma última noitada. Os fiéis amigos paramentam Quincas com a indumentária da perdição e, numa versão brasileira de “Um morto muito louco” (Ted Kotcheff, 1989), partem com o corpo pelas ladeiras do Pelourinho em busca de diversão. Todos os esquetes são devidamente acompanhados por Quincas do limbo em que se encontra: narrador de suas próprias desventuras pós-morte.

Congraçando realidade e delírio, Sérgio Machado tangencia o fantástico para falar da amizade sincera, que se recusa a arrefecer mesmo depois do último suspiro. Quincas Berro Dágua é mais do que um maestro da orgia e da alegria, ele é um estilo, um modo vida. Ele é um Ferris Bueller que cresceu, mas se arrependeu, e resolveu voltar a curtir a vida adoidado, inspirando quem orbitava ao seu redor. Morre com ele um pouco daquele espírito da picardia que habita todos nós, mas que muitas vezes fica em estado latente, enterrado em corações de terno e gravata. Seus trapalhões soteropolitanos não querem se desapegar dessa centelha hedonística que torna mais leve vidas tão difíceis.

Destaque no filme para a voluptuosa cafetina Manuela (Marieta Severo), nos braços de quem Quincas consegue conjugar carinho e tesão: a puta com o coração de ouro que todo homem (heterossexual) sonha encontrar.

Ouvi de algumas pessoas que é difícil engolir a metamorfose repentina da filha de Quincas. Eu digo o seguinte: não é assim na vida real? O ser humano é bizarramente contraditório. Em tempos de padres que catequizam menores de idades nos meandros da saliência, nada menos surpreendente. Quem nunca conheceu alguém que foi reprimido e/ou violentado – física ou moralmente − durante grande parte de sua vida e, quando atingiu seu limite, despirocou? Mariana Ximenes, cansada da rotina monocromática e linear de sua vidinha de dondoca de classe média, abraça sua herança e se entrega aos prazeres da carne – como que chancelando as atitudes de seu pai e redimindo-se das privações ao gemer de prazer num quarto sujo de motel.

Não dá para deixar de exaltar o trabalho do diretor de fotografia Toca Seabra que, por meio de suas lentes, cria uma atmosfera deprimente, imunda, enigmática, decadente – tudo e nada ao mesmo tempo −, mas cheia de energia e expectativas. Seu trabalho dá vida a uma Bahia mágica, cantada nos versos de Dorival Caymmi.

Carlos Eduardo Bacellar

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“Frère Jaques”

Frère Jacques
Frère Jacques
Dormez-vous?
Dormez-vous?

Sonnez les matines,
Sonnez les matines.
Ding, ding, dong.
Ding, ding, dong.

De alguma esquina do mundo, canto e recordo o aniversário do Frère Jaques Morelenbaum, em 18 de maio. Aliás, se esta cantiguita de ninar reverberasse daquele violoncelo, como seria? Não sei. Só sei das alegrias e lembranças intermináveis que criatura e criação não param de nos oferecer.

São de Jaques Morelenbaum, algumas em parceria com Antonio Pinto, as belas trilhas sonoras de “Central do Brasil”, “Orfeu do Carnaval”, “Tieta do Agreste”, “O Quatrilho”, e, mais recentemente, “Lula, o Filho do Brasil” e “Olhos Azuis”, de José Joffily, que chega aos cinemas na sexta que vem, 28 de maio.

Aqui, a homenagem simbólica ao grande artista que ganhou o mundo do cinema e dos palcos. E a notícia: este ano, enquanto completa 35 anos de escuderia e amuleto de nomes como Tom Jobim, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gal Costa, Cesária Évora e Sting, prepara seu primeiro álbum solo, resultado do trabalho desenvolvido pelo Cello Samba Trio; que também reúne o violonista Lula Galvão e o baterista Rafael Barata.

