Enseada da morte: abatedouro marinho revelado

Considerado o principal treinador de golfinhos do mundo na década de 1960, Richard O’Barry foi o responsável por adestrar esses animais para protagonizarem o programa Flipper, seriado de TV produzido pela National Broadcasting Company (NBC) e que ficou no ar de setembro de 1964 a abril de 1967.

Mas, ao contrário do que se imagina, O’Barry não educou os animais e, sim, foi educado por eles. Ao constatar que o cativeiro era nocivo para os cetáceos, o especialista em vida marinha se tornou o mais ferrenho ativista em prol da defesa de seus ex-bichinhos de estimação − e o terror de quem vive da exploração desses animais, seja comprando-os para shows ao estilo Cirque du Soleil em parques aquáticos ao redor do mundo, seja auferindo lucros com a venda da carne do animal.

Em sua militância ao redor do mundo, O’Barry se uniu ao fotógrafo Louie Psihoyos para realizar a missão mais arriscada em sua cruzada na busca de redenção: expor ao mundo a matança de mais de 20 mil golfinhos por ano na localidade japonesa de Taiji. Essa é a premissa do eco-thriller “The Cove” (2009), produ…, ou melhor, aventura dirigida pelo próprio Psihoyos que ganhou o Oscar de melhor documentário este ano.

Após reunir um verdadeiro Esquadrão Classe A – amparado na estrutura de sua ONG, The Oceanic Preservation Society (OPS), criada em 2005 com Jim Clark, Louie recrutou Simon Hutchins (o professor Pardal do grupo, responsável por criar as engenhocas de captação de som e imagem), o casal de profissionais em mergulho livre Kirk Krack e Mandy-Rae Cruickshank, Charles Hambleton (correspondente fotográfico viciado em adrenalina e responsável pelas operações clandestinas do grupo) e Joseph Chisholm (encarregado da logística), entre outros −, os dois idealistas coordenaram um audacioso plano de espionagem, digno dos filmes de James Bond, cujo objetivo era revelar ao mundo o massacre que ocorre numa pequena enseada de Taiji. Dispondo da mais alta tecnologia, a equipe, que teve de se especializar no absurdo na marra, driblou forças de segurança e pescadores ensandecidos e “grampeou” o local da carnificina, registrando tudo em vídeo.

Só que algo muito mais assustador se esconde por trás de todo sangue de golfinho derramado em águas japonesas. A carne dos animais, vendida no Japão em supermercados, muitas vezes rotulada como carne de outras espécies marinhas, como baleias, contém altos níveis de mercúrio. Ou seja, carne envenenada. O cerne da catástrofe expande seu círculo para além da questão ambiental, englobando algo muito mais crítico: saúde pública.

A produção é uma denúncia. Os canhões dos ativistas miram também na inércia do governo japonês que, reverberando os anseios das comunidades envolvidas (que levantam altas cifras com a atividade), abafa os escândalos decorrentes da pesca predatória – e, principalmente, varre para baixo do tapete qualquer menção a um possível envenenamento da população.

As autoridades japonesas jogam baixo para preservar seus interesses acerca da fauna marinha: compram votos de pequenas nações falidas com o intuito de angariar apoio nas reuniões internacionais que decidem sobre a caça (ou não) de baleias – categoria de cetáceos na qual os golfinhos deveriam se enquadrar; pelo menos no papel isso não ocorre, por pura conveniência (matéria recente do Estadão sobre o assunto: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,japao-compra-votos-de-nacoes-pequenas-na-comissao-da-baleia,566425,0.htm).

Apelando para um discurso ambiental estapafúrdio, os japoneses chegam a alegar que as baleias são responsáveis diretas pela diminuição de peixes nos oceanos. Como se elas fossem aquele gordinho afoito que come todos os doces da geladeira, sem pensar nos outros.

As imagens (e a retórica nipônica) chocantes não conseguem deixar ninguém impassível na poltrona. Bem ao estilo Michael Moore, o documentário joga toda merda no ventilador. O resultado, no mínimo, aditiva o inconformismo e estimula o debate.

Como diz O’Barry no encerramento do doc: “se não pudermos resolver esse pequeno problema, esqueçam os maiores. Não há esperança”.

A postura crítica não deve terminar em indignação muda ao fim da projeção. Quem quiser se engajar no projeto pode acessar o site http://www.takepart.com/thecove, mesmo que somente dando seu apoio moral ou divulgando o trabalho.

O documentário ainda não tem distribuição garantida para o Brasil, infelizmente (site oficial: http://thecovemovie.com/home.htm).

Carlos Eduardo Bacellar

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