Arquivo do mês: julho 2010

Uma noite que não será esquecida

O Teatro Paramount, em São Paulo, foi arena da final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, realizado em 1967. Coqueluches de uma época − entre 1965 e 1972, o Brasil viveu o auge do que ficou conhecido como a Era dos Festivais −, os festivais de auditório eram o entretenimento que foi substituído, mais tarde, pela força sedutora das telenovelas (mas que ainda hoje reverberam em nossos tímpanos na melodia de enlatados alienígenas como American Idol).

O mesmo frio na barriga experimentado pelos cantores e músicos daquele espetáculo, que movimentou a opinião pública brasileira, deve encontrar ecos nas entranhas dos diretores estreantes Renato Terra e Ricardo Calil, que, na próxima sexta-feira (30/7), levantam as cortinas das salas de exibição de todo país para apresentar o documentário “Uma noite em 67”, um convite para (re)viver a final do Festival da Record que marcou uma época e foi a incubadora de novas tendências na música brasileira.

Terra, publicitário, e Calil, jornalista e crítico de cinema, garimparam na TV Record – que acabou entrando de parceira no projeto com a Record Entretenimento − imagens de arquivo acerca do festival com o objetivo de recriar aquela experiência para o público de hoje.

Entre os 12 finalistas de 67, Chico Buarque e o MPB 4 vinham com “Roda Viva”; Caetano Veloso, com “Alegria, Alegria”’; Gilberto Gil e os Mutantes, com “Domingo no Parque”; Edu Lobo, com “Ponteio”; Roberto Carlos, com o samba “Maria, Carnaval e Cinzas”; e Sérgio Ricardo, com “Beto Bom de Bola”. A disputa foi tão acirrada que, além de entrar para a história da música popular brasileira, suscitou cenas folclóricas como a de Sérgio Ricardo quebrando seu violão após sua apresentação ser  engolida pelas vaias do público.

Assim como as telenovelas, os festivais precisam de núcleos dramáticos definidos para funcionar, de forma a emularem um espetáculo de luta livre. Essa é a fórmula de sucesso segundo um dos organizadores do festival, que disse serem necessárias as figuras caricatas do mocinho e do vilão como protagonistas do evento. E o público teve tudo isso e muito mais – a paleta teatral completa.

Outra nota 10 do júri técnico: Terra e Calil (que não se contentam com o trivial) nos levam aos bastidores do festival incrementando o doc com registros da movimentação que ocorria atrás da ribalta. Randal Juliano, Cidinha Campos e Reali Júnior esbanjam espirituosidade ao entrevistar futuros monstros da MPB, meros garotos à época. Eles araram e semearam o solo para que figuras como Amaury Jr. pudessem germinar no futuro – e levar a um outro nível a exploração da indústria de celebridades.

No doc, riqueza musical se entrelaça com os anseios políticos de uma geração engessada pelos anos de chumbo, e que encontra na música uma forma de extravasar desilusões e alimentar paixões. A demagogia que engrossava as paredes do cárcere das convicções foi suplantada pela retórica musical livre de preconceitos. Naquele “show de calouros” surgiriam as dissensões na MPB; o tropicalismo seria adubado pelo interesse obsessivo de Gil e pela tenacidade de Caetano; experimentalismos seriam colocados em prática; contestações veladas ao regime permeariam as letras, provocando brados, arrancando lágrimas e fazendo sangrar corações irredutíveis; e encontros antológicos fomentariam o cenário musical brasileiro.

O grande acerto da dupla de diretores foi deixar que as imagens transmitissem o clima da época, evitando o pedantismo autoral (indesejado) ou o proselitismo embotado. Os trechos com as músicas que estavam na boca do povo (e na cabeça da crítica e dos jurados) foram executados na íntegra. Depoimentos atuais (bem dosados) dos personagens que participaram do festival intercalam os registros em preto e branco, fortalecendo as gravações do certame musical ao explorar as transformações e contradições ideológicas dos personagens envolvidos.

As emoções da plateia do Teatro Paramount (uma das personagens principais do doc) são espelhadas pelo público que confere a produção na sala escura. Um trabalho contagiante que merece um olhar atento – tanto pela importância do registro de um recorte de época como pela qualidade e paixão com que foi elaborado.

Carlos Eduardo Bacellar

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Canibal Cult

Cercado por uma multidão, o odor nauseabundo de carniça toma conta. Muitas mãos imobilizam seus membros até sua carne ser rasgada por dentes podres e você ver que alguém de olhos vazios e expressão serena mastiga suas tripas. E se por milagre escapar desse destino terrível e das hordas lá fora, nas quais você reconhece seus pais e irmãos, verá a cidade em chamas e sua única certeza será a desesperança do fim do mundo. Eu disse milagre? Deus não existe.