“A música dá o clima para o que os olhos vêem, guia suas emoções, é a moldura emocional para o que as imagens mostram”, como certa vez apontou o americano David W. Griffith, cineasta e professor de todos como Charles Chaplin, Orson Wells e John Ford. Aí acima, “Central do Brasil”. Mr. David W. Griffith não disse tudo? Quase.  “Frère Jaques” floreia a trilha sonora da vida de todos. É, Jaques Morelenbaum, minha gratidão eterna.

Helena Sroulevich

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MARXTRIX

Pega ônibus, carro, metrô, cavalo, trabalha, trabalha, trabalha, volta pra casa, enche a pança, vê novela, deita, transa, sexta bebe, cai, domingo vê Sílvio Santos, acorda, pedala, caminha, corre, corre, trabalha, trabalha, morre. Se você alguma vez sentiu todo o peso do vazio da vidinha consumista contemporânea e só não se desesperou por um apego fisiológico à vida, você não está louco, THE MATRIX HAS YOU!

Sempre digo que as grandes obras são maiores que elas mesmas, que encerram significados que, de tão poderosos, nem seus autores os conhecem por completo. Honestamente duvido que os Wachowski* tinham em mente qualquer coisa próxima das estruturas de dominação de classe propostas por Karl Marx, mas como defensor incorrigível do ser humano espiritual contra o material, não consigo deixar de ver em “Matrix”** (1999) a perfeita alegoria contemporânea sobre a opressão capitalista.

Outrora baseada na religião, a dominação de uma(s) classe(s) sobre outra(s) tornou-se digital, exata, maquínica. E foi a máquina que os humanos criaram, liberta do controle, então com o único propósito de crescer e prevalecer. Sem escrúpulos. Os mecanismos do capital, que em teoria geram riqueza, na real escravizam as pessoas. Terminator.

Além disso, os robôs da trilogia do virtual desenvolveram métodos de controle subjetivo, gerando a ilusão de que os seres humanos podem ser livres. É a dominação de cima a baixo, infra e superestruturas. “O mundo que foi posto diante de seus olhos”, diz Morfeu. A agenda midiática corporativa quer te fazer crer que o mundo está em progresso, que tudo que deve está sendo cuidado, que o trabalho deles é para o bem de todos, passo que na verdade a parada é all the way down, e pior, em grande parte por culpa deles! Coma seu hambúrguer e cale a boca. Tanto na Matrix como aqui, na real carne e metal, não só corpos aprisionados, mas espíritos também. Crescente complexidade em níveis, fractais como elos dos grilhões.

E lembre-se, nós somos o combustível deles, eles comem nossa carne, e nosso próximo pode virar o inimigo. Porque não há neutralidade. Se você não está com a resistência, estimula o sistema, mesmo inconsciente. É uma de suas peças, e pode tornar-se um agente num piscar de led. Nosso trabalho alienado faz o óleo da engrenagem deles, quando não a própria mortalha dos inocentes, e ainda temos a capacidade de voltar sorrindo pra casa. Dever cumprido.

Mas eis o herói! Ele é capaz, ele liberta! Mas costuma morrer e virar símbolo. E das pradarias do Elísio fica torcendo para que sua imagem inspire as massas, essas sim, únicas capazes da verdadeira revolução e liberdade.

Cristiano Kusbick Poll

*Andy e LANA (???) Wachowski. Isso mesmo! Se ficou curioso, escute o ArtsiderCast #1 e mais será revelado.

** Primeiro filme da trilogia idealizada pelos irmãos Wachowski. As outras duas produções que completam a obra-prima da dupla são Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, ambas de 2003.


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Entrevista com o cineasta José Joffily

Envolvido na maratona de divulgação de sua mais nova realização, “Olhos azuis” (2009), filme que iniciou sua carreira fazendo a limpa no Festival de Paulínia 2009 (a produção arrematou 6 prêmios, incluindo o de melhor filme), o diretor, produtor e roteirista paraibano José Joffily abriu uma brecha em sua agenda e concedeu uma rápida entrevista para o blog.

