Bem-vindo ao inferno, escola de psicopatas

Dawn Wiener (Heather Matarazzo) encontra-se na sétima série do ensino fundamental de alguma escola americana na década de 1980. Retraída, inocente, introvertida, desajeitada e tímida, ela sonha em ser uma garota popular, apesar de não se enquadrar no padrão de beleza das meninas que fazem sucesso. Rotulada como esquisita (=diferente), ela sofre com as agressões físicas e psicológicas perpetradas pelos colegas de escola. Na linguagem moderna, Dawn é vítima de bullying.

Ao se defender, é tachada de antissocial, problemática e perturbada. Excluída das “panelas” − recheadas de comportamentos padronizados pela linha de montagem social da deformada juventude americana −, sofre com a solidão. Quem não teve sua cota de problemas à época do colégio que atire o primeiro Nauru, ou a primeira Revista Capricho. Em casa é preterida pela irmã mais nova (“ela consegue tudo tão fácil”), a queridinha da mamãe e do papai, e é esnobada pelo irmão mais velho, com quem não consegue estabelecer diálogo. O inferno existencial está armado.

Dawn é a inglória heroína do filme “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995), do diretor americano Todd Solondz, que também assina o roteiro. Transpirando autoralidade, Solondz se serve do título como metáfora para, utilizando a rotina da menina como microscópio sociológico, dissecar as aparências que encobrem horrores na classe média da sociedade americana. Amostragem do que o american way of life deixou de herança para as futuras gerações, a família de Dawn disfarça a implosão de seus valores com quilos de maquiagens à base de aparência e hipocrisia. Só que a alergia às muletas pseudomorais, que só servem como paliativo para uma situação insustentável, não tarda a parecer.

Cáustico, impiedoso e destilando seu humor negro atávico – que pode ser conferido em trabalhos posteriores, como “Felicidade” (1998), que alguns consideram sua obra-prima, e “Histórias proibidas” (2001) −, Solondz incomoda com um filme corajoso e perturbador.

Implacável, ele agride nosso conformismo cômodo ao radiografar a casa da família Dó-Ré-Mi e descobrir a metástase dos valores morais. Por baixo do verniz perfeccionista e da atmosfera artificial, as lentes de Solondz encontram a podridão sem cheiro, mas altamente ácida, de uma classe média fadada a desmoronar na alienação, no egoísmo e na falta de comunicação. E o combustível de alta octanagem da leviandade, à moda Scott Fitzgerald no livro “Este lado do paraíso”, acelera o deterioramento das relações humanas, que, na verdade, não passam de um teatro de fantoches.

Assistindo ao filme, um grito engasga em nossas gargantas: o que nós vamos legar para nossos filhos? Chega a ser irônica a escolha do nome e do sobrenome da protagonista: Dawn (que na tradução para o português significa amanhecer) e Wiener (mesma sonoridade de winner, que quer dizer vencedor[a] em nossa língua) respectivamente. Esse tipo de realidade é a escola de psicopatas do futuro. É o terreno fértil para que outros protagonistas de “Tiros em Columbine” (2002) ganhem as manchetes do noticiário.

O diretor integra um talentoso grupo de realizadores autorais americanos (formado por artistas de várias gerações) dos quais destaco Noah Baumbach, autor de “A lula e a baleia” (2005) e “Margot e o casamento (2007); Judd Apatow, na seara da comédia, arrebatando elogios com “O virgem de 40 anos” (2005) e “Ligeiramente grávidos” (2007); Courtney Hunt, diretora de “Rio congelado” (2008); Jim Jarmusch, o capitão das naus estéticas “Estranhos no paraíso” (1984) e “Down by Law” (1986); o oscarizado Jonathan Demme, que horrorizou os mais conservadores emplacando Anthony Hopkins no papel do psicopata canibal Hannibal Lecter em “O silêncio dos inocentes” (1991), e foi o responsável por organizar o “Casamento de Rachel” (2008); Alexander Payne, que conseguiu uma atuação antológica de Paul Giamati em “Sideways − entre umas e outras” (2004); e Rebecca Miller, responsável por “The privates lives of Pippa Lee” (2009), cujo título no Brasil é “Vidas cruzadas” – não se enganem com a capa do DVD, com Keanu Reeves e Monica Bellucci estampados abaixo do título. Apesar de o filme ser interessante, os dois só estão ali para te fisgar, já que interpretam papéis terciários.

Em 1996, “Bem-vindo à casa…” arrebatou o Grande Prêmio do Júri do Festival Sundance de Cinema, berço da autoralidade nos EUA que embala para o sucesso (ou não) produções independentes. O filme é de uma crueza arrepiante, mas necessária. Imperdível!

Carlos Eduardo Bacellar

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