Desce salgado

Angelina Jolie é como uma daquelas bonecas russas (matrioskas). Dependendo da qualidade do roteiro que colocar à prova sua capacidade dramática, ela pode diminuir ou se agigantar, mas sempre mantendo a perfeição do layout (caras e bocas incluídas) que garante seu lugar no rol das mulheres mais desejadas do planeta.

Nos antípodas da exploração do seu talento, temos os ovacionados “Gia” (1998) e “A troca” (2008) de um lado, e os fracassos “Lara Croft: toda a franquia” e “Capitão Sky e o mundo do amanhã” (2004) de outro.

Protagonista de “Salt”, AR-15 estética do diretor australiano Phillip Noyce, com estreia marcada no Brasil para o dia 30 deste mês, Angelina se equilibra no meio da gangorra de um filme comercial que desliza no óleo de milho da ideologia americanoide ultrapassada – mas conta com a persona da estonteante mulher de Brad Pitt para faturar alguns milhões.

No thriller, Jolie é Evelyn Salt, uma agente da CIA que vê seu mundo desmoronar ao ser acusada por um desertor russo de trabalhar para o Kremlin como espiã infiltrada. Encurralada pela contundência do depoimento – que é alimentado pela paranoia dos “amigos” da CIA e do serviço secreto americano −, ela foge e utiliza seu know-how de 007 (sem permissão de sua consciência para matar) para tentar provar sua inocência. Mas seria ela realmente inocente? Sua cruzada à moda Jason Bourne talvez nos forneça a resposta.

Exumando o pânico latente da guerra fria, o roteiro extrai das sombras dos silos de mísseis abandonados um complô russo para destruir os EUA. Reavivando a bipolaridade que havia outrora, Rússia e EUA, catalisados pelo comportamento (pseudo)destrutivo e enigmático de Salt, entram novamente em conflitos diplomáticos, que evoluem regridem para dedos no gatilho e, logo depois, para autenticações biométricas que permitem o acesso aos arsenais nucleares.

Aí não faltam os clichês bélicos contemporâneos, bem ao estilo ianque, que travam como alvos dos mísseis nucleares locais como Irã e Meca (os novos vilões que atravancam o caminho para a liberdade ocidental). O ponto alto do filme é a ambiguidade partidária de Salt, o que impede um julgamento de valor preciso por parte do público logo de cara. Sem sabermos o que fala mais alto a Salt, o treinamento G.I. Jane que recebeu ou o seu coração, ficamos suspensos na corda bamba da dúvida que balança tensionada pela indefinição moral da agente – tal insegurança angustia e torna o personagem mais interessante.

As cenas de ação são muito bem exploradas e executadas e, não sei quanto a vocês, mas ainda não me cansei de fitar a Angelina. Tirando isso, é mais uma produção de milhões que mais parece (anti)propaganda para justificar a esquizofrenia da política externa americana (principalmente na era Bush) – e elevar os EUA ao status de bastião moral da democracia e liberdade mundiais. Funciona como entretenimento gratuito.

Spoiler!!! A cena que nos coloca como testemunhas da troca de Salt, capturada e torturada por forças norte coreanas, por um espião de Kim Jong-il é sintomática da imagem torta que os americanos tentam vender para o mundo: enquanto Salt é desovada toda arrebentada, com marcas patentes de sevícia, o espião norte coreano é recebido por seus compatriotas incólume, trajando terno. Parecia que tinha saído do Werner Coiffeur. Piada de mau gosto do Tio Sam em tempos de crise econômica e política nos States. Espero que a interpretação desses sinais esteja equivocada, e que tudo não passe de um rocambolesco divertimento descompromissado.

Carlos Eduardo Bacellar

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