Com estreia marcada para o próximo dia 28, o novo longa-metragem do realizador de “Dois perdidos numa noite suja” (2002) volta ao tema dos imigrantes, mas desta vez coloca um grupo de latinos como réus num tribunal de exceção presidido pelo intransigente e perturbado Marshall (David Rasche), chefe do Departamento de Imigração do Aeroporto JFK (Nova Iorque). Roteirizado por Paulo Halm e Melanie Dimantas, “Olhos azuis” não se restringe à xenofobia – nossas retinas são expostas a uma alma atormentada em busca de reparação e da humanidade perdida (mais informações acerca da produção podem ser conferidas no post abaixo).

Por e-mail, o simpático e paciente Joffily (o repórter tinha combinado 5 perguntas, mas, empolgado, tascou logo 8, com subitens) trocou algumas palavras conosco. Ele foi lacônico, mas esclarecedor.

Doidos: Apesar de o senhor ter dito que não tratou Marshall como uma metáfora, fica difícil não imaginá-lo como símbolo da decadência da política americana, principalmente durante a desgastada era Bush. Ao longo do filme, o ex-chefe da imigração do JFK definha, assim como ocorreu com a imagem dos EUA perante o cenário mundial na última gestão da Casa Branca (Barack Obama agora luta para reverter esse passivo de imagem). O que o senhor pensa a respeito disso?

Joffily: “Não sou analista de política internacional, mas com a crise econômica surgiram os sinais de uma crise na liderança dos EUA.”

Doidos: Em algum momento o senhor sentiu desconforto na equipe e nos atores americanos? Afinal, o filme coloca em xeque, por causa das atitudes reprováveis de Marshall, a idoneidade do departamento de imigração do aeroporto JFK (mesmo se considerarmos um caso isolado, centrado na conduta de uma figura pontual). O filme já passou por festivais em Paulínia e Paris, e entra em circuito nacional no dia 28 de maio. “Olhos…” já tem distribuição programada para os EUA?

Joffily: “Acho que o desconforto era mais meu. Durantes os testes para a escolha dos personagens estadunidenses, mais de 20 atores receberam e interpretaram a cena que escolhi. Isso foi lá em Nova Iorque, e eu me lembro de um certo constrangimento, pois era a primeira vez que escutava aqueles diálogos ditos em voz alta. Interpretadas, as falas pareciam mais duras. Estamos em negociação com um distribuidor americano.”

Doidos: O filme é o seu segundo projeto que aborda a questão dos imigrantes. Tanto “Olhos…” como “Dois perdidos numa noite suja” (2002) exalam o desencanto com um suposto “paraíso”, que na verdade não existe. O senhor é um paraibano que ganhou o mundo com seus filmes. Esses dois projetos, de alguma maneira, serviram como instrumentos para sublimar idealizações do diretor (pessoa física) que não encontraram respaldo na realidade?

Joffily: “É difícil para o autor saber desses sentimentos. Com o filme no mundo, o filme deixa de ser do autor e ganha interpretações reveladoras para ele mesmo.”

Doidos: Antes de as circulações transnacionais de pessoas se tornarem mais frequentes, consequências diretas do processo de globalização, as emigrações ocorriam, em maior número, dentro das próprias fronteiras nacionais. No caso do Brasil, muitos nordestinos, motivados por cenários adversos, partiram (e partem) em direção ao Sudeste em busca de melhores oportunidades. Acreditam que o eixo Rio-São Paulo é o Eldorado abaixo da linha do Equador. Só que as expectativas, muitas vezes, são atropeladas por pesadelos. Podemos traçar um paralelo com a esperança alimentada por latinos, sublinhada no seu filme, que partem em direção aos EUA em busca de realização?

Joffily: “O brasileiro que migra para dentro do seu país sofre discriminação, mas acho que é diferente daquela que sente o sujeito no exterior. A começar pela língua, que aqui é igual e já é um fator que aproxima muito. Por outro lado, o imigrante sofre um desafio muito grande e, enfrentá-lo quando se é jovem, pode ser estimulante.”

