Luta contra inadequação relativiza moral

Já vai longe o tempo em que as distinções de sangue eram motivo para os conflitos da carne. Ou não? A premissa que polariza Montéquios e Capuletos no século XXI chama-se sobrenatural. Paradoxalmente, é também a argamassa que entrelaça almas separadas pelas circunstâncias.

O diretor sul-coreano Park Chan-wook resolve explorar o seu quinhão crepuscular realizando o “Deixa ela entrar” de olhos puxados (no que diz respeito à forma de subverter as linhas de Bram Stoker). Em “Sede de sangue” (2009), ele constrói uma narrativa acerca das consequências que a escolha religiosa pode provocar quando mascara e sufoca os desejos do corpo.

O abnegado padre Sang-hyeon (Song Kang-ho, “O Hospedeiro”) resolve, numa atitude suicida, participar de uma experiência científica cujo objetivo é encontrar a vacina para um vírus letal. Em vez de ser picado por uma aranha radioativa, o padre recebe sangue de vampiro, e é abençoado/amaldiçoado com dons sobre-humanos. Como não existe almo… ops… inoculação de graça, ele precisa se alimentar constantemente de sangue para evitar que o vírus se manifeste em seu organismo − sua porção vampiresca, por uma questão de sobrevivência, deve reinar sobre seu lado humano.

A castidade e os valores morais de Sang-hyeon são colocados em xeque quando ele conhece Tae-ju (Ok-bin Kim), esposa de um amigo de infância. Presa num relacionamento falido, Tae-ju enxerga no padre uma válvula de escape para seus desejos incubados, e resolve limpar as teias de aranha da perseguida com o que está intumescendo por trás da batina. Os dois começam a alimentar uma paixão proibida regada a sexo e sangue.

O padre, católico fervoroso, tem na ateia Tae-ju seu contraponto. Os dilemas e dúvidas que dilaceram o religioso se diluem na inconsequência da amante, que encontra no hedonismo irresponsável a cura para sua vida de privações afetivas. Sang-hyeon acaba se apaixonando pela perturbada moça, situação que irá flertar com o desastre.

Esgarçado entre Dr. Jekyll e Mr. Hyde, o devoto acaba se entregando ao lado monstro e dá adeus à batina. Quando a união dos dois é “oficializada” por um crime, o padre descobre que as diferenças (fisiológicas e morais) entre eles não podem ser pacificadas homogeneizando-se a dieta do casal. Ambos são perseguidos pelo fantasma da culpa, que azeda o entrosamento dos pombinhos.

O realizador Park Chan-wook utiliza o vampirismo como metáfora para a inadequação. O padre, acreditando que contraria desígnios divinos, luta entre fé e descrença para abafar seus instintos. No momento em que encontra Tae-ju, a perdição parece uma alternativa muito mais agradável do que a liturgia que enleva o espírito. As atitudes de Sang-hyeon relativizam os limites do que é moralmente aceitável. Como toda ação provoca uma reação, ele deverá arcar com o ônus de abandonar o sacerdócio e se tornar um ser humano “normal”, que pende entre qualidades e defeitos, muitos defeitos. Rezar não vai ajudar.

Carlos Eduardo Bacellar

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