Indigência sentimental

A traição é tema recorrente tanto no cinema como na literatura. Funciona como o fermento que infla a libido e o imaginário. Que o digam o diretor francês Stéphane Brizé, responsável pelo drama “Mademoiselle Chambon” (2009), e a romancista americana Lionel Shriver, uma das estrelas da Flip deste ano, com o seu livro “O mundo pós-aniversário”.

Os motivos que levam o homem ou a mulher a trair são vários, mas os ingredientes principais geralmente são: a falência de um relacionamento engolido pela monotonia; divergências de expectativas que provocam atritos destrutivos; a descoberta de uma avassaladora (nova) paixão (há sempre um pivô destruidor de lares).

Essa é a fórmula em que a cineasta francesa Catherine Corsini apostou na construção do seu “Partir” (2009) que, após tímida passagem pelo circuito exibidor, chegou há pouco em DVD. A história se concentra na rotina familiar (linear como o ritmo cardíaco de um morto) da fisioterapeuta Suzanne (Kristin Scott Thomas). Mulher de classe média alta, na casa dos seus quarenta anos, está entorpecida pela ociosidade de uma vidinha de dondoca do Alto Leblon. Casada com um médico bem-sucedido e mãe de dois filhos, ela resolve voltar a trabalhar depois de um hiato de anos, de forma a dar novamente um sentido à sua existência morna.

O que ela não esperava é sentir o fogo da paixão − que considerava extinto dentro de si − ser reavivado (e arder forte por baixo de suas saias) pelo mestre de obras Ivan (Sergi López), um homem rústico e humilde por quem Suzanne se perde completamente. Inebriada pela luxúria, ela se rende aos desejos da carne e se afasta cada vez mais de sua realidade, erigindo entre quatro paredes uma biosfera para escudá-la de algo que não consegue mais entender como seu.

Opa! Olha a mão boba proibida para menores de 18 anos.

Decidida a abandonar seu casamento para viver com Ivan, Suzanne descobre da pior forma possível que ninguém sobrevive somente de sentimentos. Seu marido Samuel (Yvan Attal), provedor das necessidades materiais de toda família, resolve dificultar o relacionamento dos amantes secando a fonte de recursos da mulher, que se vê obrigada a humilhar-se para conseguir meios que garantam o mínimo.

A atuação de Kristin Scott Thomas é soberba nesse drama que esmiúça os dilemas (existenciais e prosaicos) de uma mulher esgarçada entre a felicidade e a responsabilidade − dimensões que muitas vezes são incompatíveis. Suzanne desafia o sentido de propriedade − que vem agregado ao substantivo família − em nome de sua verdade emocional. Sem abrir mão do charme, a atriz consegue transferir para a personagem toda a carga dramática de uma burguesa que desce ao inferno da indigência; que resolve jogar o dinheiro pela janela e aferrar-se ao que arrepia sua pele, embrulha seu estômago e faz sua pulsação acelerar.

A gramática dos relacionamentos na sociedade capitalista determina que o substantivo concreto deve prevalecer sobre o abstrato. Ou seja, o dinheiro fala mais alto que o amor. Catherine Corsini, filóloga do coração, coloca essa assertiva à prova amparada no talento de Kristin.

Carlos Eduardo Bacellar

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