Doidos: Nós temos um paradoxo: quanto maior é a circulação de pessoas, maior é a mistura e o contato com o diferente, o que deveria estimular as trocas interculturais. Mas, o que percebemos, em muitas situações, é o aumento da desconfiança com o outro. E não falo só dos Estados Unidos – vemos todo dia desrespeito ao ser humano em diferentes locais do planeta. O Brasil, apesar dos problemas, é uma nação miscigenada que congrega diversas etnias. Não sei se a melhor expressão seria considerá-lo mais amistoso ao estrangeiro, mas vá lá… O senhor concebeu Irandhir como um mártir, que deveria sofrer infortúnios para que outros latinos pudessem seguir suas vidas? Por que o brasileiro? Ele foi o único que encarou de frente os abusos da migra, como uma espécie de líder. Fica difícil não relacioná-lo à posição de destaque que o Brasil vem pleiteando no cenário internacional.

Joffily: “Não tinha pensado nisso. O Nonato, brasileiro como nós, teria de ser o antagonista do Marshall.”

Doidos: O Irandhir disse o seguinte: “o filme fala das mesmas pessoas, somos iguais, independente da cor, ou dos olhos, somos iguais. Pessoas iguais e diferentes. Muda-se a cor, mas os infortúnios são os mesmos. todos são iguais, as questões são as mesmas. Não é uma questão de país ou de cultura. É uma questão humana. Como lidar com os nossos infortúnios?” Pode parecer uma pergunta piegas, mas vou fazê-la assim mesmo: O senhor é um idealista? Acredita que seu trabalho pode ser mais um tijolo no muro que tentará barrar preconceito, intolerância e xenofobia no futuro?

Joffily: “Mudo bastante de opinião, às vezes penso o cinema de uma maneira, às vezes penso de outra. Às vezes penso só no divertimento que pode ser um filme, outras vezes penso que poderia mudar o mundo com ele. A frio, acho que não somente uma coisa ou outra.”

Doidos: Marshall, carcomido pelo câncer, deixa para trás “o Brasil dos cartões postais” e atravessa o sertão nordestino. Aquela região expõe as vísceras de um país de contrastes extremos. A jornada pode ser encarada como o purgatório do americano em busca da absolvição? Quero dizer, passou pela sua interpretação estética que ele precisaria atravessar aquela região de extrema pobreza (“inferno” na terra) para expiar suas culpas e morrer em paz (ser aceito no “céu”)? Ou o objetivo era dar um vislumbre da realidade que pode ter motivado Irandhir a partir em busca de algo melhor?

Joffily: “Acho que as duas ideias devem ter passado pela cabeça Marshall (David Rasche), digamos assim.”

Doidos: A Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016) vêm aí. Se o senhor tivesse que realizar uma exibição para os agentes da migra daqui, qual a mensagem que o senhor deixaria para eles após o filme?

Joffily: “O filme é a mensagem, ou não é.”

Doidos: Disse tudo…

Carlos Eduardo Bacellar

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Expurgo dos pecados na busca pela humanidade

Credenciado pelos seis prêmios que arrematou no Festival de Paulínia 2009 − melhor roteiro (Paulo Halm e Melanie Dimantas), melhor atriz (Cristina Lago), melhor ator codjuvante (Irandhir Santos), melhor som (José Moreau Louzeiro) e melhor montagem (Pedro Bronz) −, “Olhos azuis”, novo longa do diretor paraibano José Joffily, aquece os motores para sua estreia no circuito nacional, marcada para o próximo dia 28.

Ontem à noite, num esforço sob o binômio divulgação/medição da receptividade do público, foi realizada sessão exclusiva do filme para blogueiros, no Unibanco Arteplex. E o Doidos marcou presença.

“Olhos azuis” é um thriller que abarca elementos de suspense, drama e aventura policial. O elenco cosmopolita é formado por atores americanos, argentinos, hondurenhos e brasileiros.

