Duas gerações barbarizando nas utopias

“Se o indivíduo é finito, o sentido está no outro.”

Ferreira Gullar

Utopia (u.to.pi.a) sf. Ideal que é impossível realizar; QUIMERA.

Instigado pelos comentários carregados de paixão da senhora Risomar Fasanaro, nossa leitora, resolvi escrever algumas linhas sobre o filme do Silvio Tendler, que tem provocado tantas discussões acaloradas. Como minha colega de blog, Heleninha “Guevara” Sroulevich, já contemplou, com muita categoria, o filme em um de seus posts, resolvi fazer algo diferente.

Levei meu pai ao cinema com o objetivo de, após o filme, trocar figurinhas com ele acerca da realização do Tendler. Contrapor duas experiências completamente diversas, e extrair o sumo desse bate-papo entre pai e filho de gerações distintas.

Seu Tebireçá Bacellar, vulgo Bira, nasceu em 1935, portanto, antes da Segunda Guerra Mundial. Economista por formação e observador atento, acompanhou todas as mudanças econômicas, políticas e sociais que movimentaram o mundo da segunda metade do século XX para cá.

O filho vocês já conhecem. Publicitário, jornalista e crítico de cinema diletante. Trinta e um anos de Ipanema nas costas – nascido nos estertores dos anos de chumbo. Órfão da década perdida de 1980. A década do enterro de muitas ideologias, que estigmatizou uma leva de alienados. Alienação que desembocou na geração retratada por Laís Bodanzky em “As melhores coisas do mundo”, mais preocupada com a festinha do fim de semana do que com os rumos políticos do país – repleta de sensações e vazia de decisões.

A troca de ideias acabou sendo transformada em dois textos que, espero, irão servir como elementos de reflexão. Na pior das hipóteses, se perderão no limbo dinâmico da rede e, quem sabe?, daqui a alguns anos serão desenterrados por um Indiana Jones do mundo digital.

Como sou mais afoito, soltei a verve primeiro. Embarquem comigo. O registro é longo, mas, se é para expiar a alma, vale a pena! No popular: deixem de preguiça, pô!

No livro Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991), o historiador Eric Hobsbawm, logo nas primeiras linhas de seu texto, na parte reservada para o prefácio e agradecimentos, diz o seguinte:

“Não é possível escrever a história do século XX como a de qualquer outra época, quando mais não fosse porque ninguém pode escrever sobre seu próprio tempo de vida como pode (e deve) fazer em relação a uma época conhecida apenas de fora, em segunda ou terceira mão, por intermédio de fontes da época ou obras de historiadores posteriores.”

Taí a resposta ao enigma do narrador de “Utopia…”. Silvio utiliza as vozes de Amir Haddad, Chico Diaz e Letícia Spiller como forma de se distanciar (propositadamente) dos ecos de sua memória. Deseja o afastamento porque hoje é outra pessoa. Assim como todos nós – e o seu filme – ele é um projeto inacabado. O que era verdade e falava forte ao coração ontem, já não tem o mesmo efeito hoje. Acredito que seria muito estranho para ele ouvir uma das “vozes” que já teve − impregnada pela ideologia de um jovem Silvio que queria mudar o mundo com uma câmera na mão.

O crítico Ely Azeredo, no livro “Olhar crítico – 50 anos de cinema brasileiro” (sim, vou falar muito sobre este livro), em sua análise de “Jango” (1984), do próprio Tendler, diz que, “apesar do peso da ideologia presente no relato histórico, a produção não é exemplar do que o crítico André Bazin estudou como documentário ideológico de montagem – caracteriza-se este tipo de documentário pelo livre-arbítrio na junção das imagens filmadas com outros fins, e pelos novos significados assim obtidos e induzidos pelo texto da locução”.

Em “Utopia…”, ao contrário, existe o arbítrio embebido das experiências do próprio cineasta, que, catalizado pela emoção, costura a história do pós-Segunda Guerra até a era Barack Obama – tecido cinematográfico estampado com as verdades do diretor.

Aproveitando uma miscelânea de depoimentos de indivíduos que viveram tudo aquilo e deram sua contribuição/desserviço à História de alguma forma (jornalistas, militares, poetas, filósofos, escritores, cineastas…) – criando o tal do doc mosaico –, o documentarista dá voz a inquietações, esperanças, ideias, desejos, ideologias e desilusões que preencheram o cerne de sujeitos engajados em modificar realidades, dentro de um determinado período do tempo.