No mundo pós-bomba atômica, nenhuma alegoria foi tão expressiva e completa quanto a do zumbi. Quem é que vai ter medo de um espírito errante numa casa velha ou de um psicopata fugido quando multidões canibais apodrecidas infestam das casas às igrejas? Dois elementos básicos aparecem no filme clássico de mortos ambulantes: o homem lobo do homem e o fim da sociedade.

Um ser morto que volta à atividade é uma coisa macabra por si, mas, quando isso acontece, a criatura não fica a mesma. Um tipo de apatia sanguinolenta toma conta dela, seja numa ressuscitação científica como em “Re-animator” (filme de 1985 baseado em obra do mestre H.P. Lovecraft), ou mística como em “Cemitério Maldito” (1989, do, por que não?, também mestre Stephen King).

Mas esses dois, apesar de falarem sobre mortos reanimados assassinos, não podem ser classificados como filmes de morto-vivo. Está faltando o contágio, que é a base para a propagação da epidemia e a consequente queda da civilização. Por isso, temos a síntese do tema consagrada na trilogia clássica de George Andrew Romero: “Noite”, “Amanhecer” e “Dia dos Mortos” (filmes de 1968, 78 e 85, respectivamente)1.

A trilogia explora a incapacidade da ciência para explicar o que está acontecendo, já que ninguém sabe o que traz os mortos de volta. Essa ignorância da avançada cultura ocidental talvez rivalize em terror com os próprios mortos e suas ofensivas. Também vemos nas obras o antes, durante e após a derrocada do mundo dos homens. E Romero fixa as “regras básicas”: o zumbi é eliminado com golpes na cabeça, e se ele te morder, já era, você se tornará um.

Ao longo das últimas décadas houve pouca variação dos elementos, incluindo a exploração comercial das tripas e esqueletos em diversas peças cinematográficas, na sua maioria B. Mas esse aparente preconceito contra os zumbis era uma energia contida, prestes a aflorar. Em “Extermínio” (2002, de Danny Boyle2), o diretor dá uma revigorada, tratando o tema com nova seriedade, apresentando os infectados. Os zumbis não são mortos, mas pessoas infectadas por um vírus de facílima contaminação, a partir daí tomadas por uma irascibilidade furiosa e insana, atacando violentamente quem quer que cruze seu caminho. Acho que no início do século XXI morto-vivo era uma coisa meio ridícula, e a infecção biológica torna-se um elemento de verossimilhança, atualíssimo, resgatando o terror.

Mas o mais interessante é notar que dois dos filmes mais recentes sobre zumbis são comédias. Longe de serem sátiras, o inglês “Shaun of the Dead”3 (2004, de Edgar Wright, com os impagáveis Simon Pegg e Nick Frost) e o estadunidense “Zombieland” (2009, de Ruben Fleischer com Woody Harrelson) soam mais como tributos. Ambos exploram os elementos dos clássicos com humor e estética gore, tirando sarro, mas não do gênero. Usam a temática pra fazer comédia, em tiradas muitas vezes metatextuais4.

Se você der uma pesquisada, vai ver uma porção de filmes B recentes (alguns BB: bem Bês) de morto-vivo. Será que essas não são provas do valor da metáfora para o mundo contemporâneo? O zumbi é o mito de terror pós-moderno por excelência. Afinal, nosso mundo de ciência, dominador da natureza, só nos deixa uma alternativa de destruição: a autodestruição. E, tal qual as milhares de ogivas termonucleares nas cabeças fálicas dos mísseis intercontinentais, essa destruição não simboliza nada particular, mas sim a possibilidade material real da completa e irreversível aniquilação. Nós seremos os arautos de nosso apocalipse.

Além disso, o morto ambulante enquanto drama lança um olhar sobre algo que eu chamo de tratamento estatístico da pessoa. A estatística é a ferramenta dos capitalistas e políticos para lidar com as pessoas de forma despersonalizada, aplicando supostas “leis” científicas a sentimentos e vontades. A multidão zumbi e seu comportamento terrivelmente uniforme e desalmado refletem a massa humana e o anonimato que ela traz. Nós, os mocinhos, tentamos fugir dessa onda, preservando nossas humanidade e individualidade.