O primoroso roteiro de Halm e Dimantas – que, infelizmente, ficou congelado durante nove anos, aguardando viabilidade – ganha movimento e colorido hipnóticos por meio das lentes de Joffily, e nos leva à reflexão.

Somos apresentados ao chefe da imigração do Aeroporto JFK (Nova Iorque), Marshall (David Rasche), que, em seu último dia de trabalho, resolve extrapolar sua autoridade e abusar de um grupo de latinos que deseja entrar nos EUA. Entre eles está Nonato (Irandhir Santos), um brasileiro radicado nos States que retorna ao país após visitar a filha no Brasil; Assumpta (Valeria Lorca) e Martin (Pablo Uranga), dois poetas argentinos que acreditam que seus versos terão melhor ressonância na terra do Tio Sam; Calypso (a encantadora Branca Messina), uma bailarina cubana; e um grupo de lutadores hondurenhos, liderados por Augustin (Hector Bordoni).

Ladeado por dois subordinados que almejam uma promoção que engordará seus salários − Sandra (Erica Grimpel) e Bob (Frank Grillo) −, Marshall leva os imigrantes ao limite, expondo-os a situações cada vez mais constrangedoras. Descontrolado pela bebida, que entorna como se fosse água, o chefe da imigração acaba jogando o livro de conduta profissional no lixo e humilha Nonato até o ponto em que a indignação atropela a paciência. Tal atrito gera um confronto de consequência trágicas.

O duelo entre os dois atores produz um dos mais belos momentos do cinema. A sinergia dramática lembra, não por acaso, o desempenho de Christopher Walken e Dennins Hopper em “Amor à queima-roupa”, de Tony Scott. Talvez a troca de diálogos mais antológica das últimas décadas. Nas duas situações, dois talentos entram em rota de colisão: um entorpecido pelas drogas (não preciso comentar sobre Hopper, não é verdade?), o outro acuado pela aflição fruto da humilhação degradante.  O embate expõe a chaga da paranoia americana, que não parou de infeccionar após os atentados de 11 de setembro de 2001, em contraponto com o desespero de cidadãos latinos que só querem tocar suas vidas de forma digna.

Com o espírito empalado pela culpa, o americano parte numa jornada em busca da reparação – ele está além de qualquer redenção. Como um elemento extra de suspense, o ex-buldogue da alfândega americana está com os dias contados por causa de um câncer que o consome por dentro. Marshall, em seu calvário existencial e físico, abandona o Brasil dos cartões postais e atravessa o nosso Nordeste em busca da filha de Nonato, a quem deseja indenizar. Na companhia da prostituta Bia (Cristina Lago), que acaba se tornando sua fiel escudeira, ele cruza o sertão até encontrar a bela região do rio São Francisco, e o objetivo de sua jornada. Bia e Marshall possuem caminhos distintos que, em determinado momento, se cruzam por obra do acaso. Joffily fala que os dois personagens buscam suas origens, sejam elas geográficas ou humanas:

“A Bia não é apenas um personagem funcional na história. Ela vai sendo construída no sentido de entender o que leva uma pessoa a sair de sua casa, abandonar seu passado por um futuro incerto. Ela mesma sai do sertão para o Recife. E depois volta à sua raiz. O americano, faz o caminho inverso, ele sai do seu país para reencontrar sua natureza, o que ele perdeu em sua trajetória de embrutecimento.”

É interessante destacar a interpretação de Halm, que dá contornos distintos a cada dimensão espacial: “a migra é quase uma anti-sala do inferno, e a viagem pelo Nordeste, uma redescoberta que leva ao paraíso”.

Depois da desastrosa era Bush, é inevitável pensar em Marshall como uma metáfora imperialista. Mas, o diretor nunca imaginou o personagem dessa forma:

“Nunca tratei o Marshall (David Rasche) como uma personagem metáfora. A Sandra (Erica Gimpel) e ao Bob (Frank Grillo), que apesar de suas origens negra e latina, agem de forma preconceituosa, revelam que o preconceito não é só de fora para dentro. Ele também age nas entranhas do país.”

