Desperte o Ferris Bueller que existe dentro de você

“A vida passa muito rápido. Se, de vez em quando, você não parar para aproveitá-la, vai acabar não vivendo.”

Ferris Bueller

Talvez o minério cinematográfico mais valioso da jazida do diretor, roteirista e produtor John Hughes seja “Curtindo a vida adoidado” (“Ferris Bueller’s day off”, 1986), que imortalizou Matthew Broderick no papel do inenarrável Ferris Bueller.

“Como é que esperam que eu vá para a escola num dia como este?”

Com esse sugestivo mote bordado em seu estandarte da galhofa, Ferris, estudante secundarista de uma escola na cidade de Chicago (EUA), resolve mandar às favas as convenções e orquestra uma folga, em pleno dia útil, durante o período letivo. Traduzindo: ele resolve matar aula na cara de pau e aproveitar um dia sabático, curtindo adoidado (a tradução do título não é exata, mas também não é das piores).

Para realizar tal empreitada, engana seus atenciosos e ingênuos pais com uma doença fictícia – encenada com técnicas desenvolvidas pelo jovem travesso que não perde uma oportunidade de fugir das obrigações e se divertir.

A transgressão de nosso protagonista transparece até na forma da realização: Ferris/Broderick (o intérprete e o personagem se confundem, tal é a simbiose entre os dois), amparado pelo brilhantismo de Hughes, quebra as regras de atuação e fala com o público durante a encenação.

A ousadia do garoto é fácil de explicar. Ferris está naquela fase em que excesso de autoconfiança se confunde com onipotência. Inebriado consigo mesmo, ele não enxerga limites e dança na corda bamba da condescendência – tensionada com a dúvida razoável − sobre cacos de vidro untados com reprovação.

E nosso herói consegue driblar a vigilância dos pais! Mas, como ninguém participa de uma bagunça sozinho, Ferris arrasta para seu turbilhão de irresponsabilidade o melhor amigo, Cameron Frye (Alan Ruck), e a namorada, Sloane Peterson (Mia Sara). Dando uma cambalhota por sobre o olhar atento do implacável diretor Ed Rooney (Jeffrey Jones), que representa o lado negro da força, Ferris consegue, sob falsos pretextos, liberar sua namorada do enclausuramento escolar. Tirar o neurótico e hipocondríaco Cameron – uma versão adolescente de Woody Allen − da inércia foi mais fácil. Forte influência sobre o amigo, Bueller só teve que gastar saliva para obrigá-lo a se levantar da cama.

Assim como amar, curtir a pé é lenha. O pai de Cameron possui uma Ferrari 250 GT Califórnia ano 1961, carro que ele ama mais que a própria vida. Não satisfeito com a lata-velha pilotada pelo amigo, Ferris resolve pegar emprestado a preciosidade sobre rodas guardada como joia na garagem da casa dos Cameron.

Uma vez juntos, e turbinados, os três partem para as mais loucas aventuras na cidade, curtindo galerias de arte, restaurantes, pontos turísticos, jogos de baseball e tudo mais que proporcionar momentos de descontração e escapismo da rotina diária.

Talvez a cena mais marcante do filme seja aquela em que Ferris invade um desfile – em homenagem ao barão Von Steuben, militar polaco-alemão que participou da Revolução Americana −, toma de assalto o carro de som e solta a voz ao som de Twist and Shout, música de Bert Russell e Phil Medley, interpretada pelos Beatles.

As personalidades do trio se equilibram. Ferris é o tipo destemido que acredita que nunca vai se dar mal, e que pode se livrar de qualquer situação; Cameron figura no polo oposto, já que seu estado letárgico e depressivo – fruto da ausência de atenção e carinho dos pais − serve de contraponto à animação contagiante de Bueller; no terceiro vértice temos a realista Sloane que, ligada ao mundo real, serve de fundação para as loucuras do namorado – que adora tentar voar sem rede de segurança.