Uma pessoa num arrastão pode matar outra durante o frenesi coletivo de uma briga de torcidas. Anônimo e desalmado… Quase impessoal, como as “regras” vomitadas todos os dias para a massa. Será que a Copa do Mundo é mesmo tão legal? Será que nunca mesmo devemos nos automedicar? E, em tempo, dar umas palmadas no seu filho birrento? Cuidado com os zumbis!

Cristiano Kusbick Poll


1Na verdade, o primeiro chama-se “Noite dos Mortos-vivos” e é PB. “Amanhecer” ou “Madrugada dos Mortos” tem um ótimo remake de 2004, dirigido por Zack Snyder.

2 No começo do filme há  um tributo a Romero, quando o protagonista vaga por Londres deserta gritando “Hello”, situação de Dia dos Mortos.

 

3 Eu me nego a usar o título brasileiro: “Todo mundo quase morto!”. O original é um trocadilho, usando o nome do protagonista, Shaun, e o título de “Amanhecer dos Mortos” (Dawn).

 

4 Ambos os filmes também traduzem perfeitamente as particularidades da comédia britânica vs americana.

DICA: Pra quem curte gibi, “The Walking Dead”, “Os Mortos-vivos”, série publicada no Brasil pela Editora HQM, é ótimo, vale muito a pena.

 

NOTA: O representante tupiniquim do gênero é “Capital dos Mortos” (2008), de Tiago Belotti, bêzão criativo que se passa em Brasília, e vale a pena prestigiar.

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Desce salgado

Angelina Jolie é como uma daquelas bonecas russas (matrioskas). Dependendo da qualidade do roteiro que colocar à prova sua capacidade dramática, ela pode diminuir ou se agigantar, mas sempre mantendo a perfeição do layout (caras e bocas incluídas) que garante seu lugar no rol das mulheres mais desejadas do planeta.

Nos antípodas da exploração do seu talento, temos os ovacionados “Gia” (1998) e “A troca” (2008) de um lado, e os fracassos “Lara Croft: toda a franquia” e “Capitão Sky e o mundo do amanhã” (2004) de outro.

Protagonista de “Salt”, AR-15 estética do diretor australiano Phillip Noyce, com estreia marcada no Brasil para o dia 30 deste mês, Angelina se equilibra no meio da gangorra de um filme comercial que desliza no óleo de milho da ideologia americanoide ultrapassada – mas conta com a persona da estonteante mulher de Brad Pitt para faturar alguns milhões.

No thriller, Jolie é Evelyn Salt, uma agente da CIA que vê seu mundo desmoronar ao ser acusada por um desertor russo de trabalhar para o Kremlin como espiã infiltrada. Encurralada pela contundência do depoimento – que é alimentado pela paranoia dos “amigos” da CIA e do serviço secreto americano −, ela foge e utiliza seu know-how de 007 (sem permissão de sua consciência para matar) para tentar provar sua inocência. Mas seria ela realmente inocente? Sua cruzada à moda Jason Bourne talvez nos forneça a resposta.

Exumando o pânico latente da guerra fria, o roteiro extrai das sombras dos silos de mísseis abandonados um complô russo para destruir os EUA. Reavivando a bipolaridade que havia outrora, Rússia e EUA, catalisados pelo comportamento (pseudo)destrutivo e enigmático de Salt, entram novamente em conflitos diplomáticos, que evoluem regridem para dedos no gatilho e, logo depois, para autenticações biométricas que permitem o acesso aos arsenais nucleares.

Aí não faltam os clichês bélicos contemporâneos, bem ao estilo ianque, que travam como alvos dos mísseis nucleares locais como Irã e Meca (os novos vilões que atravancam o caminho para a liberdade ocidental). O ponto alto do filme é a ambiguidade partidária de Salt, o que impede um julgamento de valor preciso por parte do público logo de cara. Sem sabermos o que fala mais alto a Salt, o treinamento G.I. Jane que recebeu ou o seu coração, ficamos suspensos na corda bamba da dúvida que balança tensionada pela indefinição moral da agente – tal insegurança angustia e torna o personagem mais interessante.

As cenas de ação são muito bem exploradas e executadas e, não sei quanto a vocês, mas ainda não me cansei de fitar a Angelina. Tirando isso, é mais uma produção de milhões que mais parece (anti)propaganda para justificar a esquizofrenia da política externa americana (principalmente na era Bush) – e elevar os EUA ao status de bastião moral da democracia e liberdade mundiais. Funciona como entretenimento gratuito.

