Arquivo do mês: agosto 2010

Filho: o terceiro passageiro

A incipiente trajetória da diretora alemã Emily Atef não se traduz em acanhamento. Muito pelo contrário. Com apenas quatro filmes no seu currículo de realizadora, Emily se muniu de coragem e ousadia para tratar de um tema repleto de espinhos proibitivos em sociedades conservadoras: a depressão pós-parto.

“O estranho em mim” (2008), filme que acaba de ter uma estreia discreta no circuito exibidor, é um marco da militância contra tabus que precisam ser desmitificados, sob pena de a sociedade infeccionar no silêncio da vergonha estúpida.

Rebbecca (a superlativa Susanne Wolff) e seu marido Julian (Johann von Bülow) aguardam, cheios de expectativa, o nascimento do primeiro filho. Logo após o parto, Rebecca sente seus instintos maternos serem obliterados por uma frustração inexplicável. Invadida por um sentimento de repulsa, ela se afasta de seu filho e se torna uma mãe negligente e alienada.

Sem entender como lidar com o desfacelamento de seu elo com a criança, e fechando-se em copas, temendo a reação dos outros, ela escamoteia suas atitudes (que traduzem sua fragmentação interna) até perceber que seu comportamento está colocando o filho em risco.

Após entrar em colapso emocional, é internada numa clínica especializada e, com a cética e tímida ajuda do marido, é estimulada a reconstruir, com o auxílio das células-tronco da compreensão e abnegação, o cordão umbilical do amor incondicional que degenerou por causa da doença.

Atenção para esta atriz germânica chamada Susanne Wolff. Expressando com o olhar o desespero de uma mãe que sente um embaraço corrosivo ao ir contra a sua natureza, ela transparece toda a agonia esfacelante de ter que pedir socorro por um acidente que cometeu conscientemente. Seus desvios antinaturais de conduta, frutos do desequilibrado estado psicológico, soam o alarme para que Rebbecca reconheça seu problema e sinalize por ajuda.

Fácil é não fazer. Mas Rebbecca escolhe o caminho mais difícil: o da reabilitação filial e mental.

Além da ligação com seu filho, ela precisará enfrentar o preconceito dos parentes mais próximos e reconstruir sua intimidade conjugal. Inibida pela vergonha, consternada pela censura de seu meio familiar e obstaculizada pela insegurança e desconfiança do marido − envenenado pela descrença, mas motivado pelo conceito de família − ela trava um combate mudo − mas tenaz − em três frentes para readquirir seu direito de ser mãe e mulher.

Um filmaço! “Das fremde in mir” (no original) é o “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (2007) alemão. Incomoda e perturba, mas desopila e engrandece. Um remédio amargo para os espíritos pobres, degenerados pela hipocrisia moral.

Carlos Eduardo Bacellar

Anúncios

4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Nasce uma diretora

Helen Hunt estreia na direção de longas demonstrando o mesmo talento, maturidade e segurança que esbanja em seus trabalhos como atriz.

Em “Quando me apaixono” (“Then she found me”, no original), filme de 2007 que chega tardiamente ao circuito exibidor nacional, Helen arquiteta o estresse emocional de April Epner, professora do ensino infantil que, de uma tacada só, é abandonada pelo marido Bem (Matthew “Ferris Bueller” Broderick), sofre com a morte da mãe, descobre a verdadeira identidade de sua mãe biológica (a impagável Bette Midler) e é cortejada pelo galã cinquentão Frank (Colin Firth), que traz a tiracolo dois pimpolhos de um casamento frustrado.

Criada na religião judaica, April questiona sua fé ao tentar equilibrar suas oscilações sentimentais com as desilusões de um sonho antigo: a vontade de engravidar. Dividida entre os desejos da pele e do coração, Helen relativiza o conceito de fidelidade e ilustra com sensibilidade a angústia de uma mulher que deseja estabilizar sua vida, mas não consegue interpretar os sinais das circunstâncias e do acaso e focar no que é melhor para ela.

