Encantos da inocência

O poeta Manoel de Barros se esforça para carregar seus versos com a inocência crua do olhar infantil. A tarefa parece fácil, mas exige que o poeta se desfaça de pré-conceitos, ideias formatadas e repertórios estreitos − que sufocam sua criatividade com a camisa de força dos recalques, deixando-o, paradoxalmente, menos “louco” − para tentar, na observação do comum, subverter o óbvio dando às palavras significados inusitados.

O diretor Laurent Tirard não poderia ter feito melhor escolha ao exercitar a mesma sensibilidade na transposição para as telas das aventuras do pequeno Nicolau, personagem de quadrinhos idealizado pelo ilustrador Jean-Jacques Sempé e pelo mago do texto de humor inteligente René Goscinny (1926-1977), um dos pais dos irredutíveis gauleses Asterix e Obelix.

No filme “O pequeno Nicolau” (2009), Tirard acompanha com suas lentes as desventuras do personagem homônimo. Sempre ladeado pelos inseparáveis parceiros de escola – entre eles Alceu (Vincent Claude), Godofredo (Charles Vaillant), o impagável Clotário (Victor Carles), Rufino (Germain Petit Damico), Joaquim (Virgile Tirard) e Eudes (Benjamin Averty) – Nicolau (Maxime Godart) tenta entender o mundo que o cerca, ou seja, amadurecer evitando traumas. Por caminhos tortos e cômicos, ele envereda pela (pseudo)autossuficiência ao tentar superar as dificuldades na escola; ao lidar com seus pais; ao descobrir os encantos do sexo oposto; e ao diagnosticar, como (quase) toda criança, situações triviais como o fim de tudo.

A história tem sua guinada quando Nicolau e sua trupe compartilham aflições pela iminente chegada ao mundo do irmãozinho de Joaquim. Sentindo-se em segundo plano, o garoto acha que será abandonado pelos pais, acreditando que os dois irão direcionar todas as suas atenções para o novo membro da família, abandonando-o à própria sorte.

Atento ao relato do colega, Nicolau acaba, pouco tempo depois, inferindo que seus pais também esperam um filho. Com medo de ser preterido, ele coopta os amigos para ajudá-lo a elaborar planos que garantam seu lugar no coração dos progenitores (interpretados por Kad Merad e Valérie Lemercier). Os estratagemas dos garotos – espécie de clube dos batutinhas francês −, permeados pela pureza da inocência e destituídos de maldade, produzem as cenas mais engraçadas do filme.

A sacada mais inteligente do diretor foi contrapor os dilemas existenciais das crianças aos dos adultos. Quando há a troca de diálogos entre gerações distintas, a qualidade do tempero cômico de Goscinny (amplificada pelos desenhos de Sempé), muito bem aproveitada pelo roteiro (de autoria do próprio diretor, Grégoire Vigneron e Alain Chabat), aparece e desconcerta, mergulhando o público nas relações improváveis que surgem da cabeça de uma criança.

Os adultos, representados pelos pais de Nicolau, supostos bastiões da racionalidade, do respeito e da verdade, acabam colocando os pés pelas mãos e protagonizando cenas dignas dos trapalhões. Fica claro, ao traçarmos um paralelo entre as aspirações de Nicolau e sua mãe, que só o que muda com a idade são os “brinquedos”: quando crianças, o que nos interessa é a diversão descompromissada, e para abrirmos um sorriso qualquer pião vale; mais velhos, nos preocupamos com status e regras de etiqueta social.

Apelando para a saturação exagerada de cores à moda almodovariana, Tirard cartuniza a encenação remetendo-a às suas origens, os quadrinhos. O traço expressivo, asséptico e caricato dos ambientes e das indumentárias reforça essa percepção.

O filme vai deliciar públicos de todas as idades. Goscinny, assim como Manoel de Barros, nos (re)lembra de que somos todos crianças, e que não devemos tolher nossa imaginação, a luz da criatividade da alma.

Carlos Eduardo Bacellar

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4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

4 Respostas para “Encantos da inocência

  1. Paulo Henrique Souto

    É isso aí Bacelar, fundamental manter a criança que há em todos nós, senão a vida perde a graça.Acho um absurdo quanda a TV coloca criança em cena e denomina de ” ator mirim”. Não existe isto, a criança brinca em frente a camera ,as que são timidas não dão conta. Stanislavski no famoso ” Método” diz para os alunos observar as crianças, antes de ir pra aula de teatro, pois, diz o mestre … “criança brinca , faz de um grão de areia um castelo” É amelhor referencia para o ator.
    A expressão para “interpretação” em ingles é “play”: jogo, brincadeira ….abs.

    • Muito bem dito, Paulo Henrique. A pureza das crianças enriquece a dramaturgia com a forma mais genuína de interpretação.
      Ali não há artifícios que objetivam dourar a pílula com excessos.
      Abração amigo!
      CEB

  2. Taí uma alternativa “cult” às férias de Shrek e Toy Story. Darei um beijo no pequeno Nick nesta semana. Ah, se vou…. e quero ver quantas crianças (público-alvo) estarão na sessão.

    • Ótima opção de programa. Sem dúvida alguma “O pequeno Nicolau” dá um banho no ogro verde e nos brinquedos antropomórficos da Pixar — que não receberam o selo de certificação do Inmetro, pois estão carregados de peças estéticas perigosas que podem ser ingeridas, causando mal às crianças.
      Acabei me lembrando (não sei por causa de quê…) das palavras do mestre Ely Azeredo, publicadas no JB em 1971, acerca da produção “Aventuras com o tio Maneco”:

      “Um cinema permanentemente ‘proibido até 18 anos’ é suicídio. Apesar de uma frequente margem de exagero por parte dos censores, sabe-se que o cinema brasileiro tem trabalhado de costas para uns 30 milhões de brasileiro menores, dia a dia mais cativos da televisão. Esta situação tende a diminuir ainda mais, de ano a ano — porque ir ao cinema é sobretudo um hábito que se adquire ou não –, a plateia da produção nacional que, em média, já é insuficiente para manter saudável a indústria.”

      Pode ser algo meio fora do contexto, mas deu vontade de transcrever. Ídolo!

      CEB

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