Jim Jarmusch turco explora descompasso afetivo

Nuri Bilge Ceylan transpira autoralidade telúrica. Aclamado como um dos principais, se não o principal, realizador turco da atualidade, Ceylan, em suas obras, capta a essência do ser humano estruturando narrativas minimalistas − estratégia que diminui os ruídos do supérfluo e dá força à sua cinematografia.

Vencedor do Prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci), que arrebatou no Festival de Cannes 2006, no qual concorreu também à Palma de Ouro, “Climas” (2006) chega tardiamente ao Brasil, diretamente em DVD (essa expressão já virou clichê aqui no blog, fazer o quê?).

Na produção (“Iklimler”, no original), Ceylan acompanha o esgarçamento do tecido sentimental que envolve um casal. Isa (interpretado pelo próprio diretor, que também assina o roteiro) é um professor universitário cujo casamento sufoca na indiferença silenciosa gerada pelo descompasso afetivo. Ele e sua jovem esposa Bahar (Ebru Ceylan, mulher do diretor na vida real) discrepam não só na diferença de idades, mas também nas aspirações pessoais.

Isa, inadvertidamente, sabota sua relação ao não dar a devida atenção a Bahar. Não por causa de uma negligência arbitrária, mas, motivado por idiossincrasias “destrutivas” que afloram de forma inconsciente. O brilho dos olhos de Bahar se esvai aos poucos, e dá lugar a uma tristeza maléfica. O professor, cego de si mesmo, não comunga com os anseios de sua companheira, os quais não são verbalizados, mas sublimados na forma de comportamentos atípicos.

O realizador utiliza, marca registrada de sua maneira de criar, o silêncio e a aparente inércia da dramatização para enfatizar os aspectos humanos de seus personagens. Em tempos de evoluções epilépticas da sequência dramático-narrativa, paciência é a palavra de ordem do turco: as lentes de Ceylan fixam seus objetos pelo tempo necessário à maturação do que arde de mais íntimo dentro do peito. A expressão do olhar ganha mais relevância do que o movimento dos atores em cena.

Atormentados por sentimentos conflitantes em relação ao outro, Isa e Bahar, invertendo sucessivamente os polos do amor e da repulsa, se aproximam e se afastam numa dança que exige não coordenação, mas conformação. As estações do ano parecem acompanhar o estado de espírito dos dois, que vai do cálido verão ao gélido inverno, para depois retomar novamente o ciclo natural da vida.

O Jim Jarmusch turco, compatibilizando o específico com o universal, expõe sentimentos que se atritam em encenações mudas, mas pungentes, e em planos-sequência que dissecam seus protagonistas revelando as cicatrizes da alma. Isa se sente inseguro com o avanço da idade e todas as suas implicações fisiológicas e sociais, enquanto Bahar acredita que o professor é sua âncora de melancolia na enseada da pasmaceira. A paixão do docente pela arquitetura antiga mais parece, aos olhos de Bahar, uma enfadonha perda de tempo que um exercício acadêmico construtivo. Essa metáfora, elaborada no processo arqueológico do humano, destaca visões de mundo diferenciadas, anguladas pelos estágios diferentes de maturidade.

As situações de desmoronamento emocional irão levar nossos protagonistas à reflexão. Com mais essa obra-prima, Nuri Bilge Ceylan revela que a veleidade do desejo e da carência, muitas vezes, pode ser confundida com o conformismo nocivo, que desequilibra o emocional com falsos dogmas.

Apaixonado pela Turquia, o diretor explora em seus filmes as belezas naturais e os aspectos culturais do país, especiarias que incrementam o apetite cinéfilo e extasiam os sentidos do público.

Curiosamente, “Climas” foi lançado antes de “Três macacos” (2008) – trabalho mais recente do diretor −, mas só chega aqui no Brasil após o ciclo de vida completo do segundo filme – tímida passagem pelo circuito exibidor + lançamento em DVD.

Ao lembrarmos que “Três macacos” foi muito bem recepcionado pela crítica (com razão) – com destaque para os elogios rasgados do mestre Ely Azeredo −, fica fácil entender o porquê desse atropelo. Caso as distribuidoras se rendam de vez à qualidade estética de Ceylan, os futuros projetos do diretor terão espaço garantido na apertada agenda do circuito exibidor nacional. Graças aos deuses do cinema!

Carlos Eduardo Bacellar

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7 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

7 Respostas para “Jim Jarmusch turco explora descompasso afetivo

  1. Jim Jarmusch turco é mel na minha boca duplamente! Ele é o cara. E Turquia, o país. Morei lá por quase 3 meses em 2001… Aluga pra mim esse DVD aí. Pra ontem. Essa gripe não me deixa fazer nada, mas a vontade de conferir a obra fez com que eu quase pulasse da janela (beijos) agora mesmo! Parabéns pelo texto!

    • O DVD já está na mão. Como faço para te entregar? Posso pedir para o pessoal da locadora deixar separado mais tarde para você, já que tenho que devolver hoje.
      Que bom que gostou do texto 🙂 Hoje tem ‘Shrek para sempre’! Princess Fiona, here I come!
      CEB

      • Não posso sair de casa. Lembra do isolamento viral (gripe)? E ainda vai chover pra piorar… Deixa pra lá… Whatever will be, will be. Isso, vá esquentar a briga de mercado “Eclipse” X “Shrek”. Eu tô só na butuca fazendo anotações.

  2. Sinceramente, que planos são esses? Numa boa, há muito não vejo algo tão bem filmado. E a adjetivação/subjetivação Jim Jarmusch turco é mais do que apropriada. Beijos!

  3. Teu texto analisa bem o senso do filme, o psicológico, vai fundo e gosto do teu estilo.

    Vou procurar AGORA este filme, a premissa me atrai e muito…

    abraço e parabéns pelo blog!

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