MARXTRIX

Pega ônibus, carro, metrô, cavalo, trabalha, trabalha, trabalha, volta pra casa, enche a pança, vê novela, deita, transa, sexta bebe, cai, domingo vê Sílvio Santos, acorda, pedala, caminha, corre, corre, trabalha, trabalha, morre. Se você alguma vez sentiu todo o peso do vazio da vidinha consumista contemporânea e só não se desesperou por um apego fisiológico à vida, você não está louco, THE MATRIX HAS YOU!

Sempre digo que as grandes obras são maiores que elas mesmas, que encerram significados que, de tão poderosos, nem seus autores os conhecem por completo. Honestamente duvido que os Wachowski* tinham em mente qualquer coisa próxima das estruturas de dominação de classe propostas por Karl Marx, mas como defensor incorrigível do ser humano espiritual contra o material, não consigo deixar de ver em “Matrix”** (1999) a perfeita alegoria contemporânea sobre a opressão capitalista.

Outrora baseada na religião, a dominação de uma(s) classe(s) sobre outra(s) tornou-se digital, exata, maquínica. E foi a máquina que os humanos criaram, liberta do controle, então com o único propósito de crescer e prevalecer. Sem escrúpulos. Os mecanismos do capital, que em teoria geram riqueza, na real escravizam as pessoas. Terminator.

Além disso, os robôs da trilogia do virtual desenvolveram métodos de controle subjetivo, gerando a ilusão de que os seres humanos podem ser livres. É a dominação de cima a baixo, infra e superestruturas. “O mundo que foi posto diante de seus olhos”, diz Morfeu. A agenda midiática corporativa quer te fazer crer que o mundo está em progresso, que tudo que deve está sendo cuidado, que o trabalho deles é para o bem de todos, passo que na verdade a parada é all the way down, e pior, em grande parte por culpa deles! Coma seu hambúrguer e cale a boca. Tanto na Matrix como aqui, na real carne e metal, não só corpos aprisionados, mas espíritos também. Crescente complexidade em níveis, fractais como elos dos grilhões.

E lembre-se, nós somos o combustível deles, eles comem nossa carne, e nosso próximo pode virar o inimigo. Porque não há neutralidade. Se você não está com a resistência, estimula o sistema, mesmo inconsciente. É uma de suas peças, e pode tornar-se um agente num piscar de led. Nosso trabalho alienado faz o óleo da engrenagem deles, quando não a própria mortalha dos inocentes, e ainda temos a capacidade de voltar sorrindo pra casa. Dever cumprido.

Mas eis o herói! Ele é capaz, ele liberta! Mas costuma morrer e virar símbolo. E das pradarias do Elísio fica torcendo para que sua imagem inspire as massas, essas sim, únicas capazes da verdadeira revolução e liberdade.

Cristiano Kusbick Poll

*Andy e LANA (???) Wachowski. Isso mesmo! Se ficou curioso, escute o ArtsiderCast #1 e mais será revelado.

** Primeiro filme da trilogia idealizada pelos irmãos Wachowski. As outras duas produções que completam a obra-prima da dupla são Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, ambas de 2003.


Anúncios

1 comentário

Arquivado em Cristiano Kusbick Poll, Estranhos no ninho

Uma resposta para “MARXTRIX

  1. Cristiano, bem-vindo! Eu adoro textos com viés político. Citou até o Marx, que releio deste ontem. Pergunto: há obra mais contemporânea que esta? 🙂 Ainda esta semana escreverei sobre um filme que tive o privilégio de assistir esses dias. E é bem político! Obrigada pelo texto bacana! Beijos, Helena.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s