Utilizando como matriz um excelente roteiro – o qual Helen também assina, juntamente com Alice Arlen e Victor Levin – a diretora consegue de Colin Firth o que ele tem de melhor: o ator inglês (delira, Helena!) encarna como ninguém o papel do romântico banana que traz agregado à sua timidez o ruído de sua comunicação afetiva. Ou seja, ele se torna irresistível para a mulherada.

“A Helen Hunt até que é gatinha, mas o meu coração palpita mais forte por outra Helena — aquela dos trópicos, produtora de cinema que fala Português. Por isso aceitei o papel em ‘Love actually’ e me esforcei tanto para arranhar o idioma de Camões.”

Helen Hunt − no que talvez seja o melhor papel de sua carreira −, desgastada e crua devido à inexorabilidade do tempo e (graças a Deus!) à ausência de plásticas, desmistifica o ícone feminino hollywoodiano e traz à baila os dilemas de uma mulher de verdade, de carne e osso, que poderia muito bem ser sua vizinha. Com total domínio do olhar e da expressão corporal, a atriz encurta a distância que separa a encenação do ceticismo do público; e traduz em gestos os dilemas morais que atormentam sua personagem, tornando-a humana.

Temperando humor e drama/paixão e decepção na medida certa, “Quando…” é tragicômico e irresistível como a vida.

PQP! Eu sou doido por cinema! Pronto… Desabafei…

Carlos Eduardo Bacellar

9 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

A ilha de ‘Lost’ de Claude Chabrol

Quem acha que Jeffrey Lieber, J. J. Abrams e Damon Lindelof, os criadores de Lost, descobriram a pólvora com o seriado que supostamente revolucionou o formato devereria assistir ao filme “Alice ou a última escapada” (1977), do cineasta francês Claude Chabrol e mudar seus conceitos.

Na produção em questão, a matriz da ilha enigmática é uma casa perdida no meio do nada na qual a personagem da atriz Sylvia Kristel — Alice Carol (um chá com biscoitos para quem adivinhar de qual obra literária ele esse sorveu esse nome “criativo”) — encontra seu limbo espiritual.

Chabrol aposta num mashup de nonsense com referências espíritas, e cria uma obra estética no mínimo interessante. Uma versão sombria das aventuras de Alice no país das maravilhas com pitadas de Alice através do espelho.

No televisão, bem como no cinema nos últimos tempos,  nada se cria, nada se perde, tudo se transforma para dar lucro.

Não se preocupem. O vídeo, assim como a série da grife J. J. Abrams, não fornece nenhuma resposta. Eu copiei da série a armadilha narrativa que mantém todo mundo interessado no que vem depois. Respostas? Para quê? Elas são só um detalhe.

O mais importante é passar horas na frente da televisão consumindo as mensagens dos anunciantes. O que fazemos com o maior prazer.

Carlos Eduardo Bacellar

Deixe um comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Faroeste caboclo

Em homenagem a Paulo Henrique Souto, militante incansável do Cinema Brasileiro.

Marco Ricca debuta na direção com uma história de amor, ódio e traição regada a sangue, suor, lágrimas e balas. Não necessariamente nessa ordem.

Situado no Centro-Oeste do Brasil, região que faz fronteira com Bolívia e Paraguai, o que a torna estratégica para a rota do tráfico, o enredo – baseado no livro homônimo de Marçal Aquino, o cronista das idiossincrasias da alma − deste faroeste que fala portunhol nos apresenta a Miro (Fúlvio Stefanini) — o Marlon Brando decadente de uma região árida na qual a lei é feita com a arbitrariedade armada — e Abílio (Otávio Muller), dois irmãos pecuaristas que turbinam a renda investindo em negócios escusos.

Miro, o poderoso chefão de um núcleo familiar que ele tenta controlar com mão de ferro, personifica o declínio do coronelismo (transpirando toda sua ambiguidade moral) que teima em existir nos recônditos de um Brasil complexo e multifacetado. Mas, para a infelicidade do patriarca, existe um novo xerife no cerrado, que atende pelo nome de repressão federal.