É cômodo também imaginar uma estrutura maniqueísta ditada pelo roteiro, mas Paulo Halm não iria subestimar a inteligência do público com didatismos anacrônicos. Joffily reforça esse pensamento:

“Não existem bons nem maus na história. Todos têm razão. O Marshall, alcoólatra e revoltado com a aposentadoria obrigatória, tem razão em muitas de suas falas. Ele está doidão, mas suas considerações estão presentes em corações e mentes americanas. Idem o Nonato (Irandhir Santos). Ele também interpela os oficiais de forma abusada, mas suas falas revelam um julgamento comum a boa parte dos latinos.”

A relativização da verdade também reforça as fronteiras ambíguas que separam direitos e deveres dos protagonistas. Na verdade, o antagonismo é determinado pela força da situação, como bem delineia Halm:

“Não existe uma verdade única, todos têm razões diferentes, a verdade se torna um mosaico, vai mudando à medida que o ponto de vista é deslocado. Ela toma a forma tanto do americano quanto dos latinos. O Marshall com toda a sua arrogância quer transformar o último dia dele na imigração num espetáculo. Mas ele perde o controle e a situação acaba se voltando contra ele.”

Destaques do filme, montagem, fotografia – capturada pelas lentes de Nonato Estrela, que explorou com competência as belíssimas paisagens do nordeste brasileiro − e som maravilham os sentidos e criam as condições necessárias para que ocorra a simbiose perfeita entre interpretação e encenação. A edição é definida por Halm como um jogo de espelhos que brinca com a faceta cronológica:

“Criamos uma duplicidade de leitura: a ideia de sair do inferno em busca do paraíso. A história é contada em tempos paralelos, criando um jogo dramático interessante. O tempo da migra, mais tenso e agressivo. E o tempo da viagem de Marshall (Recife a Petrolina), num ritmo de observação e percepção.”

A habilidade na utilização do som foi fundamental para definir os espaços e criar identidades para as ambientações, coroando tanto o trabalho de José Moreau Louzeiro como o de Jaques Morelenbaum (trilha sonora), como confirma Joffily:

“Assim como no tratamento fotográfico, também no som, procuramos distinguir os dois mundos, reforçar as diferenças também na edição de som: o espaço da migra e o Nordeste. A migra não comportava música, ali, apenas os ruídos deveriam reinar. Caprichamos nesse tipo de sonoridade, dispensando a melodia. A fotografia, a edição de som, a direção de arte, tudo foi numa única direção. A música atonal do Jaques (Morelenbaum), contribuiu generosamente com a ruidagem do filme. De modo que, algumas vezes, fica difícil identificar o que é uma e outra.”

Não há como ficar impassível às violências do filme – a psicológica; a que é imposta pelas circunstâncias de pobreza e privações; e a de fato. E o mais perturbador é perceber que nem toda repressão do mundo é à prova de falhas. Paulo Halm ilustra o discurso vazio do poder:

“Ironicamente os únicos que entram nos Estados Unidos estão com droga, os argentinos que são mulas, estão participando do logística do tráfico. Essa ironia torna o discurso do controle vazio e inócuo. Apesar de todo o aparato de controle da migra, o discurso não funciona. Da mesma forma que eles deixaram passar os caras que derrubaram as Torres Gêmeas.”

“Olhos azuis” tem um quê de militância. Muitos vão encará-lo como um libelo contra a intolerância. Nas palavras de Halm, o sinal amarelo está aceso:

“Qualquer pessoa que já viajou para fora do Brasil, passou, em algum grau, por constrangimento. Parece que o viajante cometeu algum crime. Em tese somos meliantes, contrabandistas. Seja na ida, seja na volta, devemos nos submeter a algum tipo de ritual de exceção, somos mal tratados fora e dentro do país. Inevitavelmente qualquer viajante vai passar por algum tipo de desconforto. Ocorre que as metrópoles estão recebendo hordas. Isso é uma bomba relógio.”