O problema é que no encalço das estripulias hedonísticas deles está o invejoso Ed Rooney – que tem medo da popularidade do aluno desregrado, entendida quase como uma religião com a capacidade de converter inúmeros (in)fiéis, turba que poderia ser motivo de tormento no futuro −, e a raivosa e frustrada irmã de Ferris, Jean Bueller (Jennifer Grey), que vive em aflição por causa da capacidade do irmão de sempre se dar bem, enquanto ela sempre se estrepa nas ocasiões em que tenta sair da linha. Jeanie é vista como chata e empata foda, rótulos pejorativos que afastam as pessoas. Depois de acumular anos de recalque, ela entra em ebulição e resolve expor os deslizes do maninho.

Será que eles conseguirão se safar? A pergunta pode ser respondida pela atriz Jennifer Grey, que interpreta Jean. Ela diz que, “às vezes, o melhor caminho para amar alguém é odiar essa pessoa. Tem vezes que o amor não parece tão ardente como o ódio”. Ferris, afinal, pode conseguir uma aliada no local mais (im)provável. E sobreviver por mais um dia.

O grande mérito da produção é explorar o escapismo trabalhando a síndrome de Peter Pan que existe em cada um de nós. Ferris está na fronteira que separa a juventude da vida adulta, e é natural que ele queira adiar escolhas e evitar responsabilidades. Logicamente Bueller é um estereótipo extremado. Apesar disso, quando assistimos ao filme, somos tomados por essa vontade arrebatadora de fuga. Ben Stein, que encarna o professor de economia (um papel pequeno, mas emblemático) destaca que “qualquer um pode ter um dia desses. O segredo está na sua própria mobilidade interna, no seu próprio amor pela liberdade”.

John Hughes soube temperar muito bem o caldo cômico (premissa) que tinha em suas mãos com os ingredientes exatos: um roteiro fabuloso e um elenco entrosado e talentoso – que soube improvisar como poucos, no embalo da atriz Edie McClurg, que vive a secretária de Rooney, Grace: “no dia a dia, ocorrem comentários breves, que são feitos de lado, e que não podem ser roteirizados”. Reza a lenda que Hughes escreveu o roteiro em 6 dias.

O engraçado é como tudo conspira para o surgimento de um sucesso − que parece obra do acaso. Broderick, no início, teve dúvidas se deveria aceitar o papel. Não queria ficar estigmatizado por um tipo único de atuação. Alan Ruck quase foi preterido por causa de sua idade – ele beirava os trinta na época da escolha do elenco; achavam que ele seria velho demais. Graças a Deus os responsáveis caíram na real!

Arte que encontrei surfando na web: Ferris Bueller (à esquerda) e Cameron Frye (à direita). Mais do mesmo no blog “Um pulha: reflexões irrelevantes”
http://umpulha.posterous.com/artenha-curtindo-a-vida-adoidado-blake-loosli


Segundo Hughes, Ruck estava sendo cogitado para o elenco original do “Clube dos Cinco” (1985), mas acabou não integrando o grupo de atores final.

Na concepção do próprio Matthew Broderick, “Ferris é mais que uma soma de pessoas. Ele é uma atitude, um jeito de viver, uma espécie de líder”. Que sua alegria viva para sempre no nosso imaginário.

Quem quiser aproveitar um dia à moda Ferris Bueller e estiver sem companhia, é só entrar em contato com a gente. Nós não negamos fogo!

Carlos Eduardo Bacellar

A melhor música da trilha sonora do filme não é Twist and Shout, mas a esquisita e penetrante Oh Yeah − que mixa música eletrônica com a manipulação de vocais −, de Boris Blank e Dieter Meier, da banda suíça Yello. Dá o tom dos momentos mais engraçados da produção. Curtam!

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3 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

3 Respostas para “Desperte o Ferris Bueller que existe dentro de você

  1. Adorei ler o texto sobre o filme. Dessa época, é um dos preferidos.
    Vez ou outra, dou uma escapada do tipo, mas – felizmente ou não – não preciso inventar desculpas…

  2. Pingback: Clube dos três | Doidos por Cinema

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