Adstringido pela atuação da polícia, Miro resolve descontinuar o braço ilícito de suas atividades, mas topa com o inconformismo de Abílio, que pretende assumir os negócios da família e intensificar as transações. Em meio às crises com a justiça, Miro ainda precisa lidar com o ocaso de seu casamento e com o romance clandestino entre sua filha Elaine (a apaixonante Alice Braga) e o piloto Dênis (Daniel Hendler), elemento de desequilíbrio entre o amor filial e o carnal – e por quem Abílio alimenta desejos homossexuais.

Títeres dos jogos de poder, esgarçados entre duas montanhas de banha afogadas em dinheiro, os dois pistoleiros que trabalham para a família (Eduardo Moscovis e Cássio Gabus Mendes) representam o dedo nervoso no gatilho que não é mais suficiente para apagar os problemas dos irmãos sem deixar rastros de pólvora.

Du Moscovis encarna um João de Santo Cristo que perde sua Maria Lúcia — a perdição Via Negromonte — por causa de sua truculência e incomunicabilidade emocional. Calejado pela vida bandida, ele passa a acreditar no amor tarde demais. Já Gabus Mendes é o RG do ceticismo e da praticidade: tudo vale a pena, desde que seja a seu favor. Desapegado e pragmático, ele reza na cartilha dos seus próprios interesses.

Suspensos em uma atmosfera carregada de eletricidade estática − na qual o tempo cronológico e psicológico são gritantemente diferentes −, os personagens são devassados pelas câmeras ao se entregarem à introspecção. Frustração, arrependimento, redenção e vingança se misturam com a poeira do cerrado e ressecam nossas retinas, produzindo lágrimas de tensão e angústia. Uma dança da morte descompassada, que tem lugar numa região inóspita, protagonizada por pessoas que buscam significados para a indigência sentimental.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Eu gostaria de nunca mais entrar numa sala de cinema na qual somente 17 pessoas prestigiam um filme nacional.

3 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

A tomada do centro pelas margens

O cinema, arte na qual realidade e ficção se misturam, recebe de braços abertos, nesta sexta (27/8), o filme “Cinco vezes favela, agora por nós mesmos”, que utiliza como tubo de ensaio estético as favelas – “local onde o certo e o errado se confundem” – e seus moradores.

Produzido (somente produzido) por Cacá Diegues e Renata de Almeida Magalhães, “5x favela…”, longa formado por 5 filmes de ficção,  foi escrito, dirigido e realizado por jovens cineastas moradores de favelas do Rio de Janeiro, treinados e capacitados a partir de oficinas profissionalizantes de audiovisual.

As câmeras, nas mãos de quem mais compreende o contexto social que está em foco, não folclorizam a favela. Os roteiros, autoirônicos e bem-humorados, quebram expectativas e desmoronam estereótipos carregados de preconceitos.

A violência perpassa todos os projetos, mas não como protagonista da encenação, e sim como agente catalisador de comportamentos (reprováveis com base em quais valores morais?) moldados pelas dificuldades e restrições.

Mocinhos e vilões se confundem em uma parábola da sobrevivência amparada, muitas vezes, na sabedoria popular: farinha pouca, meu pirão primeiro.

A sensibilidade dos jovens diretores impressiona. Por meio da arte, eles conseguiram ilustrar as ambiguidades de uma situação esgarçada por forças polarizadoras. Adstringidos (essa é em sua homenagem, R.F.) pelas vicissitudes de uma rotina dura e castradora, os realizadores frequentemente impeliram seus protagonistas a extrapolar os limites da legalidade – encharcada de burocracia e falta de discernimento −, mas mantendo-os dentro da fronteira da moralidade.

Trabalho(s) agridoce(s) de qualidade que serve(m) de estímulo para uma garotada muitas vezes amordaçada pela falta de oportunidades e crueldade das circunstâncias. A turma passou com grau 10. “5x favela …” merece todo o nosso carinho. Um filme de importância inegável, mas também engendrado com dedicação e apuro inquestionáveis.

