Entrevista com o cineasta José Joffily

Envolvido na maratona de divulgação de sua mais nova realização, “Olhos azuis” (2009), filme que iniciou sua carreira fazendo a limpa no Festival de Paulínia 2009 (a produção arrematou 6 prêmios, incluindo o de melhor filme), o diretor, produtor e roteirista paraibano José Joffily abriu uma brecha em sua agenda e concedeu uma rápida entrevista para o blog.

Com estreia marcada para o próximo dia 28, o novo longa-metragem do realizador de “Dois perdidos numa noite suja” (2002) volta ao tema dos imigrantes, mas desta vez coloca um grupo de latinos como réus num tribunal de exceção presidido pelo intransigente e perturbado Marshall (David Rasche), chefe do Departamento de Imigração do Aeroporto JFK (Nova Iorque). Roteirizado por Paulo Halm e Melanie Dimantas, “Olhos azuis” não se restringe à xenofobia – nossas retinas são expostas a uma alma atormentada em busca de reparação e da humanidade perdida (mais informações acerca da produção podem ser conferidas no post abaixo).

Por e-mail, o simpático e paciente Joffily (o repórter tinha combinado 5 perguntas, mas, empolgado, tascou logo 8, com subitens) trocou algumas palavras conosco. Ele foi lacônico, mas esclarecedor.

Doidos: Apesar de o senhor ter dito que não tratou Marshall como uma metáfora, fica difícil não imaginá-lo como símbolo da decadência da política americana, principalmente durante a desgastada era Bush. Ao longo do filme, o ex-chefe da imigração do JFK definha, assim como ocorreu com a imagem dos EUA perante o cenário mundial na última gestão da Casa Branca (Barack Obama agora luta para reverter esse passivo de imagem). O que o senhor pensa a respeito disso?

Joffily: “Não sou analista de política internacional, mas com a crise econômica surgiram os sinais de uma crise na liderança dos EUA.”

Doidos: Em algum momento o senhor sentiu desconforto na equipe e nos atores americanos? Afinal, o filme coloca em xeque, por causa das atitudes reprováveis de Marshall, a idoneidade do departamento de imigração do aeroporto JFK (mesmo se considerarmos um caso isolado, centrado na conduta de uma figura pontual). O filme já passou por festivais em Paulínia e Paris, e entra em circuito nacional no dia 28 de maio. “Olhos…” já tem distribuição programada para os EUA?

Joffily: “Acho que o desconforto era mais meu. Durantes os testes para a escolha dos personagens estadunidenses, mais de 20 atores receberam e interpretaram a cena que escolhi. Isso foi lá em Nova Iorque, e eu me lembro de um certo constrangimento, pois era a primeira vez que escutava aqueles diálogos ditos em voz alta. Interpretadas, as falas pareciam mais duras. Estamos em negociação com um distribuidor americano.”

Doidos: O filme é o seu segundo projeto que aborda a questão dos imigrantes. Tanto “Olhos…” como “Dois perdidos numa noite suja” (2002) exalam o desencanto com um suposto “paraíso”, que na verdade não existe. O senhor é um paraibano que ganhou o mundo com seus filmes. Esses dois projetos, de alguma maneira, serviram como instrumentos para sublimar idealizações do diretor (pessoa física) que não encontraram respaldo na realidade?

Joffily: “É difícil para o autor saber desses sentimentos. Com o filme no mundo, o filme deixa de ser do autor e ganha interpretações reveladoras para ele mesmo.”

Doidos: Antes de as circulações transnacionais de pessoas se tornarem mais frequentes, consequências diretas do processo de globalização, as emigrações ocorriam, em maior número, dentro das próprias fronteiras nacionais. No caso do Brasil, muitos nordestinos, motivados por cenários adversos, partiram (e partem) em direção ao Sudeste em busca de melhores oportunidades. Acreditam que o eixo Rio-São Paulo é o Eldorado abaixo da linha do Equador. Só que as expectativas, muitas vezes, são atropeladas por pesadelos. Podemos traçar um paralelo com a esperança alimentada por latinos, sublinhada no seu filme, que partem em direção aos EUA em busca de realização?

Joffily: “O brasileiro que migra para dentro do seu país sofre discriminação, mas acho que é diferente daquela que sente o sujeito no exterior. A começar pela língua, que aqui é igual e já é um fator que aproxima muito. Por outro lado, o imigrante sofre um desafio muito grande e, enfrentá-lo quando se é jovem, pode ser estimulante.”

Doidos: Nós temos um paradoxo: quanto maior é a circulação de pessoas, maior é a mistura e o contato com o diferente, o que deveria estimular as trocas interculturais. Mas, o que percebemos, em muitas situações, é o aumento da desconfiança com o outro. E não falo só dos Estados Unidos – vemos todo dia desrespeito ao ser humano em diferentes locais do planeta. O Brasil, apesar dos problemas, é uma nação miscigenada que congrega diversas etnias. Não sei se a melhor expressão seria considerá-lo mais amistoso ao estrangeiro, mas vá lá… O senhor concebeu Irandhir como um mártir, que deveria sofrer infortúnios para que outros latinos pudessem seguir suas vidas? Por que o brasileiro? Ele foi o único que encarou de frente os abusos da migra, como uma espécie de líder. Fica difícil não relacioná-lo à posição de destaque que o Brasil vem pleiteando no cenário internacional.

Joffily: “Não tinha pensado nisso. O Nonato, brasileiro como nós, teria de ser o antagonista do Marshall.”

Doidos: O Irandhir disse o seguinte: “o filme fala das mesmas pessoas, somos iguais, independente da cor, ou dos olhos, somos iguais. Pessoas iguais e diferentes. Muda-se a cor, mas os infortúnios são os mesmos. todos são iguais, as questões são as mesmas. Não é uma questão de país ou de cultura. É uma questão humana. Como lidar com os nossos infortúnios?” Pode parecer uma pergunta piegas, mas vou fazê-la assim mesmo: O senhor é um idealista? Acredita que seu trabalho pode ser mais um tijolo no muro que tentará barrar preconceito, intolerância e xenofobia no futuro?

Joffily: “Mudo bastante de opinião, às vezes penso o cinema de uma maneira, às vezes penso de outra. Às vezes penso só no divertimento que pode ser um filme, outras vezes penso que poderia mudar o mundo com ele. A frio, acho que não somente uma coisa ou outra.”

Doidos: Marshall, carcomido pelo câncer, deixa para trás “o Brasil dos cartões postais” e atravessa o sertão nordestino. Aquela região expõe as vísceras de um país de contrastes extremos. A jornada pode ser encarada como o purgatório do americano em busca da absolvição? Quero dizer, passou pela sua interpretação estética que ele precisaria atravessar aquela região de extrema pobreza (“inferno” na terra) para expiar suas culpas e morrer em paz (ser aceito no “céu”)? Ou o objetivo era dar um vislumbre da realidade que pode ter motivado Irandhir a partir em busca de algo melhor?

Joffily: “Acho que as duas ideias devem ter passado pela cabeça Marshall (David Rasche), digamos assim.”

Doidos: A Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016) vêm aí. Se o senhor tivesse que realizar uma exibição para os agentes da migra daqui, qual a mensagem que o senhor deixaria para eles após o filme?

Joffily: “O filme é a mensagem, ou não é.”

Doidos: Disse tudo…

Carlos Eduardo Bacellar

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