Cortem-lhe a cabeça!

O selo Lume Filmes acaba de nos presentear com “Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia” (1974), obra de David Samuel Peckinpah (1925-1984), estuprador de retinas sensíveis que, munido de seu estilo inconfundível – traço estético que o consagrou como o poeta da violência −, elabora uma narrativa acerca das atitudes amorais que acometem o ser humano em determinadas circunstâncias. O filme é uma das apostas da distribuidora, com sede no Maranhão, para aquecer o mercado de DVDs alternativos.

Nessa produção pouco badalada de Peckinpah, mais conhecido por obras como “Cruz de ferro” (1977), “Sob o domínio do medo” (1971) e “Meu ódio será sua herança” (1969), o diretor americano explora a putrefação dos valores morais, corroídos pela acidez da mesquinharia humana, por meio de uma trama bizarra, para dizer o mínimo.

Ao ser deflorada e engravidar de um Don Juan local, situação que colocou suas virtudes sob suspeita, a filha de um abastado latifundiário mexicano é pressionada pelo pai (Emilio Fernández) a revelar o nome do homem que a desencaminhou. Estimulada “carinhosamente” pelos jagunços de El Jefe, ela confessa que o DNA de seu futuro rebento possui cromossomos de Alfredo Garcia. Como por aquelas bandas honra maculada deve ser lavada com sangue, muito sangue, o furioso progenitor oferece uma recompensa de US$ 1 milhão pela cabeça do dito cujo. E quando digo a cabeça, falo no sentido literal, não metafórico: como uma Rainha de Copas ensandecida, o sujeito quer como prova do homicídio o souvenir fruto da decapitação do pai de seu netinho. Logo abaixo da palavra Procurado, tatuada com pólvora na foto de Alfredo Garcia, lia-se Cortem-lhe a cabeça!

Na caçada a Alfredo, os emissários da morte do latifundiário se deparam com o músico fracassado Bennie (Warren Oates), que fica curioso com o interesse de pessoas tão refinadas pelo estado de saúde de Garcia. Arrivista nato, Bennie fareja a oportunidade de acertar na loteria, e resolve entrar na jogada (ou roubada). Ele se junta à prostituta Elita (Isela Vega), amante de Garcia, ao descobrir que ela conhece o paradeiro do perseguido, ou melhor, do cadáver dele, já que a vida do pobre diabo foi ceifada num acidente de carro.

Bennie (Warren Oates) exibindo toda sua cafajestagem, com direito a bigode safado, roupas que deixariam Glória Kalil de cabelos em pé e óculos escuros

A partir daí, o que as câmeras de Peckinpah registram é a degeneração de um indivíduo que venderia a própria mãe para conseguir alguns dólares. Elita, que aposta numa cruzada perdida por amor, é a consciência moral que teima em servir como contraponto à perda de escrúpulos progressiva de Bennie.

Tudo que tornou célebre o diretor está lá: o cinema realista cheio de violência (não gratuita, mas inerente à manipulação fluida dos caracteres de seus personagens); as tomadas em câmera lenta, que Quentin Tarantino incorporou em suas vitaminas estéticas; o mundo deserdado de mitos, mas repletos de homens comuns e suas contradições, defeitos e qualidades; o ataque à moral hipócrita (como forma de tentar redimi-la, ou sublinhá-la com sangue) da sociedade burguesa, mas atropelando moralismos; as reflexões de personagens dilapidados de seus valores pelas vicissitudes que atravancam seus caminhos, suas escolhas, decisões, tomadas éticas e perturbações dali decorrentes.

Peckinpah é um mestre, uma versão rodriguiana ianque que se inclinou para o cinema, optando pela dialética do movimento. Chocante, seco e direto, ele procura formas diferentes de levar o homem ao seu limite, de modo a observar suas reações em ambientes extremos. Dustin Hoffman que o diga. Em “Sob o domínio do medo”, ele incorpora todo o seu primitivismo no pacato protagonista (David Sumner) que é colocado numa ratoeira estética. A claustrofobia provocada pela fúria cega de terceiros obriga David a extravasar o que existe de mais desumano para sobreviver. Em “Tragam-me…”, a ratoeira se chama cobiça. Podemos dizer que Peckinpah faz coro a uma leitura existencialista do marxismo, segundo a qual o homem é produto do meio em que vive. Ou seja, a bestialização é só uma questão de fornecer o substrato certo.

Devastado pela bebida (o álcool atiçando seus fantasmas internos), erigiu uma obra indigesta para os mais conservadores e puritanos, mas verdadeira em sua essência crua, despida de qualquer pudor ao retratar o mundo como ele é – um grito grotesco para que não nos esqueçamos de como ele deveria ser.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Só o que me incomoda um pouco nos primeiros filmes do diretor é aquele Plasticor vermelho que ele utilizou como sangue. Trash!

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1 comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Uma resposta para “Cortem-lhe a cabeça!

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