Na cena final, Marshall caminha em direção aos braços de Iemanjá e lava nossa alma com o que de melhor surgiu na filmografia nacional este ano. A água salgada deixa um gosto amargo em nossas gargantas, mas desidrata atitudes que escondem horrores, e abre o canal para o diálogo.

Carlos Eduardo Bacellar

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Desperte o Ferris Bueller que existe dentro de você

“A vida passa muito rápido. Se, de vez em quando, você não parar para aproveitá-la, vai acabar não vivendo.”

Ferris Bueller

Talvez o minério cinematográfico mais valioso da jazida do diretor, roteirista e produtor John Hughes seja “Curtindo a vida adoidado” (“Ferris Bueller’s day off”, 1986), que imortalizou Matthew Broderick no papel do inenarrável Ferris Bueller.

“Como é que esperam que eu vá para a escola num dia como este?”

Com esse sugestivo mote bordado em seu estandarte da galhofa, Ferris, estudante secundarista de uma escola na cidade de Chicago (EUA), resolve mandar às favas as convenções e orquestra uma folga, em pleno dia útil, durante o período letivo. Traduzindo: ele resolve matar aula na cara de pau e aproveitar um dia sabático, curtindo adoidado (a tradução do título não é exata, mas também não é das piores).

Para realizar tal empreitada, engana seus atenciosos e ingênuos pais com uma doença fictícia – encenada com técnicas desenvolvidas pelo jovem travesso que não perde uma oportunidade de fugir das obrigações e se divertir.

A transgressão de nosso protagonista transparece até na forma da realização: Ferris/Broderick (o intérprete e o personagem se confundem, tal é a simbiose entre os dois), amparado pelo brilhantismo de Hughes, quebra as regras de atuação e fala com o público durante a encenação.

A ousadia do garoto é fácil de explicar. Ferris está naquela fase em que excesso de autoconfiança se confunde com onipotência. Inebriado consigo mesmo, ele não enxerga limites e dança na corda bamba da condescendência – tensionada com a dúvida razoável − sobre cacos de vidro untados com reprovação.

E nosso herói consegue driblar a vigilância dos pais! Mas, como ninguém participa de uma bagunça sozinho, Ferris arrasta para seu turbilhão de irresponsabilidade o melhor amigo, Cameron Frye (Alan Ruck), e a namorada, Sloane Peterson (Mia Sara). Dando uma cambalhota por sobre o olhar atento do implacável diretor Ed Rooney (Jeffrey Jones), que representa o lado negro da força, Ferris consegue, sob falsos pretextos, liberar sua namorada do enclausuramento escolar. Tirar o neurótico e hipocondríaco Cameron – uma versão adolescente de Woody Allen − da inércia foi mais fácil. Forte influência sobre o amigo, Bueller só teve que gastar saliva para obrigá-lo a se levantar da cama.

Assim como amar, curtir a pé é lenha. O pai de Cameron possui uma Ferrari 250 GT Califórnia ano 1961, carro que ele ama mais que a própria vida. Não satisfeito com a lata-velha pilotada pelo amigo, Ferris resolve pegar emprestado a preciosidade sobre rodas guardada como joia na garagem da casa dos Cameron.

Uma vez juntos, e turbinados, os três partem para as mais loucas aventuras na cidade, curtindo galerias de arte, restaurantes, pontos turísticos, jogos de baseball e tudo mais que proporcionar momentos de descontração e escapismo da rotina diária.

Talvez a cena mais marcante do filme seja aquela em que Ferris invade um desfile – em homenagem ao barão Von Steuben, militar polaco-alemão que participou da Revolução Americana −, toma de assalto o carro de som e solta a voz ao som de Twist and Shout, música de Bert Russell e Phil Medley, interpretada pelos Beatles.

As personalidades do trio se equilibram. Ferris é o tipo destemido que acredita que nunca vai se dar mal, e que pode se livrar de qualquer situação; Cameron figura no polo oposto, já que seu estado letárgico e depressivo – fruto da ausência de atenção e carinho dos pais − serve de contraponto à animação contagiante de Bueller; no terceiro vértice temos a realista Sloane que, ligada ao mundo real, serve de fundação para as loucuras do namorado – que adora tentar voar sem rede de segurança.

