Ninguém vive a paixão (pelo cinema) impunemente

“Os dias passam, meu corpo apodrece. Corpos apodrecem. Por isso nada sou senão palavras. Quando escrevo, me afirmo. Quando falo, ganho sentido. Quando penso, ganho corpo. Meu corpo é letra e linha. Meu corpo palavra.”

Com essas palavras Camila (Leandra Leal) começa a esboçar o primeiro parágrafo de seu livro. Livro que se confunde com seu blog que se confunde com sua vida.

A palavra é o início e a infinitude de “Nome próprio” (2008). Esmiuçada pelas lentes do diretor Murilo Salles (“Como nascem os anjos”, 1996), Leandra Leal se confunde com Camila que se confunde com a escritora gaúcha Clarah Averbuck – na obra literária de quem a produção é livremente inspirada − para dar corpo à montanha russa existencial da blogueira que sonha ser escritora. Ela estrutura-se como sujeito utilizando um esqueleto de palavras-cruzadas que a traceja para o mundo.

Partindo dessa premissa, e amparado no talento dramático de Leandra (atriz que se revela madura, repleta de possibilidades, explodindo numa miríade de emoções contraditórias), o cineasta consegue formatar, dentro da linguagem cinematográfica, embalado num invólucro contemporâneo, o ímpeto do fluxo de pensamento da protagonista.

Camila, uma náufraga social – que boia na singularidade de suas idiossincrasias −, comprime em pacotes de bytes o que existe de mais íntimo e incontrolável em seu ser, lançando-os em seguida no fluxo dinâmico da Internet, com a esperança de que eles sejam encontrados por leitores tão ávidos por terra firme quanto ela. Seu blog é uma continuação de seus desejos, aspirações, frustrações, desencantos, alegrias e tristezas – uma válvula de escape virtual para compartilhar com o vazio impessoal aquilo que excede sua capacidade de assimilação emocional, e que acaba transbordando para a rede. Ela abstrai-se de seu número de RG e se afirma por meio do seu endereço URL.

Na beira do abismo da indigência (material), ela constrói pontes de texto que a conectam com o mundo real, e a impedem de esvair-se em direção à loucura do anonimato/anonimato de loucura.

“Meu blog não é um diário. Aqui escrevo e ponto. Escrevo porque preciso, ou melhor, vivo porque escrevo.”

A exposição no ciberespaço como instrumento para virar do avesso a introspecção. Camila/Clarah é uma solitária apaixonada por algo que não consegue identificar. Abusando de relacionamentos efêmeros, muitas vezes inconsequentes, ela se deixa levar por seus impulsos em busca de algo que não consegue definir racionalmente.

Essa agonia, gerada pela insegurança, chacoalha seu equilíbrio emocional e a impele para comportamentos destrutivos – que objetivam anestesiá-la das agruras do mundo físico, real. Volúvel, explora sua personalidade hipertextual à procura do link Esc. Talvez um impulso abstrato de realização – afetiva/profissional/pessoal?

Só se sente segura nas idealizações que arquiteta em seu mundo virtual – seu Second Life. No momento em que se despe de seu escudo antiaproximação, e se entrega ao amor, suas ilusões virtuais são atropeladas pelas expectativas reais do outro, que, como um canhestro arquétipo de perfeição, se estilhaça na crueza da vida como ela é, e não como Camila quer que seja.

Cena que destaca a contradição dos tempos e valores é aquela na qual um fã de Camila, que a hospeda em sua casa, tira fotos da blogueira e se masturba com elas, enquanto a própria, bêbada e seminua, se encontra deitada, indefesa, logo atrás do punheteiro de plantão. A reprodução do real é mais afrodisíaca que a realidade em si. Sexo mais seguro que esse não existe.

Leandra Leal extrai com maestria do roteiro (creditado ao próprio diretor, à Melanie Dimantas e à Elena Soarez) as perturbações que exalam da literatura de consumo fácil da aspirante a escritora – mas que, paradoxalmente, faz aflorar a mais complexa paleta de feridas sentimentais de uma personagem incompleta, e que se alimenta dessa incompletude para criar. Ela alterna os altos e baixos de uma bipolaridade (aditivada por circunstâncias da vida) aguda – transitando com determinação hesitante o purgatório que leva da segurança ao desequilíbrio.

Não à toa, Leandra arrebatou os prêmios de melhor atriz no Festival de Gramado 2008 e na votação da Academia Brasileira de Cinema em 2009. Dá tesão − tal substantivo apimentado é usado com toda isenção, sem nenhuma relação com as cenas de nudez e sexo… Quem estou querendo enganar? O duplo sentido (respeitoso) nunca foi tão bem empregado − ver uma atriz abraçar de maneira tão intensa um papel. Nas mãos de outra pessoa menos talentosa e versátil, a força de Camila/Clarah se perderia na mera caricatura de uma versão poético-existencial falsificada da Martha Medeiros.

Especifico o que foi dito superficialmente no segundo parágrafo: O filme é produto da livre adaptação cinematográfica dos livros “Máquina de pinball” e “Vida de gato”, além de textos publicados na Internet, todo material fruto da entrega de Clarah Averbuck que, sem medo de ser piegas ou patética, expõe para leigos os resultados de ressonância magnética da sua alma. E não está nem aí para o que você acha ou deixa de achar disso. Garota corajosa, assim como Leandra.

Carlos Eduardo Bacellar

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1 comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Uma resposta para “Ninguém vive a paixão (pelo cinema) impunemente

  1. Adoro quando falam bem das pessoas talentosas. Tudo que quero é que talentosos bombem. Leandra é assim. Talentosíssima!

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