Com seu “Utopia e Barbárie”, Silvio Tendler não quer nos impor o seu sonho, o que seria um absurdo. O que ele deseja é alimentar nossa vontade de sonhar. Quando miramos no impossível, mesmo que a gente não acerte o alvo, provocaremos questionamentos de paradigmas e ideologias. E transformações.

Assim como a História Natural, a nossa História funciona em ciclos.  É preciso que haja, em muitas ocasiões, destruição para que ocorra renovação. O segredo é ficar atento para aprender com esses momentos de cisão.

Novamente parafraseando Ely Azeredo, o filme de Tendler não deseja “furar o bloqueio da história oficial e da desinformação política”. Até porque seria uma tarefa temerária cobrir tantos acontecimentos marcantes em 2h. O que ele procura fazer é expor a todos nós feixes de nervos ligados à lembrança, muitas vezes turvada pela bagagem zeitgeistiana do próprio, e proporcionar um vislumbre do sangue que corre por baixo. Expondo o que existe de mais visceral em seu ser, e olhando fixo para nós, ele diz: acredite que nós podemos ser melhores.

Uma dica. Os interessados podem baixar (de graça!!!), no site do filme (http://www.utopiaebarbarie.com.br), a Revista “Utopia e Barbárie”, publicação acerca da empreitada de Tendler que traz textos interessantes de gente da estirpe de Moacyr Scliar, Salim Miguel, Arnaldo Bloch dentre outros. Ela é editada pelo jornalista Rodrigo Fonseca.

Carlos Eduardo Bacellar (o filho)

Agora é contigo, pai. Fique à vontade… E ele divagou sem lenço e sem documento.

Quando comecei a observar na fase de minha adolescência o comportamento das pessoas, o sofrimento de uma parte da população na cidade onde morava, e as regalias de alguns grupos sociais bafejados pela sorte, não consegui compreender o por que dessa desigualdade. O sofrimento de muitos não sensibilizava aquelas minorias abastadas.

Aos poucos, a compreensão desses fatos começou a ocupar meus pensamentos. O mundo onde estava vivendo era, em sua essência, muito contraditório. Todos tinham o direito de ter esperanças num futuro melhor, com menos desigualdade e com mais sentido de justiça social.

Com o passar dos anos, foi para mim tornando-se mais evidente que todos os homens em todas as cidades do mundo são parte de um contexto genético e histórico. A parte genética é uma herança inexorável. A parte histórica foi construída por gerações que nos precederam e nos legaram o acervo cultural de que desfrutamos.

As escolas filosóficas passaram a exercer influência preponderante em nossas vidas. Estas escolas, ou correntes de pensamento, são fruto da época em que viveram os grandes gênios. Suas ideias sempre tiveram ampla ressonância no âmbito das classes sociais, pois eram criadas para amparar e solucionar conflitos que se ampliavam na medida em que aumentavam as populações – cujos postulados partiam das lideranças nas diversas épocas da história da humanidade.

Estas escolas filosóficas tendiam a equilibrar as desigualdades sociais, acompanhando a evolução cultural e ajustando-se às formas de vida da sociedade. Dessa maneira, evitavam que situações mais catastróficas pudessem acontecer.

Todavia, a incapacidade de conduzir as massas de população, e de solucionar seus problemas, provocava a revolta popular. Os governantes se viam obrigados a impor suas ideias, adotando métodos drásticos como, por exemplo, o uso da força militar. Depois, partiram para formas mais drásticas de repressão, tais como métodos de tortura, assassinatos e mesmo o desaparecimento de pessoas.

Ocorreram genocídios em larga escala, verdadeiros holocaustos. A barbárie passou a predominar. Foi assim bem caracterizada desde o Império Romano, a Revolução Francesa (1789), a Revolução Comunista (1917), a Revolução Cultural da China (1966), chegando aos nossos dias com os atentados terroristas no qual se destacou a destruição das torres gêmeas em Nova Iorque, no dia 11 de setembro de 2001.

A partir do término da Segunda Guerra Mundial (1945), os EUA, aproveitando-se da vitória no conflito, e amparado em sua hegemonia militar, estabeleceram regras que os demais países foram obrigados a aceitar e a se submeter. O fortalecimento do dólar foi uma consequência.