Os cinco filmes foram realizados em favelas do Rio de Janeiro, a partir de parcerias com organizações culturais de moradores: CUFA (em Cidade de Deus), Nós do Morro (no Vidigal), Observatório de Favelas (no Complexo da Maré), AfroReggae (em Parada de  Lucas) e Cidadela/Cinemaneiro (com sede na Lapa, reunindo moradores de várias favelas da Linha Amarela).

Carlos Eduardo Bacellar

2 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

Era uma vez… Jane Campion

“Brilho de uma Paixão” (Bright Star, 2009) não é um filmaço, nem chega aos pés de “O Piano” (The Piano, 1993), mas o talento de Jane Campion faz crescer os olhos. Se não fosse pela diretora neo-zelandesa, a obra seria (muito provavelmente) mais uma daquelas que retratam histórias de amor entre “desiguais”, como “A Bela e a Fera” ou “Era Uma Vez” (do Breno Silveira). Mas não. Cada olhar, gesto, figurino, adereço tem razão de ser (e existir) no “romance”  entre o poeta (pobre) John Keats (Ben Whishaw) e a moça (rica) Fanny Brawne (Abbie Cornish). E embalam a cena quando palavras, floreadas de tratamentos, confundem pureza/castidade e insinuação/desejo entre os potenciais amantes.

Helena Sroulevich

P.S. Embora meu companheiro de blog já tenha falado do filme, resolvi escrever. É a segunda vez na semana que discordo radicalmente dele  acerca de uma obra: ele odiou “Brilho de uma Paixão”; eu já acho que dá um caldo… “A Origem” foi aclamada por ele. Pra mim, não passa de um devaneio aborrecente… E vamos celebrando as diferenças!

6 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Helena Sroulevich, Quase uma Brastemp

Violência urbana no Rio: os anjos que sobreviveram à barbárie social

Manchete de capa da Editoria Rio do jornal O Globo de hoje:

Tráfico leva terror a São Conrado

Após intenso confronto com policiais militares, bandidos invadem hotel e fazem 35 reféns

A vida ratifica a arte. Ao se deixarem envenenar pelas iniquidades sociais, anjos perdem as asas da inocência e dos valores morais. Valendo-se de armas e drogas como muletas, capengam para uma macabra exposição pública.

Proscritos da vida em sociedade – o céu burguês, o qual são impedidos de tangenciar − e despojados da dignidade, sofreram a ablação da humanidade.

O problema transcende a simples contenção do gueto, que não passa de um paliativo, amparado na força bruta, com o objetivo de criar um cinturão de pseudossegurança visando à Copa do Mundo e às Olimpíadas.

A disparidade gritante, com raízes profundas em questões estruturais como educação, saúde, oportunidades decentes de trabalho, distribuição de renda menos desigual, ou seja, todo o necessário para proporcionar ao cidadão condições dignas − é a catalisadora dos atritos entre asfalto e morro. O contraste que fricciona as fronteiras aumenta os tons de vermelho derramados nos dois lados.

Não é difícil detectar os níveis mais superficiais de indignação. Um adolescente abonado que estuda num colégio de elite, calçando um tênis de R$ 500,00, é um acinte para um garoto descalço que muitas vezes não tem o que comer. Seu mundo fatalmente irá desmoronar – situação que se torna mais aguda pela falta de perspectivas. A proximidade entre as duas realidades é a faísca que o tonel dos efeitos inflamáveis da discrepância social precisa para se incendiar. É neste momento que os anjos começam a ser abortados e catequizados na filosofia partidária do mundo cão.

Perto dos olhos da classe dominante, perto de uma artéria vital. Só mesmo disparos de fuzil no meio de um bairro de classe média alta para causar hemorragia em nossa indiferença e egoísmo.

Assista ao filme do Murilo Salles. O diretor demonstra com muita competência que a realidade é mais complexa e triste do que aparenta. E ela começa a apodrecer cedo.

Carlos Eduardo Bacellar

2 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Uncategorized