Sincretismo e poesia da obra de Jorge Amado servem de guia para criação de ode à amizade lastreada no realismo mágico

“Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há.”

Quincas Berro Dágua

Quincas Berro Dágua é o alter ego do funcionário público Joaquim que, após desatar o nó de gravata das convenções que o sufocavam, dá um basta na mediocridade e chatice de sua vida careta. Com anos de farra incubada, o agora (e definitivamente) Quincas resolve abraçar a esbórnia e curtir uma vida de excessos regada a álcool. Rasga o traje esporte fino e por baixo aparece a farda da malandragem. Abandona mulher e filha para viver entre o lúmpen-proletariado de uma Bahia imersa numa atmosfera onírica; e que transpira possibilidades para quem deseja se perder de si mesmo. E assim você é apresentado ao nosso anti-herói, cuja história começa com uma morte e deveria terminar com outra morte, mas não foi bem assim…

Carregado pelo sincretismo e verve poética de Jorge Amado (1912-2001), o diretor (e conterrâneo de Amado) Sérgio Machado pede licença aos seus Orixás e faz uma oferenda para todos que curtem o bom cinema. Baseado no livro “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua” – cuja primeira edição data de 1961 −, do romancista baiano pai dos capitães da areia, chega às telas “Quincas Berro Dágua”, que traz no papel do morto-protagonista um Paulo José impagável!

A quizumba começa com o falecimento de Quincas, que bate as botas agarrado a uma garrafa de pinga num cortiço imundo de algum canto esquecido da Bahia. Pois é, toda putaria desenfreada uma hora cobra o seu preço.

No velório, a turba maltrapilha devota do boêmio mais famoso do Pelourinho é confrontada pela família do ex-funcionário público, que esconde da sociedade a verdadeira ocupação (ou melhor, falta dela) do falecido. Mariana Ximenes interpreta a filha de Quincas, e representa toda a castração da liberdade do indivíduo, abafada por quilos de exigências formais de uma classe média hipócrita que fantasia suas raízes.

O contraste (que define a discrepância social) é marcado pelos malandros profissionais (romantizados pelo diretor) representados por Frank Menezes, Luís Miranda, Flávio Bauraqui e Irandhir Santos (o cara do momento). Inconformados com a morte do companheiro, os quatro encasquetam que Quincas não partiu dessa para melhor, e resolvem levá-lo para uma última noitada. Os fiéis amigos paramentam Quincas com a indumentária da perdição e, numa versão brasileira de “Um morto muito louco” (Ted Kotcheff, 1989), partem com o corpo pelas ladeiras do Pelourinho em busca de diversão. Todos os esquetes são devidamente acompanhados por Quincas do limbo em que se encontra: narrador de suas próprias desventuras pós-morte.

Congraçando realidade e delírio, Sérgio Machado tangencia o fantástico para falar da amizade sincera, que se recusa a arrefecer mesmo depois do último suspiro. Quincas Berro Dágua é mais do que um maestro da orgia e da alegria, ele é um estilo, um modo vida. Ele é um Ferris Bueller que cresceu, mas se arrependeu, e resolveu voltar a curtir a vida adoidado, inspirando quem orbitava ao seu redor. Morre com ele um pouco daquele espírito da picardia que habita todos nós, mas que muitas vezes fica em estado latente, enterrado em corações de terno e gravata. Seus trapalhões soteropolitanos não querem se desapegar dessa centelha hedonística que torna mais leve vidas tão difíceis.

Destaque no filme para a voluptuosa cafetina Manuela (Marieta Severo), nos braços de quem Quincas consegue conjugar carinho e tesão: a puta com o coração de ouro que todo homem (heterossexual) sonha encontrar.

Ouvi de algumas pessoas que é difícil engolir a metamorfose repentina da filha de Quincas. Eu digo o seguinte: não é assim na vida real? O ser humano é bizarramente contraditório. Em tempos de padres que catequizam menores de idades nos meandros da saliência, nada menos surpreendente. Quem nunca conheceu alguém que foi reprimido e/ou violentado – física ou moralmente − durante grande parte de sua vida e, quando atingiu seu limite, despirocou? Mariana Ximenes, cansada da rotina monocromática e linear de sua vidinha de dondoca de classe média, abraça sua herança e se entrega aos prazeres da carne – como que chancelando as atitudes de seu pai e redimindo-se das privações ao gemer de prazer num quarto sujo de motel.

Não dá para deixar de exaltar o trabalho do diretor de fotografia Toca Seabra que, por meio de suas lentes, cria uma atmosfera deprimente, imunda, enigmática, decadente – tudo e nada ao mesmo tempo −, mas cheia de energia e expectativas. Seu trabalho dá vida a uma Bahia mágica, cantada nos versos de Dorival Caymmi.

Carlos Eduardo Bacellar

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2 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

2 Respostas para “Sincretismo e poesia da obra de Jorge Amado servem de guia para criação de ode à amizade lastreada no realismo mágico

  1. Silvania Negreiros Guimarães

    Quincas velho Quincas!
    Seus amigos são verdadeiros amigos de verdade que hoje não encontramos mais. São amigos nas alegrias e tristezas na vida e na morte.
    Amigo é
    Aquela pessoa que o tempo não apaga;
    que a distância não esquece;
    que a maldade não destroí.
    Obrigada.
    Jorge Amado
    Silvania Negreiros Guimarães

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