Spoiler!!! A cena que nos coloca como testemunhas da troca de Salt, capturada e torturada por forças norte coreanas, por um espião de Kim Jong-il é sintomática da imagem torta que os americanos tentam vender para o mundo: enquanto Salt é desovada toda arrebentada, com marcas patentes de sevícia, o espião norte coreano é recebido por seus compatriotas incólume, trajando terno. Parecia que tinha saído do Werner Coiffeur. Piada de mau gosto do Tio Sam em tempos de crise econômica e política nos States. Espero que a interpretação desses sinais esteja equivocada, e que tudo não passe de um rocambolesco divertimento descompromissado.

Carlos Eduardo Bacellar

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Juno em 2 minutos

Descolei no YouTube este vídeo fofinho sobre o filme “Juno” (2007), do diretor canadense Jason Reitman.  Roteirizado pela stripper americana Brook Busey (A.K.A Diablo Cody), a história narra os conflitos existenciais de uma adolescente espirituosa — Juno MacGuff, interpretada pela lindinha Ellen Page — que se vê às voltas com as inquietações, medos e dúvidas de uma gravidez precoce não desejada. A edição embala ao som de Anyone else but you, música que integra a trilha sonora do longa — composição da banda indie The Moldy Peaches. Ainda vou escrever detalhadamente sobre esse filme…

Carlos Eduardo Bacellar

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Ninguém vive a paixão (pelo cinema) impunemente

“Os dias passam, meu corpo apodrece. Corpos apodrecem. Por isso nada sou senão palavras. Quando escrevo, me afirmo. Quando falo, ganho sentido. Quando penso, ganho corpo. Meu corpo é letra e linha. Meu corpo palavra.”

Com essas palavras Camila (Leandra Leal) começa a esboçar o primeiro parágrafo de seu livro. Livro que se confunde com seu blog que se confunde com sua vida.

A palavra é o início e a infinitude de “Nome próprio” (2008). Esmiuçada pelas lentes do diretor Murilo Salles (“Como nascem os anjos”, 1996), Leandra Leal se confunde com Camila que se confunde com a escritora gaúcha Clarah Averbuck – na obra literária de quem a produção é livremente inspirada − para dar corpo à montanha russa existencial da blogueira que sonha ser escritora. Ela estrutura-se como sujeito utilizando um esqueleto de palavras-cruzadas que a traceja para o mundo.

Partindo dessa premissa, e amparado no talento dramático de Leandra (atriz que se revela madura, repleta de possibilidades, explodindo numa miríade de emoções contraditórias), o cineasta consegue formatar, dentro da linguagem cinematográfica, embalado num invólucro contemporâneo, o ímpeto do fluxo de pensamento da protagonista.

Camila, uma náufraga social – que boia na singularidade de suas idiossincrasias −, comprime em pacotes de bytes o que existe de mais íntimo e incontrolável em seu ser, lançando-os em seguida no fluxo dinâmico da Internet, com a esperança de que eles sejam encontrados por leitores tão ávidos por terra firme quanto ela. Seu blog é uma continuação de seus desejos, aspirações, frustrações, desencantos, alegrias e tristezas – uma válvula de escape virtual para compartilhar com o vazio impessoal aquilo que excede sua capacidade de assimilação emocional, e que acaba transbordando para a rede. Ela abstrai-se de seu número de RG e se afirma por meio do seu endereço URL.

Na beira do abismo da indigência (material), ela constrói pontes de texto que a conectam com o mundo real, e a impedem de esvair-se em direção à loucura do anonimato/anonimato de loucura.

“Meu blog não é um diário. Aqui escrevo e ponto. Escrevo porque preciso, ou melhor, vivo porque escrevo.”

A exposição no ciberespaço como instrumento para virar do avesso a introspecção. Camila/Clarah é uma solitária apaixonada por algo que não consegue identificar. Abusando de relacionamentos efêmeros, muitas vezes inconsequentes, ela se deixa levar por seus impulsos em busca de algo que não consegue definir racionalmente.

Essa agonia, gerada pela insegurança, chacoalha seu equilíbrio emocional e a impele para comportamentos destrutivos – que objetivam anestesiá-la das agruras do mundo físico, real. Volúvel, explora sua personalidade hipertextual à procura do link Esc. Talvez um impulso abstrato de realização – afetiva/profissional/pessoal?

Só se sente segura nas idealizações que arquiteta em seu mundo virtual – seu Second Life. No momento em que se despe de seu escudo antiaproximação, e se entrega ao amor, suas ilusões virtuais são atropeladas pelas expectativas reais do outro, que, como um canhestro arquétipo de perfeição, se estilhaça na crueza da vida como ela é, e não como Camila quer que seja.

