Uma noite que não será esquecida

O Teatro Paramount, em São Paulo, foi arena da final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, realizado em 1967. Coqueluches de uma época − entre 1965 e 1972, o Brasil viveu o auge do que ficou conhecido como a Era dos Festivais −, os festivais de auditório eram o entretenimento que foi substituído, mais tarde, pela força sedutora das telenovelas (mas que ainda hoje reverberam em nossos tímpanos na melodia de enlatados alienígenas como American Idol).

O mesmo frio na barriga experimentado pelos cantores e músicos daquele espetáculo, que movimentou a opinião pública brasileira, deve encontrar ecos nas entranhas dos diretores estreantes Renato Terra e Ricardo Calil, que, na próxima sexta-feira (30/7), levantam as cortinas das salas de exibição de todo país para apresentar o documentário “Uma noite em 67”, um convite para (re)viver a final do Festival da Record que marcou uma época e foi a incubadora de novas tendências na música brasileira.

Terra, publicitário, e Calil, jornalista e crítico de cinema, garimparam na TV Record – que acabou entrando de parceira no projeto com a Record Entretenimento − imagens de arquivo acerca do festival com o objetivo de recriar aquela experiência para o público de hoje.

Entre os 12 finalistas de 67, Chico Buarque e o MPB 4 vinham com “Roda Viva”; Caetano Veloso, com “Alegria, Alegria”’; Gilberto Gil e os Mutantes, com “Domingo no Parque”; Edu Lobo, com “Ponteio”; Roberto Carlos, com o samba “Maria, Carnaval e Cinzas”; e Sérgio Ricardo, com “Beto Bom de Bola”. A disputa foi tão acirrada que, além de entrar para a história da música popular brasileira, suscitou cenas folclóricas como a de Sérgio Ricardo quebrando seu violão após sua apresentação ser  engolida pelas vaias do público.

Assim como as telenovelas, os festivais precisam de núcleos dramáticos definidos para funcionar, de forma a emularem um espetáculo de luta livre. Essa é a fórmula de sucesso segundo um dos organizadores do festival, que disse serem necessárias as figuras caricatas do mocinho e do vilão como protagonistas do evento. E o público teve tudo isso e muito mais – a paleta teatral completa.

Outra nota 10 do júri técnico: Terra e Calil (que não se contentam com o trivial) nos levam aos bastidores do festival incrementando o doc com registros da movimentação que ocorria atrás da ribalta. Randal Juliano, Cidinha Campos e Reali Júnior esbanjam espirituosidade ao entrevistar futuros monstros da MPB, meros garotos à época. Eles araram e semearam o solo para que figuras como Amaury Jr. pudessem germinar no futuro – e levar a um outro nível a exploração da indústria de celebridades.

No doc, riqueza musical se entrelaça com os anseios políticos de uma geração engessada pelos anos de chumbo, e que encontra na música uma forma de extravasar desilusões e alimentar paixões. A demagogia que engrossava as paredes do cárcere das convicções foi suplantada pela retórica musical livre de preconceitos. Naquele “show de calouros” surgiriam as dissensões na MPB; o tropicalismo seria adubado pelo interesse obsessivo de Gil e pela tenacidade de Caetano; experimentalismos seriam colocados em prática; contestações veladas ao regime permeariam as letras, provocando brados, arrancando lágrimas e fazendo sangrar corações irredutíveis; e encontros antológicos fomentariam o cenário musical brasileiro.

O grande acerto da dupla de diretores foi deixar que as imagens transmitissem o clima da época, evitando o pedantismo autoral (indesejado) ou o proselitismo embotado. Os trechos com as músicas que estavam na boca do povo (e na cabeça da crítica e dos jurados) foram executados na íntegra. Depoimentos atuais (bem dosados) dos personagens que participaram do festival intercalam os registros em preto e branco, fortalecendo as gravações do certame musical ao explorar as transformações e contradições ideológicas dos personagens envolvidos.

As emoções da plateia do Teatro Paramount (uma das personagens principais do doc) são espelhadas pelo público que confere a produção na sala escura. Um trabalho contagiante que merece um olhar atento – tanto pela importância do registro de um recorte de época como pela qualidade e paixão com que foi elaborado.

Carlos Eduardo Bacellar

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