O problema é que no encalço das estripulias hedonísticas deles está o invejoso Ed Rooney – que tem medo da popularidade do aluno desregrado, entendida quase como uma religião com a capacidade de converter inúmeros (in)fiéis, turba que poderia ser motivo de tormento no futuro −, e a raivosa e frustrada irmã de Ferris, Jean Bueller (Jennifer Grey), que vive em aflição por causa da capacidade do irmão de sempre se dar bem, enquanto ela sempre se estrepa nas ocasiões em que tenta sair da linha. Jeanie é vista como chata e empata foda, rótulos pejorativos que afastam as pessoas. Depois de acumular anos de recalque, ela entra em ebulição e resolve expor os deslizes do maninho.

Será que eles conseguirão se safar? A pergunta pode ser respondida pela atriz Jennifer Grey, que interpreta Jean. Ela diz que, “às vezes, o melhor caminho para amar alguém é odiar essa pessoa. Tem vezes que o amor não parece tão ardente como o ódio”. Ferris, afinal, pode conseguir uma aliada no local mais (im)provável. E sobreviver por mais um dia.

O grande mérito da produção é explorar o escapismo trabalhando a síndrome de Peter Pan que existe em cada um de nós. Ferris está na fronteira que separa a juventude da vida adulta, e é natural que ele queira adiar escolhas e evitar responsabilidades. Logicamente Bueller é um estereótipo extremado. Apesar disso, quando assistimos ao filme, somos tomados por essa vontade arrebatadora de fuga. Ben Stein, que encarna o professor de economia (um papel pequeno, mas emblemático) destaca que “qualquer um pode ter um dia desses. O segredo está na sua própria mobilidade interna, no seu próprio amor pela liberdade”.

John Hughes soube temperar muito bem o caldo cômico (premissa) que tinha em suas mãos com os ingredientes exatos: um roteiro fabuloso e um elenco entrosado e talentoso – que soube improvisar como poucos, no embalo da atriz Edie McClurg, que vive a secretária de Rooney, Grace: “no dia a dia, ocorrem comentários breves, que são feitos de lado, e que não podem ser roteirizados”. Reza a lenda que Hughes escreveu o roteiro em 6 dias.

O engraçado é como tudo conspira para o surgimento de um sucesso − que parece obra do acaso. Broderick, no início, teve dúvidas se deveria aceitar o papel. Não queria ficar estigmatizado por um tipo único de atuação. Alan Ruck quase foi preterido por causa de sua idade – ele beirava os trinta na época da escolha do elenco; achavam que ele seria velho demais. Graças a Deus os responsáveis caíram na real!

Arte que encontrei surfando na web: Ferris Bueller (à esquerda) e Cameron Frye (à direita). Mais do mesmo no blog “Um pulha: reflexões irrelevantes”
http://umpulha.posterous.com/artenha-curtindo-a-vida-adoidado-blake-loosli


Segundo Hughes, Ruck estava sendo cogitado para o elenco original do “Clube dos Cinco” (1985), mas acabou não integrando o grupo de atores final.

Na concepção do próprio Matthew Broderick, “Ferris é mais que uma soma de pessoas. Ele é uma atitude, um jeito de viver, uma espécie de líder”. Que sua alegria viva para sempre no nosso imaginário.

Quem quiser aproveitar um dia à moda Ferris Bueller e estiver sem companhia, é só entrar em contato com a gente. Nós não negamos fogo!

Carlos Eduardo Bacellar

A melhor música da trilha sonora do filme não é Twist and Shout, mas a esquisita e penetrante Oh Yeah − que mixa música eletrônica com a manipulação de vocais −, de Boris Blank e Dieter Meier, da banda suíça Yello. Dá o tom dos momentos mais engraçados da produção. Curtam!

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