Cena que destaca a contradição dos tempos e valores é aquela na qual um fã de Camila, que a hospeda em sua casa, tira fotos da blogueira e se masturba com elas, enquanto a própria, bêbada e seminua, se encontra deitada, indefesa, logo atrás do punheteiro de plantão. A reprodução do real é mais afrodisíaca que a realidade em si. Sexo mais seguro que esse não existe.

Leandra Leal extrai com maestria do roteiro (creditado ao próprio diretor, à Melanie Dimantas e à Elena Soarez) as perturbações que exalam da literatura de consumo fácil da aspirante a escritora – mas que, paradoxalmente, faz aflorar a mais complexa paleta de feridas sentimentais de uma personagem incompleta, e que se alimenta dessa incompletude para criar. Ela alterna os altos e baixos de uma bipolaridade (aditivada por circunstâncias da vida) aguda – transitando com determinação hesitante o purgatório que leva da segurança ao desequilíbrio.

Não à toa, Leandra arrebatou os prêmios de melhor atriz no Festival de Gramado 2008 e na votação da Academia Brasileira de Cinema em 2009. Dá tesão − tal substantivo apimentado é usado com toda isenção, sem nenhuma relação com as cenas de nudez e sexo… Quem estou querendo enganar? O duplo sentido (respeitoso) nunca foi tão bem empregado − ver uma atriz abraçar de maneira tão intensa um papel. Nas mãos de outra pessoa menos talentosa e versátil, a força de Camila/Clarah se perderia na mera caricatura de uma versão poético-existencial falsificada da Martha Medeiros.

Especifico o que foi dito superficialmente no segundo parágrafo: O filme é produto da livre adaptação cinematográfica dos livros “Máquina de pinball” e “Vida de gato”, além de textos publicados na Internet, todo material fruto da entrega de Clarah Averbuck que, sem medo de ser piegas ou patética, expõe para leigos os resultados de ressonância magnética da sua alma. E não está nem aí para o que você acha ou deixa de achar disso. Garota corajosa, assim como Leandra.

Carlos Eduardo Bacellar

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Alô, Charles Möeller e Claudio Botelho!

Paródia rolando na internet que utiliza como matéria-prima cenas de “Rambo II” (1985). Não consigo me esquecer do ponto de encontro Co Bao 🙂

John Rambo mostra toda sua sensibilidade soltando a voz e dando vazão ao seu lado Julie Andrews.

Achei o vídeo fofo e resolvi postar aqui (dica do pessoal do Kibeloco, via Twitter). O “título” da música faz alusão ao novo filme de Sylvester Stallone, “Os mercenários” (“The expendables”), escrito e dirigido pelo próprio, com estreia no Brasil prevista para o dia 13 de agosto.

Carlos Eduardo Bacellar

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Ode teuto-turca ao amor (a quem interessar possa)

Uma cantada sub-reptícia não compreendida. O desencontro, o equívoco e a frustração. A procura paradoxal que ao mesmo tempo afasta e aproxima do verdadeiro amor. Uma ponte que separa a Ásia da Europa, metáfora que coloca em extremidades opostas quem você quer e quem realmente te quer. Elo emocional que pavimenta o caminho entre dois corações que estão fora de sintonia, apesar de captarem a mesma melodia melancólica, mas que são compatíveis nos seus sentimentos mais honestos.

(O!!!) diálogo – ritual de acasalamento da fala − que desvela desejos e pulsões; e alimenta expectativas para que a entrega aconteça:

Julia (Christiane Paul): O que você fará quando vê-la?

Daniel (Moritz Bleibtreu): O que quer dizer?

Julia: Sabe o que dirá a ela?

Daniel: (pausa dramática) Não sei…

Julia: Não sabe?!

Daniel: Não… Não… O que você diria?

Julia: Bem, alguma coisa assim [bem romântica]… Meu grande amor, viajei por quilômetros, atravessei rios e movi montanhas. Sofri e suportei agonias, resisti a tentações, segui o sol e por isso estou perante você, para dizer eu te amo.

Daniel: [Tenho que manter as aparências e preservar meu orgulho de macho-alfa] Não é meio cafona?

Julia: [Esses homens não entendem nada…] Não…

Às vezes, para enxergar, só é preciso olhar para o lado, filtrar os ruídos da confusa estática afetiva e ouvir. Ele está logo ali. Basta ter a ousadia de atravessar a ponte.

