Canibal Cult

Cercado por uma multidão, o odor nauseabundo de carniça toma conta. Muitas mãos imobilizam seus membros até sua carne ser rasgada por dentes podres e você ver que alguém de olhos vazios e expressão serena mastiga suas tripas. E se por milagre escapar desse destino terrível e das hordas lá fora, nas quais você reconhece seus pais e irmãos, verá a cidade em chamas e sua única certeza será a desesperança do fim do mundo. Eu disse milagre? Deus não existe.

No mundo pós-bomba atômica, nenhuma alegoria foi tão expressiva e completa quanto a do zumbi. Quem é que vai ter medo de um espírito errante numa casa velha ou de um psicopata fugido quando multidões canibais apodrecidas infestam das casas às igrejas? Dois elementos básicos aparecem no filme clássico de mortos ambulantes: o homem lobo do homem e o fim da sociedade.

Um ser morto que volta à atividade é uma coisa macabra por si, mas, quando isso acontece, a criatura não fica a mesma. Um tipo de apatia sanguinolenta toma conta dela, seja numa ressuscitação científica como em “Re-animator” (filme de 1985 baseado em obra do mestre H.P. Lovecraft), ou mística como em “Cemitério Maldito” (1989, do, por que não?, também mestre Stephen King).

Mas esses dois, apesar de falarem sobre mortos reanimados assassinos, não podem ser classificados como filmes de morto-vivo. Está faltando o contágio, que é a base para a propagação da epidemia e a consequente queda da civilização. Por isso, temos a síntese do tema consagrada na trilogia clássica de George Andrew Romero: “Noite”, “Amanhecer” e “Dia dos Mortos” (filmes de 1968, 78 e 85, respectivamente)1.

A trilogia explora a incapacidade da ciência para explicar o que está acontecendo, já que ninguém sabe o que traz os mortos de volta. Essa ignorância da avançada cultura ocidental talvez rivalize em terror com os próprios mortos e suas ofensivas. Também vemos nas obras o antes, durante e após a derrocada do mundo dos homens. E Romero fixa as “regras básicas”: o zumbi é eliminado com golpes na cabeça, e se ele te morder, já era, você se tornará um.

Ao longo das últimas décadas houve pouca variação dos elementos, incluindo a exploração comercial das tripas e esqueletos em diversas peças cinematográficas, na sua maioria B. Mas esse aparente preconceito contra os zumbis era uma energia contida, prestes a aflorar. Em “Extermínio” (2002, de Danny Boyle2), o diretor dá uma revigorada, tratando o tema com nova seriedade, apresentando os infectados. Os zumbis não são mortos, mas pessoas infectadas por um vírus de facílima contaminação, a partir daí tomadas por uma irascibilidade furiosa e insana, atacando violentamente quem quer que cruze seu caminho. Acho que no início do século XXI morto-vivo era uma coisa meio ridícula, e a infecção biológica torna-se um elemento de verossimilhança, atualíssimo, resgatando o terror.

Mas o mais interessante é notar que dois dos filmes mais recentes sobre zumbis são comédias. Longe de serem sátiras, o inglês “Shaun of the Dead”3 (2004, de Edgar Wright, com os impagáveis Simon Pegg e Nick Frost) e o estadunidense “Zombieland” (2009, de Ruben Fleischer com Woody Harrelson) soam mais como tributos. Ambos exploram os elementos dos clássicos com humor e estética gore, tirando sarro, mas não do gênero. Usam a temática pra fazer comédia, em tiradas muitas vezes metatextuais4.

Se você der uma pesquisada, vai ver uma porção de filmes B recentes (alguns BB: bem Bês) de morto-vivo. Será que essas não são provas do valor da metáfora para o mundo contemporâneo? O zumbi é o mito de terror pós-moderno por excelência. Afinal, nosso mundo de ciência, dominador da natureza, só nos deixa uma alternativa de destruição: a autodestruição. E, tal qual as milhares de ogivas termonucleares nas cabeças fálicas dos mísseis intercontinentais, essa destruição não simboliza nada particular, mas sim a possibilidade material real da completa e irreversível aniquilação. Nós seremos os arautos de nosso apocalipse.

Além disso, o morto ambulante enquanto drama lança um olhar sobre algo que eu chamo de tratamento estatístico da pessoa. A estatística é a ferramenta dos capitalistas e políticos para lidar com as pessoas de forma despersonalizada, aplicando supostas “leis” científicas a sentimentos e vontades. A multidão zumbi e seu comportamento terrivelmente uniforme e desalmado refletem a massa humana e o anonimato que ela traz. Nós, os mocinhos, tentamos fugir dessa onda, preservando nossas humanidade e individualidade.

Uma pessoa num arrastão pode matar outra durante o frenesi coletivo de uma briga de torcidas. Anônimo e desalmado… Quase impessoal, como as “regras” vomitadas todos os dias para a massa. Será que a Copa do Mundo é mesmo tão legal? Será que nunca mesmo devemos nos automedicar? E, em tempo, dar umas palmadas no seu filho birrento? Cuidado com os zumbis!

Cristiano Kusbick Poll


1Na verdade, o primeiro chama-se “Noite dos Mortos-vivos” e é PB. “Amanhecer” ou “Madrugada dos Mortos” tem um ótimo remake de 2004, dirigido por Zack Snyder.

2 No começo do filme há  um tributo a Romero, quando o protagonista vaga por Londres deserta gritando “Hello”, situação de Dia dos Mortos.

 

3 Eu me nego a usar o título brasileiro: “Todo mundo quase morto!”. O original é um trocadilho, usando o nome do protagonista, Shaun, e o título de “Amanhecer dos Mortos” (Dawn).

 

4 Ambos os filmes também traduzem perfeitamente as particularidades da comédia britânica vs americana.

DICA: Pra quem curte gibi, “The Walking Dead”, “Os Mortos-vivos”, série publicada no Brasil pela Editora HQM, é ótimo, vale muito a pena.

 

NOTA: O representante tupiniquim do gênero é “Capital dos Mortos” (2008), de Tiago Belotti, bêzão criativo que se passa em Brasília, e vale a pena prestigiar.

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2 Comentários

Arquivado em Cristiano Kusbick Poll, Estranhos no ninho

2 Respostas para “Canibal Cult

  1. Eu nunca gostei muito de filmes do estilo, apesar de ter visto filmes do gênero.
    Ah, adorei a “aula”…
    Abraço

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