Sutilmente, apregoaram ser a democracia a única forma de governos aceita, a mais recomendada. A mídia encarregava-se de incentivar nas lideranças de todo mundo as ideias de John Maynard Keynes. Por meio dos dirigentes políticos atuantes nos países de índole capitalista, apoiavam as classes econômicas formadas fundamentalmente pela aristocracia rural e pela burguesia industrial, as quais elegiam para o poder seus representantes – que por sua vez ditavam leis em benefício das classes abastadas.

Esse processo político resultou em reações populares. Ocorreu então a revolta das classes operárias, cada vez mais espoliadas. Para controlar a situação, as classes dominantes aliaram-se aos militares. Assim, nesse contexto, foi possível aos EUA apoiar o sistema capitalista, alimentando ditaduras em vários países. Na América do Sul, no final da década de 1960, durante a década de 1970 e início da década de 1980, os militares ocuparam o poder no Brasil. Uruguai, Argentina e Chile também sofreram com a ditadura militar.

Os golpes, com o pretexto de “proteger” as nações Sul-Americanas da ocupação pelo comunismo, tiveram como principal objetivo o endividamento desses países, mediante o empréstimo de dinheiro em larga escala – acompanhado do aumento progressivo da taxa de juros. O segundo objetivo era açambarcar as matérias primas desses países visando abastecer e alimentar o parque industrial dos EUA.

Certamente surgiram reações no âmbito das classes operárias e dos estudantes, e daí o confronto ideológico e político. As lideranças desses grupos, as verdadeiras lideranças populares, tomaram posição e, em consequência, houve enfrentamentos. Inúmeros líderes e seus seguidores foram presos, torturados, desaparecidos e mortos. Todos desejavam libertar-se da opressão e conquistar seus direitos políticos, dos quais foram cerceados durante 25 anos.

Tebireçá Bacellar, vulgo Bira (o pai)

A História da Humanidade tem um pouco da “História sem fim”, de Michael Ende. Realidade e fantasia se entrelaçam, movendo todos nós em direção a algo − não necessariamente algo melhor, mas algo diferente. Assim como no livro de Ende, procurei utilizar a cor para diferenciar duas realidades complementares: desilusão x esperança; experiência x ímpeto da juventude; tristeza x alegria; informação x alienação. Crie você o sua dualidade, o seu Ying e Yang. Ninguém está certo; também ninguém está errado.

Encabeça o meu texto uma frase do iluminado poeta Ferreira Gullar que deveria definir o sentido de nossa existência – a verdadeira utopia. Como ilustrar essa afirmação? Fala aí, Joel 🙂

(*)

(*) Como ele ainda é muito novinho, dei uma forcinha na escolha de uma imagem da Internet.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Risomar, só um puxãozinho de orelha na senhora. Pega leve com o Carlos Alberto Mattos. A grandiosidade dele no âmbito do Cinema Nacional (não vou restringi-lo à crítica) é inversamente proporcional à compleição franzina e à desvantagem vertical que ele ostenta. Mas, graças a Deus, ele tem amigos como eu para defendê-lo. Nós formamos uma dupla no estilo que Arnold Schwarzenegger e Danny DeVito interpretam no filme “Twins” (1988), do diretor Ivan Reitman.

O xará é um cara generoso e paciente. Enquanto nós ainda estamos no jardim da infância da análise estética cinematográfica, tentando montar naves à moda Star Wars com Lego, ele já é PhD. E sempre teve a grandeza de ouvir e responder, com todo carinho (bom… nem sempre com tanto carinho e polidez…), este curioso que escreve do lado de cá – até nos questionamentos mais elementares. E não se esqueça nunca de que arte é dissensão. No dia em que todo mundo assistir a um filme e achar a mesma coisa, o cinema, o verdadeiro cinema, deixará de ser expressão artística e se transformará em commodity. Espero que possamos continuar trocando. Um abraço afetuoso para a senhora.

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2 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

2 Respostas para “Duas gerações barbarizando nas utopias

  1. Carlinhos, nem cá, nem lá. Heleninha (carinhosamente chamada assim por você) é a interseção do conjunto A e do conjunto B – aqui bem dimensionados por você. Legal receber as duas observações, as duas dialéticas. Agora, o velho Sr. Bira, meu amigo, me ganhou ainda mais. Saquei porque está se amarrando tanto no livro da mamãe. 🙂 É a formação. De economista. A gente aprende a olhar o mundo de uma maneira diferente. Não tem jeito. 🙂

  2. carmattos

    Obrigado, xará, pela oferta de defesa. Sabendo agora que tenho sua força ao meu lado, vou barbarizar de vez.

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