Carlos Eduardo Bacellar

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Bem-vindo ao inferno, escola de psicopatas

Dawn Wiener (Heather Matarazzo) encontra-se na sétima série do ensino fundamental de alguma escola americana na década de 1980. Retraída, inocente, introvertida, desajeitada e tímida, ela sonha em ser uma garota popular, apesar de não se enquadrar no padrão de beleza das meninas que fazem sucesso. Rotulada como esquisita (=diferente), ela sofre com as agressões físicas e psicológicas perpetradas pelos colegas de escola. Na linguagem moderna, Dawn é vítima de bullying.

Ao se defender, é tachada de antissocial, problemática e perturbada. Excluída das “panelas” − recheadas de comportamentos padronizados pela linha de montagem social da deformada juventude americana −, sofre com a solidão. Quem não teve sua cota de problemas à época do colégio que atire o primeiro Nauru, ou a primeira Revista Capricho. Em casa é preterida pela irmã mais nova (“ela consegue tudo tão fácil”), a queridinha da mamãe e do papai, e é esnobada pelo irmão mais velho, com quem não consegue estabelecer diálogo. O inferno existencial está armado.

Dawn é a inglória heroína do filme “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995), do diretor americano Todd Solondz, que também assina o roteiro. Transpirando autoralidade, Solondz se serve do título como metáfora para, utilizando a rotina da menina como microscópio sociológico, dissecar as aparências que encobrem horrores na classe média da sociedade americana. Amostragem do que o american way of life deixou de herança para as futuras gerações, a família de Dawn disfarça a implosão de seus valores com quilos de maquiagens à base de aparência e hipocrisia. Só que a alergia às muletas pseudomorais, que só servem como paliativo para uma situação insustentável, não tarda a parecer.

Cáustico, impiedoso e destilando seu humor negro atávico – que pode ser conferido em trabalhos posteriores, como “Felicidade” (1998), que alguns consideram sua obra-prima, e “Histórias proibidas” (2001) −, Solondz incomoda com um filme corajoso e perturbador.

Implacável, ele agride nosso conformismo cômodo ao radiografar a casa da família Dó-Ré-Mi e descobrir a metástase dos valores morais. Por baixo do verniz perfeccionista e da atmosfera artificial, as lentes de Solondz encontram a podridão sem cheiro, mas altamente ácida, de uma classe média fadada a desmoronar na alienação, no egoísmo e na falta de comunicação. E o combustível de alta octanagem da leviandade, à moda Scott Fitzgerald no livro “Este lado do paraíso”, acelera o deterioramento das relações humanas, que, na verdade, não passam de um teatro de fantoches.

Assistindo ao filme, um grito engasga em nossas gargantas: o que nós vamos legar para nossos filhos? Chega a ser irônica a escolha do nome e do sobrenome da protagonista: Dawn (que na tradução para o português significa amanhecer) e Wiener (mesma sonoridade de winner, que quer dizer vencedor[a] em nossa língua) respectivamente. Esse tipo de realidade é a escola de psicopatas do futuro. É o terreno fértil para que outros protagonistas de “Tiros em Columbine” (2002) ganhem as manchetes do noticiário.

O diretor integra um talentoso grupo de realizadores autorais americanos (formado por artistas de várias gerações) dos quais destaco Noah Baumbach, autor de “A lula e a baleia” (2005) e “Margot e o casamento (2007); Judd Apatow, na seara da comédia, arrebatando elogios com “O virgem de 40 anos” (2005) e “Ligeiramente grávidos” (2007); Courtney Hunt, diretora de “Rio congelado” (2008); Jim Jarmusch, o capitão das naus estéticas “Estranhos no paraíso” (1984) e “Down by Law” (1986); o oscarizado Jonathan Demme, que horrorizou os mais conservadores emplacando Anthony Hopkins no papel do psicopata canibal Hannibal Lecter em “O silêncio dos inocentes” (1991), e foi o responsável por organizar o “Casamento de Rachel” (2008); Alexander Payne, que conseguiu uma atuação antológica de Paul Giamati em “Sideways − entre umas e outras” (2004); e Rebecca Miller, responsável por “The privates lives of Pippa Lee” (2009), cujo título no Brasil é “Vidas cruzadas” – não se enganem com a capa do DVD, com Keanu Reeves e Monica Bellucci estampados abaixo do título. Apesar de o filme ser interessante, os dois só estão ali para te fisgar, já que interpretam papéis terciários.

