Anatomia da loucura

“Amor é uma palavra muito grande. Poucos podem se dar ao luxo de o ter conhecido.”

A chocante e indelével cena em “Irreversível” (2002), na qual a personagem incorporada pela atriz Monica Bellucci é estuprada em uma passagem subterrânea, é o cartão de visitas da ousada e perturbadora cinematografia do diretor e roteirista franco-argentino Gaspar Noé.

Polêmico e ácido na construção de seus roteiros, utilizando suas câmeras como testemunhas (omissas) – ou abutres ávidos por carniça − da exacerbação do lado negro do ser humano, o que muitas vezes o relega a seções, nas locadoras, de diretores que certamente seriam reprovados em exames psicotécnicos (setores que contemplam realizadores rorschachianos* como Quentin Tarantino, John Waters, Bigas Luna, David Cronenberg e Lars Von Trier), Noé possui obras de inquestionável qualidade estética, mas pouco difundidas. Mesmo tendo seu talento reconhecido no circuito mais autoral, seus trabalhos continuam sendo negligenciados pelos mais suscetíveis. Mas sem dúvida é um dos gênios do circuito marginal alternativo.

“Sozinho contra todos” (1998) é uma dessas produções que incomoda públicos acostumados com enredos mais leves, como o de “A noviça rebelde” (1965). Nada contra o filme de Robert Wise, muito menos contra a noviça imortalizada por Julie Andrews, só para deixar claro. Digamos que “Sozinho…” é um filme que não seria a pedida mais inteligente para um encontro romântico ou uma tarde de entretenimento com a família.

Depressiva e patética, a produção de Noé trata da história do açougueiro John Doe (ou seja, impessoalizado pela insignificância com que o diretor o ungiu), interpretado pelo excelente Philippe Nahon. Abandonado pela mãe aos 2 anos, ficou órfão de pai durante a segunda grande guerra. Com 6 anos, descobriu que seu pai foi um militante comunista executado num campo de concentração na Alemanha nazista. Após uma vida de sacrifícios, ele experimentou breve período de prosperidade administrando seu próprio negócio, mas agora se encontra no fundo do poço de “O chamado” (2002) – situação que teve como estopim uma atitude intempestiva −, digladiando-se com seus monstros internos.

“Nascer contra a sua vontade. Comer. Enfiar a pica. Dar vida. E morrer. A vida é um grande vazio. Sempre o foi e sempre o será.”

Fruto de um lar estilhaçado pelas contingências do mundo cão, e pai de uma menina por quem nutre desejos doentios, ele acaba preso ao interpretar de forma equivocada a mácula do desabrochamento de sua filha para a vida adulta. O ciúme se confunde com honra que se confunde com dever paterno catalisando uma fúria que ele resolve externar, com a sensibilidade de Michael Myers, no primeiro infeliz que aparece em seu caminho.

Após cumprir pena, destituído de todos os bens que possuía (materiais e imateriais) ele luta, desesperançoso, para conseguir encher a barriga e sobreviver até o dia seguinte. Pária social, torna-se um fantasma em uma França devastada pela guerra e seus reflexos. Acaba mergulhando na areia movediça de um segundo relacionamento, e encomenda um novo rebento. Enfurnado na casa da sogra com sua broxante mulher, padece na mediocridade e na falta de perspectivas de sua vida. Ele mesmo define sua existência como “um sombrio túnel.”

“Foder não vale a pena. Sai muito caro.”

O açougueiro, externamente um banana ao estilo do matemático David Sumner, em “Sob o domínio do medo” (1971), por dentro é consumido pela caldeira da fúria alimentada por recalques, sentimentos xenófobos e homófobos, ojeriza à classe burguesa (que enxerga como algozes dos menos favorecidos) e frustrações destrutivas. Ele acaba fechando-se num mundo de esquizofrenia que o torna cada vez mais selvagem e perigoso. A narração em off acompanha o mergulho do homem na perda de si mesmo; ilustra seu distanciamento do sujeito que um dia foi – mas, agora, quase esvaziado de sua humanidade pela perda da fé no homem e em suas instituições, torna-se somente id, relegando ego e superego ao limbo.

Gaspar Noé aduba a loucura crescente do personagem até o ponto em que os frutos podres da autodestruição envenenam a alma do açougueiro com os vermes da perda do bom-senso. O fluxo de pensamento que embaça a mente doentia do protagonista, nutrido pelo desespero, é como um jorro de facas em sua autoestima e seu amor próprio, e funciona para ele como justificativa para sua situação de indigência.

A fotografia, carregada de tonalidades sépia, acompanha a decrepitude da realidade sombria projetada pela degeneração psicológica do protagonista. As lentes de Dominique Colin dão a conotação de um livro há muito fechado, com uma história que não deveria ser contada, mas que teima em existir.

A capa do DVD, ao estilo do traço meio tosco de Robert Crumb, exala o cheiro podre da solidão e nos remete ao pessimismo kafkaniano, evocando desilusão. O filme é um dedo na garganta que coloca tudo para fora após aquele porre, mas mesmo assim o enjoo permanece.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Spoiler!!! Neste filme, a marca d’água de Noé fica patente na cena em que o açougueiro soca a barriga de sua segunda mulher, que espera um filho dele.

*Rorschach é um dos personagens de ‘Watchmen’, antológica criação em quadrinhos de Alan Moore, com ilustrações de Dave Gibbons. O status psicológico do (anti-)herói criado por Moore pode ser de completa insanidade ou extrema lucidez, dependendo do ponto de vista.



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1 comentário

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