Tratado atemporal sobre remorso e culpa

O consagrado roteirista Guillermo Arriaga, que escreveu para as câmeras “Babel” (2005), “21 gramas” (2003) e “Amores brutos” (2000), transcende os limites do texto e resolve se arriscar na direção de seu primeiro longa com o drama “Vidas que se cruzam” (2008). “The burning plain” (no original), uma das coqueluches do último Festival de Cinema do Rio, acaba de chegar às locadoras.

Com o apelo de Charlize Theron e Kim Basinger protagonizando a trama, Arriaga entrelaça passado e presente para falar de remorso e culpa. Desafiando as leis da física e do coração com câmeras que fogem do foco linear, o diretor (que também roteiriza o filme) nos apresenta a quatro núcleos de personagens: Sylvia (Charlize Theron), uma mulher atormentada por fantasmas do passado que procura em momentos de prazer efêmeros um resquício da chama que um dia esteve acesa dentro dela; Gina (Kim Basinger) e Nick (Joaquim de Almeida), duas almas desgastadas por relacionamentos falidos que encontram no adultério o consolo de que precisavam para continuar em frente; Mariana (Jennifer Lawrence), adolescente que percebe a corrosão no casamento de seus pais e, impregnada de uma peudomoralidade, se recusa a aceitar as vicissitudes maliciosas da vida, repletas de zonas cinza, externando sua indignação de forma desastrosa; e a jovem Maria (Tessa Ia), abandonada pela mãe ainda no berço e criada por seu pai, descendente de mexicanos.

Munido desse mosaico de personagens, situações e períodos temporais distintos, o realizador compõe quadros aparentemente herméticos que, com o desenvolvimento da narrativa, começam a se sobrepor, dando forma à equação que revela os resultados emocionais de atos e consequências; e expõe as incógnitas do enredo: as conexões entre os personagens.

O elenco tem atuações desequilibradas, com destaque para Charlize, que utiliza toda sua capacidade dramática para dar um choque hipotérmico em sua personagem (alienando-a de qualquer tipo de sensação), causado pela gélida dor que penetra no espírito de Sylvia. Destruída pela culpa e agrilhoada em arrependimentos do passado – uma versão feminina, e menos certinha, de James Stewart em “A felicidade não se compra” (1946), de Frank Capra − ela busca em comportamentos irresponsáveis e inconsequentes uma maneira de sentir alguma coisa, de lembrar-se de que, apesar de todos os erros que cometeu, está viva. Atriz talentosa, Charlize só derrapa, quase no final do filme, ao se tornar sentimental no tranco, um atropelo do roteiro que não compromete.

Ao interpretar Gina, a plastificada Kim Basinger, que segue à risca a cartilha da vaidade de Sophia Loren, procura dar força a uma mulher que, após ser acometida por um câncer – doença que, além de cicatrizes físicas, deixou rasgos profundos em sua autoestima − busca a felicidade em um caso extraconjugal, mas se sente dilacerada pela culpa: estremece de prazer e de medo. Só procura… Kim tem bons momentos, como quando revela ao amante seus dramas psicológicos (derivados das mazelas físicas), mas deixa a desejar. Fica longe do desempenho dramático de Diane Lane em “Infidelidade” (2002). Talvez por falta de uma entrega maior, que só ocorre pontualmente.

Arriaga, mexicano, gosta de brincar com as tensões étnicas em suas produções. Em “The burning…” elas estão lá, como pano de fundo de uma sociedade intolerante e hipócrita. O roteiro, cerzido pelas mãos de quem entende do assunto, é consistente e bem elaborado, e não permite que o montador coloque os pés pelas mãos – apesar da suposta complexidade, não deixa o público perdido em piruetas narrativas que só servem para confundir.

É interessante acompanhar a evolução de mais um roteirista competente que resolve se expor aos desafios da direção. “The burning…” é um trabalho que, apesar (das minhas) restrições – o desequilíbrio das atuações; o foco em determinadas circunstâncias secundárias; a suposta tomada de consciência de Sylvia depois de tantos anos, o que fica difícil de digerir −, merece ser conferido.

Ah, sim… Antes que me perguntem, eu respondo. Charlize Theron aparece como veio ao mundo no filme. Os paraguaios que me perdoem, mas, em tempos de Larissa Riquelme, sou mais a Charlize.

Carlos Eduardo Bacellar

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4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

4 Respostas para “Tratado atemporal sobre remorso e culpa

  1. Filme foda. Arriaga GÊNIO! Sério, eu AMO esse cara.

  2. Vi o trailer deste filme, mes passado, mas ainda não pude conferir.

    Confesso ser fã do trabalho de Theron.

    Parabéns pelo blog, linkei-o ao meu!

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