Em 1996, “Bem-vindo à casa…” arrebatou o Grande Prêmio do Júri do Festival Sundance de Cinema, berço da autoralidade nos EUA que embala para o sucesso (ou não) produções independentes. O filme é de uma crueza arrepiante, mas necessária. Imperdível!

Carlos Eduardo Bacellar

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Tratado atemporal sobre remorso e culpa

O consagrado roteirista Guillermo Arriaga, que escreveu para as câmeras “Babel” (2005), “21 gramas” (2003) e “Amores brutos” (2000), transcende os limites do texto e resolve se arriscar na direção de seu primeiro longa com o drama “Vidas que se cruzam” (2008). “The burning plain” (no original), uma das coqueluches do último Festival de Cinema do Rio, acaba de chegar às locadoras.

Com o apelo de Charlize Theron e Kim Basinger protagonizando a trama, Arriaga entrelaça passado e presente para falar de remorso e culpa. Desafiando as leis da física e do coração com câmeras que fogem do foco linear, o diretor (que também roteiriza o filme) nos apresenta a quatro núcleos de personagens: Sylvia (Charlize Theron), uma mulher atormentada por fantasmas do passado que procura em momentos de prazer efêmeros um resquício da chama que um dia esteve acesa dentro dela; Gina (Kim Basinger) e Nick (Joaquim de Almeida), duas almas desgastadas por relacionamentos falidos que encontram no adultério o consolo de que precisavam para continuar em frente; Mariana (Jennifer Lawrence), adolescente que percebe a corrosão no casamento de seus pais e, impregnada de uma peudomoralidade, se recusa a aceitar as vicissitudes maliciosas da vida, repletas de zonas cinza, externando sua indignação de forma desastrosa; e a jovem Maria (Tessa Ia), abandonada pela mãe ainda no berço e criada por seu pai, descendente de mexicanos.

Munido desse mosaico de personagens, situações e períodos temporais distintos, o realizador compõe quadros aparentemente herméticos que, com o desenvolvimento da narrativa, começam a se sobrepor, dando forma à equação que revela os resultados emocionais de atos e consequências; e expõe as incógnitas do enredo: as conexões entre os personagens.

O elenco tem atuações desequilibradas, com destaque para Charlize, que utiliza toda sua capacidade dramática para dar um choque hipotérmico em sua personagem (alienando-a de qualquer tipo de sensação), causado pela gélida dor que penetra no espírito de Sylvia. Destruída pela culpa e agrilhoada em arrependimentos do passado – uma versão feminina, e menos certinha, de James Stewart em “A felicidade não se compra” (1946), de Frank Capra − ela busca em comportamentos irresponsáveis e inconsequentes uma maneira de sentir alguma coisa, de lembrar-se de que, apesar de todos os erros que cometeu, está viva. Atriz talentosa, Charlize só derrapa, quase no final do filme, ao se tornar sentimental no tranco, um atropelo do roteiro que não compromete.

Ao interpretar Gina, a plastificada Kim Basinger, que segue à risca a cartilha da vaidade de Sophia Loren, procura dar força a uma mulher que, após ser acometida por um câncer – doença que, além de cicatrizes físicas, deixou rasgos profundos em sua autoestima − busca a felicidade em um caso extraconjugal, mas se sente dilacerada pela culpa: estremece de prazer e de medo. Só procura… Kim tem bons momentos, como quando revela ao amante seus dramas psicológicos (derivados das mazelas físicas), mas deixa a desejar. Fica longe do desempenho dramático de Diane Lane em “Infidelidade” (2002). Talvez por falta de uma entrega maior, que só ocorre pontualmente.

Arriaga, mexicano, gosta de brincar com as tensões étnicas em suas produções. Em “The burning…” elas estão lá, como pano de fundo de uma sociedade intolerante e hipócrita. O roteiro, cerzido pelas mãos de quem entende do assunto, é consistente e bem elaborado, e não permite que o montador coloque os pés pelas mãos – apesar da suposta complexidade, não deixa o público perdido em piruetas narrativas que só servem para confundir.

É interessante acompanhar a evolução de mais um roteirista competente que resolve se expor aos desafios da direção. “The burning…” é um trabalho que, apesar (das minhas) restrições – o desequilíbrio das atuações; o foco em determinadas circunstâncias secundárias; a suposta tomada de consciência de Sylvia depois de tantos anos, o que fica difícil de digerir −, merece ser conferido.

Ah, sim… Antes que me perguntem, eu respondo. Charlize Theron aparece como veio ao mundo no filme. Os paraguaios que me perdoem, mas, em tempos de Larissa Riquelme, sou mais a Charlize.

Carlos Eduardo Bacellar

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Jim Jarmusch turco explora descompasso afetivo

Nuri Bilge Ceylan transpira autoralidade telúrica. Aclamado como um dos principais, se não o principal, realizador turco da atualidade, Ceylan, em suas obras, capta a essência do ser humano estruturando narrativas minimalistas − estratégia que diminui os ruídos do supérfluo e dá força à sua cinematografia.

Vencedor do Prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci), que arrebatou no Festival de Cannes 2006, no qual concorreu também à Palma de Ouro, “Climas” (2006) chega tardiamente ao Brasil, diretamente em DVD (essa expressão já virou clichê aqui no blog, fazer o quê?).

Na produção (“Iklimler”, no original), Ceylan acompanha o esgarçamento do tecido sentimental que envolve um casal. Isa (interpretado pelo próprio diretor, que também assina o roteiro) é um professor universitário cujo casamento sufoca na indiferença silenciosa gerada pelo descompasso afetivo. Ele e sua jovem esposa Bahar (Ebru Ceylan, mulher do diretor na vida real) discrepam não só na diferença de idades, mas também nas aspirações pessoais.

Isa, inadvertidamente, sabota sua relação ao não dar a devida atenção a Bahar. Não por causa de uma negligência arbitrária, mas, motivado por idiossincrasias “destrutivas” que afloram de forma inconsciente. O brilho dos olhos de Bahar se esvai aos poucos, e dá lugar a uma tristeza maléfica. O professor, cego de si mesmo, não comunga com os anseios de sua companheira, os quais não são verbalizados, mas sublimados na forma de comportamentos atípicos.

O realizador utiliza, marca registrada de sua maneira de criar, o silêncio e a aparente inércia da dramatização para enfatizar os aspectos humanos de seus personagens. Em tempos de evoluções epilépticas da sequência dramático-narrativa, paciência é a palavra de ordem do turco: as lentes de Ceylan fixam seus objetos pelo tempo necessário à maturação do que arde de mais íntimo dentro do peito. A expressão do olhar ganha mais relevância do que o movimento dos atores em cena.

Atormentados por sentimentos conflitantes em relação ao outro, Isa e Bahar, invertendo sucessivamente os polos do amor e da repulsa, se aproximam e se afastam numa dança que exige não coordenação, mas conformação. As estações do ano parecem acompanhar o estado de espírito dos dois, que vai do cálido verão ao gélido inverno, para depois retomar novamente o ciclo natural da vida.

O Jim Jarmusch turco, compatibilizando o específico com o universal, expõe sentimentos que se atritam em encenações mudas, mas pungentes, e em planos-sequência que dissecam seus protagonistas revelando as cicatrizes da alma. Isa se sente inseguro com o avanço da idade e todas as suas implicações fisiológicas e sociais, enquanto Bahar acredita que o professor é sua âncora de melancolia na enseada da pasmaceira. A paixão do docente pela arquitetura antiga mais parece, aos olhos de Bahar, uma enfadonha perda de tempo que um exercício acadêmico construtivo. Essa metáfora, elaborada no processo arqueológico do humano, destaca visões de mundo diferenciadas, anguladas pelos estágios diferentes de maturidade.

As situações de desmoronamento emocional irão levar nossos protagonistas à reflexão. Com mais essa obra-prima, Nuri Bilge Ceylan revela que a veleidade do desejo e da carência, muitas vezes, pode ser confundida com o conformismo nocivo, que desequilibra o emocional com falsos dogmas.

Apaixonado pela Turquia, o diretor explora em seus filmes as belezas naturais e os aspectos culturais do país, especiarias que incrementam o apetite cinéfilo e extasiam os sentidos do público.

Curiosamente, “Climas” foi lançado antes de “Três macacos” (2008) – trabalho mais recente do diretor −, mas só chega aqui no Brasil após o ciclo de vida completo do segundo filme – tímida passagem pelo circuito exibidor + lançamento em DVD.

Ao lembrarmos que “Três macacos” foi muito bem recepcionado pela crítica (com razão) – com destaque para os elogios rasgados do mestre Ely Azeredo −, fica fácil entender o porquê desse atropelo. Caso as distribuidoras se rendam de vez à qualidade estética de Ceylan, os futuros projetos do diretor terão espaço garantido na apertada agenda do circuito exibidor nacional. Graças aos deuses do cinema!

Carlos Eduardo Bacellar

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